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Brasil | Eleições
Esse bicho exótico ia alçar vôo... ...marcando
o início de uma aliança branca entre petistas e tucanos para
2007, mas o escândalo do dossiê abateu a criação
que vinha sendo discutida nos bastidores e, o que é ainda pior,
turvou o horizonte político do país 
Otávio Cabral
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Com
um bico imenso que representa um desafio à aerodinâmica, o tucano
é uma ave que, mesmo assim, consegue voar e, nos últimos
tempos, até vinha tentando alçar vôo carregando a estrela
vermelha do PT. Esse bicho estranho estava sendo gestado no zoológico da
política nacional por meio de conversas discretas entre líderes
do PSDB e do PT. Os contatos chegaram a acontecer em ritmo semanal. O tucano José
Serra, virtualmente eleito para o governo paulista, andava trocando idéias
com o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que não
é filiado ao PT, mas, depois da sucessão de petistas caídos,
acabou sendo um dos principais articuladores do governo Lula. Nos fins de semana,
Serra também vinha conversando com o presidente da Câmara, deputado
Aldo Rebelo, governista do PCdoB. Outro tucano de bico grosso, o governador mineiro
Aécio Neves, que deverá ser reeleito com votação consagradora,
tinha contatos diretos com o próprio presidente Lula e, quando preciso,
mandava recados pelo prefeito petista de Belo Horizonte, Fernando Pimentel. Nas
conversas, tucanos e petistas discutiam uma agenda de interesses comuns para 2007,
incluindo a conclusão da reforma tributária, o aprofundamento da
reforma da Previdência e aspectos da reforma política.
Ed Ferreira/AE  |
| Mello e Garcia, em encontro no TSE: uma tentativa de
desanuviar um pouco o ambiente | Com
o estouro do escândalo do dossiê, o bicho tucano-petista morreu antes
de nascer e turvou o horizonte político. "Um pacto com a oposição
em torno de reformas de interesse mútuo era possível mesmo", admite
o secretário-geral do PSDB, deputado Eduardo Paes, candidato tucano ao
governo do Rio de Janeiro. "Mas esse episódio do dossiê colocou água
em tudo. A apuração desses crimes trará conseqüências
graves para a política brasileira nos próximos quatro anos. É
um divisor de águas", prevê. O convívio entre petistas e tucanos
interessava aos dois lados. Para o presidente Lula, se reeleito, o acordo facilitaria
a aprovação de seus principais projetos no Congresso Nacional, na
medida em que despoluiria o ambiente parlamentar. Para José Serra e Aécio
Neves, o entendimento com o PT seria bem-vindo no exercício de seus mandatos
à frente dos governos estaduais, em que é sempre conveniente ter
uma boa relação com o Palácio do Planalto. Além disso,
os dois tucanos, na hipótese de reeleição de Lula, têm
planos de concorrer à sucessão presidencial em 2010. Até
lá, como aliado do governo petista, o tucanato se empenharia em aprovar
reformas impopulares, como a da Previdência Social, evitando o desgaste
de fazê-lo sob um governo do próprio PSDB.
Ao sepultar as chances de aproximação entre petistas e tucanos,
o escândalo do dossiê provocou um cenário de conflagração
política seja qual for o resultado da eleição presidencial.
Na semana passada, VEJA ouviu 21 especialistas, entre políticos de seis
partidos e cientistas políticos, para desenhar o cenário futuro.
No caso de Lula ser reeleito, descortina-se uma impressionante sucessão
de dificuldades. Alguns exemplos:
Ataques
da oposição Os líderes do PSDB e do PFL, os dois principais
partidos de oposição, prometem instalar uma CPI no Senado ainda
neste ano com o objetivo de investigar o escândalo do dossiê. A idéia
é descobrir se o grupo de petistas que tentou comprar o dossiê por
1,7 milhão de reais tinha conexão com a campanha reeleitoral de
Lula. A oposição também promete acompanhar de perto o processo
que corre no Tribunal Superior Eleitoral sobre se houve abuso de poder do comitê
de Lula no caso do dossiê uma ameaça tão concreta que,
na semana passada, o novo coordenador da campanha de Lula, Marco Aurélio
Garcia, se ocupou em visitar seu xará, Marco Aurélio Mello, presidente
do TSE, para desanuviar o ambiente. "Quando o mensalão e os sanguessugas
já estavam indo para a história, o PT produz um novo escândalo
que dá munição extra à oposição e, com
isso, fragiliza um eventual segundo mandato de Lula antes mesmo de seu início",
diz o cientista político Murillo de Aragão, da Arko Advice, empresa
especializada em análise política de Brasília.
Nilton Fukuda/AE  |
| Thomaz Bastos e o tucano José Serra: fim das conversas
para uma aliança |
Base de apoio Com o novo escândalo, o PT corre o risco de eleger
menos parlamentares do que o previsto. Nas últimas estimativas, calculava-se
que o partido conseguiria eleger entre oitenta e noventa deputados, número
muito próximo ao que elegeu em 2002. Agora, no entanto, essas estimativas
caíram para algo entre 65 e 75 deputados. Com isso, o governo Lula terá
menos apoio parlamentar e ficará mais dependente dos líderes do
PMDB, cujo preço a ser cobrado para defender o governo tende a aumentar.
"Não dá para esperar uma qualidade muito superior da base do novo
mandato em relação à do primeiro", afirma o cientista político
Rubens Figueiredo, do Cepac, consultoria política com sede em São
Paulo. "Lula continuará apostando na fisiologia e na cooptação
de deputados de outros partidos, principalmente do PMDB, mas com um preço
mais alto por causa dessa nova crise."
Dificuldades
no Congresso Além da falta de diálogo com os principais partidos
de oposição e de uma base de apoio altamente gelatinosa, o governo
encontrará uma situação adversa nas duas Casas do Congresso.
A Câmara estará ocupada com uma agenda atolada de processos de cassação
de sanguessugas e o Senado seguirá dominado pela oposição.
O governo terá problemas para aprovar seus projetos, principalmente no
início do mandato. "Espero um mandato com muita medida provisória,
com o Congresso decidindo tudo em cima da hora por falta de articulação
política. O governo é fraco em articulação política
e está sem articuladores", prevê a cientista política Lucia
Hippolito.
Montagem do governo Com o escândalo do mensalão, que veio
a público em junho do ano passado, o presidente Lula perdeu seu grupo de
confiança, no qual estrelavam os ministros José Dirceu e Antonio
Palocci. Agora, com o escândalo do dossiê, não chegou a perder
auxiliares importantes, mas arranhou severamente sua imagem. Com isso, Lula amplia
suas dificuldades para executar o plano de atrair notáveis para compor
seu ministério. "O novo governo de Lula, se houver, já vai começar
com cara de velho, sem ministros de grande expressão política, sem
nomes de destaque. O risco desse cenário é que Lula reforce a comunicação
direta com as massas, arte na qual é mestre mas que traz um custo alto
para o país", diz Gaudêncio Torquato, da Universidade de São
Paulo (USP).
Marcos D'Paula/AE  |
| Bornhausen e Tasso Jereissati, líderes da oposição: acenando
com o impeachment |
Com todos esses obstáculos pela frente e com tantos fantasmas de campanha
para exorcizar, Lula pode fazer um segundo governo sob a pesada ameaça
de um impeachment o que seria desastroso para seu governo e para a estabilidade
política. "Lula corre o risco de ter um segundo governo com desgaste semelhante
ao de Nixon", diz Murillo de Aragão, da Arko Advice. Eleito para a Casa
Branca em 1968, Richard Nixon foi reeleito em 1972, mas renunciou ao segundo mandato
em decorrência do escândalo de Watergate, patrocinado no primeiro
mandato. "Hoje, parece difícil imaginar um impeachment, pois não
há mobilização da sociedade civil, que parece anestesiada.
Mas o desgaste de Lula será inevitável", completa Aragão.
Na semana passada, no entanto, o atual presidente da Ordem dos Advogados do Brasil,
Roberto Busato, anunciou que a entidade, depois de encerradas as eleições
e empossada uma nova legislatura no Congresso, pode voltar a debater a proposta
de apresentar um pedido de abertura de processo de impeachment contra Lula. É
um sinal de que, talvez, a apatia da sociedade esteja chegando ao fim. "O assunto
pode voltar à tona", diz Roberto Busato.
Na hipótese mais remota de uma vitória do tucano Geraldo Alckmin
para o Palácio do Planalto, o futuro também se mostra conflagrado,
na opinião dos especialistas. No plano político, o PT faria uma
oposição implacável e virulenta, julgando-se apeado do poder
por "golpismo das elites". No plano administrativo, ninguém prevê
que, em caso de vitória tucana, o PT promova uma transição
civilizada como a que se deu de Fernando Henrique Cardoso para Lula. "Alguém
duvida que os petistas queimem documentos, apaguem arquivos ou coisas parecidas
antes de deixar o governo? Trabalhamos com a hipótese de uma transição
sem nenhum traço de civilidade ou cortesia política", diz o senador
Jorge Bornhausen (SC), presidente do PFL. Além disso, os movimentos sociais
que atuam como braço do petismo, sobretudo a CUT dos sindicalistas e o
MST dos sem-terra, tenderiam a radicalizar suas ações. "Os movimentos
sociais serão o xis da questão em caso de vitória de Alckmin.
Eles não se conformarão em perder espaço no governo e vão
radicalizar. Já estamos preparados para isso", diz o líder do PFL
no Senado, José Agripino, que lutou para ser vice de Alckmin, mas perdeu
a batalha para o senador José Jorge, do PFL de Pernambuco.
Num horizonte com nuvens tão carregadas, se reeleito, Lula terá
de se empenhar duramente para governar. Visto da reta final da campanha, o quadro
parece tão delicado que o deputado Moreira Franco, do PMDB do Rio de Janeiro,
aconselha o presidente a mirar-se no exemplo do governo de Fernando Collor de
Mello. "O governo Collor é uma experiência rica que não deve
ser desprezada", diz o deputado, que acompanhou a queda de perto. Em primeiro
lugar, Lula não deve dar sinais de que desdenha da classe política.
"Collor fez isso ao dizer que Ulysses Guimarães era um velho que não
merecia respeito e angariou a antipatia de toda uma geração de políticos
que lutou contra a ditadura militar", relembra Moreira Franco. Em segundo lugar,
Lula não pode abdicar de sua autoridade presidencial, aceitando um ministério
imposto por aliados como Collor também fez. "Lula tem de manter
a autoridade, a compostura, enfrentar a crise de maneira republicana. Tem de trazer
quadros de referência moral para o governo, mas não pode abrir mão
da autoridade ao fazer um ministério dele, de pessoas de sua confiança,
não apenas de notáveis. Caso contrário, não conseguirá
governar." Talvez tudo isso seja útil para Lula e para o país, mas
é lamentável que um governante, às vésperas de ganhar
um segundo mandato, tenha de se amparar justamente na experiência de Collor.
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