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Brasil | Eleições
2006 Tensão e dinheiro na chegada
A poucas horas do primeiro turno, o partido do presidente Lula tenta impedir
na Justiça a divulgação das imagens do dinheiro com
que petistas pretendiam comprar o dossiê contra o tucano José
Serra  Julia
Duailibi e Renato Piccinin Montagem
sobre fotos de Marcelo Hernadez/AP, Carlo Wrede/AE, Konrad Stawicki/Reuters
 | | De
acordo com uma pesquisa do Instituto Vox Populi encerrada às 18 horas de
sexta-feira, o presidente Lula mantém a dianteira na corrida presidencial,
mas nas duas últimas semanas perdeu boa parte da vantagem que tinha sobre
os outros candidatos. Em 15 de setembro, Lula tinha 17 pontos a mais do que a
soma das intenções de voto de seus adversários. Agora, está
apenas 4 pontos à frente |
A poucas horas
do primeiro turno da eleição presidencial, estilhaços da
guerra que vem sendo travada na Polícia Federal desde o estouro do dossiêgate
fizeram estremecer o comitê de campanha do presidente Lula. No dia seguinte
ao massacre sofrido no debate da Rede Globo ao qual o petista não
compareceu, deixando adversários como Heloísa Helena à vontade
para dizer que ele tinha a obrigação de "descer do seu trono de
corrupção" , Lula amargou o dissabor de ver divulgadas as
imagens que seus subordinados no governo tão cuidadosamente haviam conseguido
esconder por duas semanas: as das pilhas de dólares e reais com que petistas
pretendiam comprar um falso dossiê com o intuito de incriminar o tucano
José Serra. O PT ainda tentou evitar que se divulgassem as fotos. No início
da noite de sexta-feira, entrou com pedido de liminar no Tribunal Superior Eleitoral
para impedir que elas fossem reproduzidas por qualquer meio de comunicação.
O pedido foi negado. As cédulas, totalizando 1,7 milhão de reais,
foram apreendidas pela PF no último dia 15. Como é praxe nas operações
da instituição, foram empilhadas e fotografadas, mas as imagens
ainda não haviam sido divulgadas (como também é praxe na
PF) por determinação do ministro da Justiça, Márcio
Thomaz Bastos, a quem a PF está subordinada.
A submissão de uma instituição que, nos últimos anos,
havia conquistado uma imagem de autonomia e a maior popularidade de seus mais
de sessenta anos de história irritou parte de seus integrantes a ponto
de eles tornarem pública sua insatisfação. Na quarta-feira
passada, nota assinada pela Federação Nacional dos Delegados de
Polícia Federal acusava o governo de "usar a imagem" da PF e propunha autonomia
"orçamentária e financeira" da instituição. Embora
o pano de fundo da manifestação dos policiais sejam a velha discussão
por reajuste salarial e a disputa por poder na cúpula da entidade, ela
colocou no centro do debate, às vésperas da eleição,
o uso político de mais um órgão público a favor dos
interesses partidários e particulares do presidente Lula e de seus ministros.
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reais e os dólares (à esq.) que estavam com os petistas presos
e que foram entregues a eles por um assessor do candidato ao governo de São
Paulo Aloizio Mercadante (abaixo). O PT tentou esconder as imagens por
meio de liminar | Clayton de
Souza/AE
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Em reportagem publicada em sua última edição, VEJA já
informava que, passada uma semana da prisão dos envolvidos no escândalo,
a Polícia Federal não havia sequer entrado em contato com três
bancos dos quais teriam sido sacados os reais usados na tentativa de compra do
dossiê. Informou ainda que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras
(Coaf), órgão que fiscaliza as movimentações financeiras,
também não havia fornecido dados sobre as investigações.
Agora, está claro que nada disso ocorreu por acaso. Na semana passada,
VEJA reconstituiu os passos da operação que revelou o dossiêgate
e conversou com policiais que participaram dela. Descobriu que a denunciada "operação
tartaruga" da PF foi mesmo uma "operação abafa".
Na madrugada do dia 15, a equipe de plantão da Superintendência da
Polícia Federal em São Paulo recebeu de Mato Grosso um fax, confidencial,
pedindo a identificação e a localização no hotel Ibis
de "Valdebran Padilha, que poderá estar registrado como Waldebran Carlos,
o qual, em tese, estaria hospedado no apartamento 475". O documento dizia que
"o alvo Valdebran estaria guardando nas dependências do hotel, possivelmente
no quarto 475, a quantia aproximada de 1 milhão de reais". Embora a Polícia
Federal tenha descoberto a operação de compra do dossiê por
meio de escutas telefônicas, estranhamente em momento algum o documento
mencionava a existência de Gedimar Passos, o ex-agente da PF e integrante
do PT que estava no quarto ao lado com o resto do dinheiro. Tudo indica que o
ex-agente, que dedurou a participação no caso do segurança
Freud Godoy, amigo de Lula, foi preso sem querer. A prisão de Gedimar,
integrante da campanha de reeleição do presidente, causou tremores
em Brasília. Primeiro, foi Zulmar Pimentel, o número 2 da PF, quem
entrou em contato com a superintendência em São Paulo para se inteirar
da situação. Depois, foi a vez de Paulo Lacerda, diretor do órgão
e chefe de Pimentel. Por fim, o próprio ministro da Justiça, Márcio
Thomaz Bastos, sem conseguir conter-se, telefonou para Geraldo José Araújo,
superintendente da PF em São Paulo, para perguntar: "Isso respinga no presidente?".
Beto
Barata/AE
 | | Vedoin
(à dir.): o empresário receberia o dinheiro em troca de um dossiê
contra os tucanos |
Os tropeções
da Polícia Federal foram ocorrendo com rapidez inversamente proporcional
à da investigação. A Polícia Federal foi a primeira
a vir a público dizer que seria muito difícil rastrear a origem
dos reais encontrados nos quartos 475 e 479 naquela sexta-feira. Afirmou que,
desse milhão, apenas 25.000 reais tinham tarja com identificação.
VEJA apurou que a maior parte dos reais estava, sim, identificada, a ponto de
as tarjas lotarem as cestas de lixo dos quartos de Valdebran e Gedimar. A polícia,
no entanto, coletou apenas cinco desses lacres para locar no inquérito
como amostra. O resto fez o favor de jogar no lixo. Mas a "operação
tartaruga" da Polícia Federal não parou por aí. Os 28 DVDs
com imagens das câmeras do hotel foram disponibilizados pela gerência
do Ibis na segunda-feira posterior às prisões. Mas a PF só
teve interesse em buscá-los na quarta-feira. Mandar para a perícia,
então... Só dois dias depois, quando foram enviados para o Instituto
Nacional de Criminalística, em Brasília. Descobriu-se aí
que Hamilton Lacerda, então coordenador de comunicação da
campanha de Aloizio Mercadante, era o homem da mala, o que pagou pelo dossiê.
Na sexta-feira passada, enquanto Lacerda prestava depoimento à polícia,
veio a público a informação de que o ex-coordenador de comunicação
da campanha de Mercadante ocupava também a função de assessor
parlamentar do senador. Oscar
Cabral
 | | Cadeira
vazia: "Lula tinha a obrigação de descer do seu trono de corrupção",
afirmou Heloísa Helena |
A Polícia Federal também imprimiu marcha lenta ao pedir à
Justiça Federal a quebra dos sigilos telefônico e bancário
dos seis petistas envolvidos na operação do dossiê. O pedido
foi enviado ao Judiciário apenas na segunda-feira, ou seja, dez dias depois
de o trambique do pessoal do PT ter se tornado público. Com o mesmo ritmo,
a PF também demorou os mesmos dez dias para fazer uma reunião com
o Coaf, órgão ligado ao Ministério da Fazenda, para pedir
ajuda no rastreamento de parte do dinheiro. No que parece inimaginável,
só na quinta-feira passada o Banco Central foi acionado para informar quem
comprou dólares do Banco Sofisa, instituição da qual saiu
parte dos 248.000 dólares apreendidos no hotel Ibis. Na quinta-feira, a
oposição foi a campo atacar a polícia do ministro Márcio
Thomaz Bastos. "Eu suspeito que a PF tenha todas as informações
e esteja postergando as investigações para depois das eleições",
declarou o senador Tasso Jereissati, do PSDB do Ceará. Roberto
Jayme/AE
 | | Tasso
Jereissati: "A PF está atrasando o resultado das investigações para depois das
eleições" |
Em sua fase final, a campanha
presidencial exibe um placar quase idêntico ao do dia em que começou.
Em 29 de junho, a uma semana do início oficial da corrida presidencial,
Lula tinha 46% das intenções de voto, Alckmin 29% e Heloísa
Helena 6%, de acordo com pesquisa Datafolha. Na semana passada, transcorridos
quase noventa dias de viagens, comícios e propaganda eleitoral, Lula e
Heloísa Helena mostravam crescimentos compatíveis com a margem de
erro de 3 pontos porcentuais da pesquisa (49% e 8%), e Alckmin aparecia com apenas
4 pontos a mais em relação ao que possuía na reta de largada
ou seja, 33% das intenções de voto. Se chama atenção
a dificuldade de Alckmin e Heloísa Helena de sair do lugar, a resistência
demonstrada pela candidatura Lula é um sinal dos tempos. Só nos
últimos quarenta dias ela foi atingida por dois escândalos: além
do dossiêgate, houve ainda o sumiço de parte das cartilhas da Secom.
Antes disso, já havia sobrevivido a uma série de outros mensalão,
caixa dois e dólar na cueca incluídos. A enxurrada de revelações
sobre corrupção que envolveu o governo Lula desde junho de 2005
arrastou nada menos do que quinze pessoas próximas ao presidente, incluindo
três de seus homens fortes no governo (José Dirceu, Antonio Palocci
e Luiz Gushiken, este último ainda no poder, mas rebaixado de posto); três
altos dirigentes de seu partido (José Genoíno, Delúbio Soares
e Silvio "Land Rover" Pereira); e três chefes de sua campanha à reeleição
(Ricardo Berzoini, Osvaldo Bargas e Jorge Lorenzetti). Até sexta-feira
passada, nada disso havia sido suficiente para abalar Lula.
Em comício realizado em São Bernardo do Campo, na quinta-feira,
o presidente voltou a afirmar que será reeleito no primeiro turno. Ainda
que isso ocorra, Lula terá um desafio muito maior pela frente do que vencer
o tucano Geraldo Alckmin: o de evitar que um eventual segundo mandato seja, como
foi o primeiro, manchado pela nódoa da corrupção que,
ao contrário do que parecem querer o presidente e seus assessores, não
se apaga com liminares nem com operações abafa. |