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Edição 1976 . 4 de outubro de 2006

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Auto-retrato
Eduardo Costantini

Editorial Perfil


Há cinco anos, o milionário argentino Eduardo Costantini, de 59 anos, criou um museu, o Malba, em Buenos Aires, para expor sua coleção particular de arte latino-americana. As 300 obras do acervo valem 50 milhões de dólares. Casado com uma brasileira, Costantini falou com o repórter Duda Teixeira de seu escritório no museu

QUE PAÍS LATINO-AMERICANO TEM AS ARTES PLÁSTICAS MAIS VALORIZADAS?
Pela ordem, México, Brasil e Argentina. Os artistas se valorizam pela qualidade individual e pelos caminhos que abriram, participando de correntes de vanguarda. É o caso de Diego Rivera, Torres García, Tarsila do Amaral, Rêgo Monteiro, Portinari, Di Cavalcanti e Alfredo Volpi. Entre os pintores vivos, Fernando Botero, da Colômbia, é o mais caro.  

COMO O SENHOR COMPROU O ABAPORU, DA MODERNISTA BRASILEIRA TARSILA DO AMARAL?
Em um leilão em Nova York, em 1995. O colecionador havia tentado durante seis meses vendê-lo no Brasil, batendo à porta de museus e de famílias ricas. Ninguém queria. Há dois meses, a própria pessoa que vendeu o Abaporu, um operador do mercado financeiro, me ligou do Brasil querendo comprá-lo de volta. Ele disse que um grupo de empresários brasileiros queria a repatriação do quadro. O Abaporu é a obra mais importante do Brasil e tem um valor cultural e pictórico inestimável. Eu respondi que não. O Abaporu está para o Malba assim como a Mona Lisa está para o Louvre. Muitos brasileiros vêm ao Malba só para ver a pintura.  

SEU MUSEU ESTÁ COM DIFICULDADE FINANCEIRA?
O Malba é sustentado por uma fundação que leva meu nome. Dedico 300 000 dólares por ano para incrementar a coleção. O Malba funciona com um déficit anual de 2,5 milhões de dólares. Criei o museu cinco anos atrás e há muito tempo estou tentando convencer famílas ricas da Argentina a ajudar com doações para ampliá-lo. Até hoje não consegui nada.  

POR QUE O SENHOR NÃO CONSEGUE DOAÇÕES?
Uma das razões é que o Malba está muito associado a meu nome, o que desestimula potenciais doadores. O principal motivo, no entanto, é que as famílias ricas argentinas e latino-americanas só querem usar seu dinheiro para comprar casas, terras, propriedades no exterior e barcos. Nos Estados Unidos, Bill Gates doou 50% de seu capital e Warren Buffett vai doar 85%. Lá isso é normal. Aqui, se uma pessoa faz doações, é considerada maluca. Toda vez que alguém doa certa quantia, a sociedade pensa que há armação, que o objetivo é fazer lavagem de dinheiro. Também já fui acusado disso. Na Argentina, na década de 70, até a Igreja Católica se envolveu em esquemas fraudulentos de doações. Hoje, casos assim são uma exceção.  

QUAL SUA OPINIÃO SOBRE O ESTADO DOS MUSEUS BRASILEIROS?
Situações como a do Masp (Museu de Arte de São Paulo), que teve a luz cortada por falta de pagamento, são inacreditáveis. O Masp é um caso de falência do Estado, que também falhou com os hospitais e as escolas, e da classe alta, que não percebe sua responsabilidade social. Não há famílias dispostas a sustentar o Masp ou o Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro. Vejam meu exemplo: recebo apenas agradecimento e reconhecimento pelo Malba, mas isso me basta.

POR QUE O SENHOR COMEÇOU A COLECIONAR ARTE?
Quando era criança, colecionei pombas, tampinhas de refrigerante e selos. Mais tarde, entrei em uma galeria e comprei dois quadros, com pagamento parcelado. Segui colecionando até hoje, sempre pensando em ter um conjunto de obras latino-americanas.  

O QUE FALTA AOS MUSEUS BRASILEIROS E ARGENTINOS?
Falta capacidade de sedução. Museu é como mulher: não basta ter conteúdo, tem de ser bonita e saber seduzir. Um museu em um prédio bonito, por exemplo, tende a atrair mais visitantes.

 
 
 
 
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