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Auto-retrato Eduardo
Costantini
Editorial
Perfil
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Há
cinco anos, o milionário argentino Eduardo Costantini, de 59 anos, criou
um museu, o Malba, em Buenos Aires, para expor sua coleção particular
de arte latino-americana. As 300 obras do acervo valem 50 milhões de dólares.
Casado com uma brasileira, Costantini falou com o repórter Duda Teixeira
de seu escritório no museu
QUE PAÍS
LATINO-AMERICANO TEM AS ARTES PLÁSTICAS MAIS VALORIZADAS? Pela
ordem, México, Brasil e Argentina. Os artistas se valorizam pela qualidade
individual e pelos caminhos que abriram, participando de correntes de vanguarda.
É o caso de Diego Rivera, Torres García, Tarsila do Amaral, Rêgo
Monteiro, Portinari, Di Cavalcanti e Alfredo Volpi. Entre os pintores vivos, Fernando
Botero, da Colômbia, é o mais caro. COMO
O SENHOR COMPROU O ABAPORU, DA MODERNISTA BRASILEIRA TARSILA DO AMARAL?
Em um leilão em Nova York, em 1995. O colecionador havia tentado durante
seis meses vendê-lo no Brasil, batendo à porta de museus e de famílias
ricas. Ninguém queria. Há dois meses, a própria pessoa que
vendeu o Abaporu, um operador do mercado financeiro, me ligou do Brasil
querendo comprá-lo de volta. Ele disse que um grupo de empresários
brasileiros queria a repatriação do quadro. O Abaporu é
a obra mais importante do Brasil e tem um valor cultural e pictórico inestimável.
Eu respondi que não. O Abaporu está para o Malba assim como
a Mona Lisa está para o Louvre. Muitos brasileiros vêm ao
Malba só para ver a pintura. SEU
MUSEU ESTÁ COM DIFICULDADE FINANCEIRA? O Malba é sustentado
por uma fundação que leva meu nome. Dedico 300 000 dólares
por ano para incrementar a coleção. O Malba funciona com um déficit
anual de 2,5 milhões de dólares. Criei o museu cinco anos atrás
e há muito tempo estou tentando convencer famílas ricas da Argentina
a ajudar com doações para ampliá-lo. Até hoje não
consegui nada. POR QUE O SENHOR NÃO
CONSEGUE DOAÇÕES? Uma das razões é que o Malba
está muito associado a meu nome, o que desestimula potenciais doadores.
O principal motivo, no entanto, é que as famílias ricas argentinas
e latino-americanas só querem usar seu dinheiro para comprar casas, terras,
propriedades no exterior e barcos. Nos Estados Unidos, Bill Gates doou 50% de
seu capital e Warren Buffett vai doar 85%. Lá isso é normal. Aqui,
se uma pessoa faz doações, é considerada maluca. Toda vez
que alguém doa certa quantia, a sociedade pensa que há armação,
que o objetivo é fazer lavagem de dinheiro. Também já fui
acusado disso. Na Argentina, na década de 70, até a Igreja Católica
se envolveu em esquemas fraudulentos de doações. Hoje, casos assim
são uma exceção. QUAL
SUA OPINIÃO SOBRE O ESTADO DOS MUSEUS BRASILEIROS? Situações
como a do Masp (Museu de Arte de São Paulo), que teve a luz cortada
por falta de pagamento, são inacreditáveis. O Masp é um caso
de falência do Estado, que também falhou com os hospitais e as escolas,
e da classe alta, que não percebe sua responsabilidade social. Não
há famílias dispostas a sustentar o Masp ou o Museu de Arte Moderna,
no Rio de Janeiro. Vejam meu exemplo: recebo apenas agradecimento e reconhecimento
pelo Malba, mas isso me basta. POR QUE O SENHOR
COMEÇOU A COLECIONAR ARTE? Quando era criança, colecionei
pombas, tampinhas de refrigerante e selos. Mais tarde, entrei em uma galeria e
comprei dois quadros, com pagamento parcelado. Segui colecionando até hoje,
sempre pensando em ter um conjunto de obras latino-americanas.
O QUE FALTA AOS MUSEUS BRASILEIROS E ARGENTINOS?
Falta capacidade de sedução. Museu é como mulher: não
basta ter conteúdo, tem de ser bonita e saber seduzir. Um museu em um prédio
bonito, por exemplo, tende a atrair mais visitantes. |