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A primeirona

Romances sobre loira burra
original saem no Brasil

Flávio Moura


Nos últimos quatro anos, uma personagem feminina conquistou enorme espaço nas listas de mais vendidos. É a mulher jovem e solteira, bem-sucedida no trabalho, cujos maiores problemas são abandonar o cigarro, controlar o peso e encontrar um namorado decente. A primeira a descrever tal figura foi a inglesa Helen Fielding, no romance O Diário de Bridget Jones. Em seu rastro, não pararam de surgir variações sobre a "mulher dos anos 90". Para quem se cansou do tipo, existe uma opção: o clássico Os Homens Preferem as Louras, editado pela primeira vez no Brasil, juntamente com sua continuação, Mas os Homens Se Casam com as Morenas (tradução de Beatriz Horta; Record; 174 e 158 páginas; 18 reais cada um). Os romances foram escritos pela americana Anita Loos, em 1925 e 1927, respectivamente. Ambos têm como narradora uma garota do interior chamada Lorelei Lee. Ela é a mãe de todas as loiras burras, mas sedutoras, que até hoje povoam o imaginário popular. A diva Marilyn Monroe encarnou o tipo no cinema. Com voz de veludo, imortalizou o lema: "Os diamantes são os melhores amigos de uma garota".

Essa frase não aparece no livro de Anita Loos, mas há fartura de outras com o mesmo teor e a mesma graça. Filha de gente endinheirada da Califórnia, Anita (1893-1981) conviveu com a fina flor da intelectualidade americana no começo do século. Intrigada com o deslumbramento de seus amigos diante de loiras que não eram exatamente artífices do saber, ela decidiu ironizar o tipo – e também os homens que caíam em sua teia. Inventou Lorelei, uma garota que sai do Arkansas, o Piauí dos Estados Unidos, para seduzir ricaços e circular pelos salões da alta sociedade de Nova York e da Europa. Algo como uma versão mais sofisticada das personagens encarnadas por Danielle Winits nas novelas da Globo. Ao ler Os Homens Preferem as Louras em primeira mão, o jornalista H.L. Mencken adorou a provocação e sugeriu à revista Harper's Bazaar que publicasse o texto. O sucesso foi imediato. O primeiro-ministro inglês Winston Churchill, o filósofo americano George Santayana e o romancista irlandês James Joyce foram alguns dos fãs confessos de Lorelei. A moça raciocina de maneira torta, realiza malabarismos lógicos, chega às conclusões mais estapafúrdias, mas consegue que o mundo se dobre a seus caprichos, graças a um certo, digamos, "magnetismo". A tradução brasileira conseguiu reproduzir direitinho a escrita titubeante da moça. Há poucas escolhas duvidosas. Por exemplo: ela erra ao escrever "imaginassão" e "inguinorar", mas acerta todas as crases e concordâncias. No geral, contudo, a graça de Lorelei chega intacta ao português. Ela deve continuar cativando leitores. Difícil imaginar que o mesmo valha para Bridget Jones daqui a setenta anos.

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