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Acaba a festa e o
Brasil cai na real

País mantém sua média nos Jogos, mas
decepciona os torcedores que
esperavam
um desempenho
melhor dos esportes
coletivos e a
superação do recorde de
quinze
medalhas obtido em Atlanta

Maurício Cardoso e Sérgio Ruiz Luz, de Sydney

 
Antonio Milena

O iatista

Scheidt: prata disputada palmo a palmo com o rival inglês

A campanha dos 205 atletas nacionais na Austrália deixou um forte sabor de decepção na boca da torcida. Entre outras tragédias, o time de Wanderley Luxemburgo sofreu uma morte súbita diante de Camarões, Gustavo Kuerten tombou diante do russo Kafelnikov e a especialista do salto em distância Maurren Higa Maggi, que se achava capaz de se tornar a primeira brasileira a ganhar uma medalha no atletismo, não passou da eliminatória. Na semana passada, depois de dois pulos medíocres, ela desabou no tanque de areia, chorando por causa de uma contusão na coxa direita. "Doeu mais no coração", dizia, decepcionado, o técnico Nélio Moura. Outra modalidade da qual se esperava muito, o vôlei de praia, terminou os Jogos de Sydney com um bronze e duas pratas, metade das medalhas em disputa na arena de Bondi Beach. Em vez de festa, o clima era de velório. A supremacia brasileira nesse esporte foi tamanha nos últimos anos que havia uma expectativa de conquista de duas medalhas de ouro em Sydney. Um dia após perderem a final para uma dupla australiana, as tricampeãs mundiais Adriana Behar e Shelda Bede continuavam circulando pela praia com os olhos inchados, inconsoláveis com a inesperada derrota na véspera. "Só no Brasil podem reclamar que um esporte ganhou apenas três medalhas", afirma o paraibano Zé Marco, da dupla masculina que conquistou a prata.

Boa parte dessa sensação de fracasso ocorreu porque os esportes coletivos, centro das atenções de uma parcela expressiva da torcida brasileira, não empolgaram em Sydney. Os times masculinos ficaram com o pior desempenho. O basquete nem sequer se classificou para a disputa, o futebol deu vexame contra Camarões e o vôlei parou na Argentina. Além disso, havia uma grande expectativa de que o país superasse o recorde de quinze medalhas dos Jogos de Atlanta, em 1996. Não foi o que ocorreu. Na contabilidade final, porém, o Brasil ficou perto de sua média histórica. Nem melhor, nem pior. Mesmo com uma das dez maiores economias do mundo e a quinta maior população do planeta, o país sempre come poeira nas Olimpíadas por um motivo óbvio, mas geralmente esquecido no calor das derrotas: não existe investimento sério em educação esportiva no país. Sem essa base fundamental, a posição do Brasil nas competições internacionais oscila ao sabor do desempenho de algumas ilhas de excelência.

A equipe de hipismo está nesse grupo que nada tem a ver com a realidade do esporte brasileiro. Ela é comandada pelo cavaleiro Rodrigo Pessoa, que nasceu em Paris, mora atualmente na Bélgica e monta um cavalo francês avaliado em mais de 5 milhões de dólares. Na última quinta, o time nacional conquistou o bronze, depois de uma disputa ferrenha com os franceses. Durante a coletiva de imprensa realizada após a prova, os vencedores responderam às perguntas dos jornalistas em vários idiomas – alemão, inglês e francês. Nenhuma palavra em português. Outra dessas ilhas de excelência é o iatismo. Na última sexta, depois de se revezar durante nove dias na liderança das regatas da classe Laser com o inglês Ben Ainslie, o iatista Robert Scheidt ficou com a medalha de prata. Os Jogos da Austrália também consagraram o nadador Gustavo Borges. Ao ajudar sua equipe a conquistar o bronze na prova de revezamento 4 por 100, ele acumulou um total de quatro medalhas olímpicas – um recorde esportivo nacional. Até a última sexta, Torben Grael, o melhor iatista brasileiro de todos os tempos, liderava a competição da Star. Grael estava na luta para igualar o número de medalhas do nadador, com a vantagem de que já possui uma de ouro – contra nenhuma de Gustavo.

No atletismo, o Brasil chegou à final de três provas individuais e à do revezamento 4 por 100. Nessa última modalidade, a equipe liderada pelo corredor Claudinei Quirino da Silva classificou-se com o terceiro melhor tempo para a final prevista para o sábado 30 (acompanhe o resultado da prova em VEJA on-line). É um bom desempenho, se se considerar que a maioria dos corredores da equipe treina numa pista esburacada do interior de São Paulo e arrasta pneus para fortalecer os músculos. O restante da turma apresentou uma performance à altura do que se poderia esperar de um exército Brancaleone. Luciana Alves dos Santos, especialista em salto em distância, queimou suas três tentativas de obter um índice para as finais. A explicação: "Depois que errei os três saltos, fiquei pensando que descobri o sentido da vida. O sentido da vida é amar as pessoas, isto aqui é só uma competição". O canoísta Sebastián Cuattrin, outro que chegou entre os últimos, alegou falta de experiência – até ser lembrado que Sydney já era sua terceira olimpíada. A arremessadora de dardo Sueli Pereira dos Santos também ficou longe da final de sua modalidade. "Quebrei a unha e perdi a concentração", contou, depois de ser eliminada. O corredor Márcio Simão de Souza, que foi desclassificado após derrubar sete das nove barreiras de sua prova, acabou definindo de forma precisa a distância entre o Brasil e os atletas bem mais velozes que ele: "Esse pessoal tem sebo nas canelas".

 

Decepção e esperança

Antonio Milena


Maurren queria ser
a primeira saltadora brasileira a chegar ao pódio, mas ficou na caixa de areia. Já o corredor Claudinei Quirino da Silva, às vésperas do encerramento, mantinha as esperanças do atletismo na prova de revezamento 4 por 100

Marcos André Pinto/COB/divulgação

 

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