Doping
Sydney
deveria ter sido uma Olimpíada de
"tolerância zero" em relação ao uso de
drogas para melhorar o desempenho.
Acabou sendo uma barafunda de fraudes,
sanções controversas e suspeitas corrosivas
Dorrit
Harazim
AFP
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AP

A
PERDA DO OURO
A
romena Andreea Raducan, primeira ginasta a ser punida por uso
de doping, perde a medalha mais prestigiosa do esporte – a prova
individual geral. Assustada e chorosa, passou os dias seguintes
entre competições e audiências para tentar reverter a punição
|
Na
noite da quinta-feira passada, quando o grego Konstantinos Kenteris
correu do anonimato para o estrelato em 20,09 segundos, ao vencer
uma das provas mais nobres do atletismo os 200 metros ,
a boataria começou. Era a primeira vez que um atleta branco
vencia essa corrida desde que o italiano Pietro Mennea levou o ouro
nos Jogos de Moscou, vinte anos atrás só que
naquelas Olimpíadas, marcadas pelo boicote dos Estados Unidos,
mais de sessenta países nem sequer competiram. Kenteris também
foi o primeiro atleta grego a ganhar uma prova de pista em mais
de 100 anos de história dos Jogos antes dele, só
Spiridion Louis, na maratona de 1896. Pior, Kenteris, de 27 anos,
cujo nome consta só marginalmente do anuário da Federação
Internacional de Atletismo, chegou à frente de nomes que
freqüentam o ranking com regularidade, como o americano Darren
Campbell, Ato Boldon, de Trinidad, ou o brasileiro Claudinei Quirino.
Em outros tempos, seria a glória pura para Kenteris. Nos
tempos de Sydney, a vitória do grego jamais será absoluta.
Ela já nasce condenada à suspeição de
doping, refletindo o estado de corrosão e desconfiança
irracional que tomou conta dos Jogos de 2000.
Não
foi diferente com a nadadora holandesa Inge de Bruijn, cuja espetacular
atuação nas piscinas, aos 27 anos, lhe trouxe três
medalhas de ouro, três recordes mundiais, além de uma
medalha de prata. Apenas mais explícito. "Não respondo
a perguntas sobre doping", informou aos jornalistas que lotavam
sua primeira entrevista coletiva. A sala esvaziou em minutos. E
como não se admirar com a ressurreição olímpica
de Heike Drechsler, que na noite de sexta-feira, aos 35 anos, derrotou
todas as adversárias no salto em distância? Seu primeiro
título mundial foi conquistado dezessete anos atrás,
vestindo o uniforme da antiga Alemanha Oriental, um dos maiores
celeiros de doping da época.
All Bello/AllSport
 |
SEM
RESPOSTA
A
natação foi tomada de assalto pela holandesa Inge de Bruijn,
que não escapou da boataria |
Foi como se duas Olimpíadas estivessem ocorrendo simultaneamente.
Uma, estelar, empolgante, alegre e ruidosa, envolvendo atletas em
competição e público em adoração.
A outra, soturna, silenciosa, noturna e clandestina, envolvendo
polícia, advogados, dirigentes, entidades e laboratórios.
No meio das duas, uma constatação há muito
adiada: o doping derrotou os Jogos. Ou, como sugere The New York
Times, ele talvez devesse se tornar uma nova modalidade olímpica.
Até a noite da quarta-feira, dezoito competidores e dois
técnicos tinham sido expulsos de Sydney. Na noite da sexta-feira,
o total de atletas pegos pela malha antidoping, incluindo-se aí
aqueles com testes feitos antes dos Jogos, já havia subido
para 36. Ou 2,85% dos atletas testados o dobro do usual.
Melhorou a precisão dos testes? Sim. O universo dos esportistas
testados foi ampliado? Também. Os critérios adotados
em Sydney foram os mais rigorosos possíveis? Talvez. Só
que os furos na malha continuam paquidérmicos. Para começar,
ainda não existem testes para medir com segurança
a taxa de hormônio de crescimento masculino sintético,
o mais poderoso esteróide do momento. Também a eritropoetina
(EPO), que estimula a produção das células
vermelhas, aumenta a resistência e foi testada pela primeira
vez em Sydney, saiu premiada. É que os testes aplicados só
conseguiam monitorar os casos de doping ocorridos até 72
horas antes da coleta do material. Previsivelmente, não acusaram
nenhum resultado positivo. Se pudessem detectar a substância
ingerida até um ou dois meses antes das provas, o batalhão
de atletas da química talvez fosse menor.
O
que fazia numa madrugada da semana passada, fechada durante cinco
horas no Renaissance Hotel e cercada de dirigentes adultos e grandalhões,
a tri-medalhada romena Andreea Raducan? Sendo a ginasta mais jovem
dessas Olimpíadas (16 anos), a diminuta atleta (1,48 metro
de altura e 37 quilos) deveria estar adormecida num quarto da Vila
Olímpica, saboreando suas conquistas. Mas estava ali, assustada
e muda, como o mais improvável olho do furacão do
doping. Poucas horas antes de tentar o terceiro ouro nos exercícios
de solo, fora informada de que o teste antidoping feito quatro dias
antes continha traços de pseudoefedrina, listada como estimulante
proibido para ginastas. Andreea havia ingerido duas aspirinas Nurofren
que o médico da equipe romena lhe havia dado dez minutos
antes da prova individual geral, a mais prestigiosa da ginástica.
O fato de o Nurofren ser comprável em qualquer farmácia
sem receita médica em nada alterou o veredicto, baseado no
princípio da "tolerância zero": o médico foi
redespachado para a Romênia no primeiro vôo, e Andreea
penalizada com a perda do ouro obtido naquela prova. A medalha passaria
às mãos da segunda colocada, "numa cerimônia
pública na Vila Olímpica, perante atletas de todos
os esportes, para sinalizar nosso combate às drogas", anunciou
com pompa o francês François Carrard, porta-voz do
Comitê Olímpico Internacional.
AFP
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AP
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SEM
APELAÇÃO
O
americano C.J. Hunter, campeão mundial de arremesso de peso,
chorou e tentou explicar a dose cavalar de nandrolona detectada
em teste realizado meses atrás. Teve cassada sua credencial
de técnico de Marion Jones, sua mulher
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O que
se seguiu foi uma amostra da complexidade em condenar ou absolver
um atleta. As duas ginastas que subiram um degrau no pódio
com a exclusão de Andreea nem sequer puderam comemorar, pois
também eram romenas e ameaçaram devolver as próprias
medalhas em sinal de solidariedade à companheira de equipe.
A troca acabou sendo feita apenas formalmente, com a alteração
de nomes nos registros oficiais de medalhados. Cerimônia não
houve. Festa, muito menos. A quarta colocada, Liu Xuan, da China,
recebeu o bronze na clandestinidade. Sem falar na idiossincrasia
de a atleta poder manter suas outras medalhas conquistadas em Sydney.
Como
comparar a infração de Andreea Raducan única
ginasta a ser flagrada num teste antidoping até hoje
com a quantidade industrial de esteróide anabolizante consumida
pelo americano C.J. Hunter, campeão mundial de arremesso
de peso e marido de Marion Jones, a estrela maior do atletismo em
Sydney? Além de ter sido pego com 2.000
nanogramas de nandrolona por milímetro de urina, quando o
limite permitido para atletas masculinos é de 2 nanogramas,
Hunter falhou em três outros testes realizados antes dos Jogos
de Sydney. Nandrolona é o esteróide anabolizante mais
usado entre atletas, hoje. Ainda assim, ele fazia parte da delegação
dos Estados Unidos como técnico de Marion Jones até
ter a credencial cassada pelo COI. Hunter chorou, jurou inocência
e alegou que seu organismo foi contaminado pelo ferro encontrado
em suplementos alimentares. Mas por via das dúvidas fez vir
dos Estados Unidos a maior celebridade dos tribunais de júri
americanos, o advogado Johnnie Cochran. Cochran foi o responsável
pela absolvição de O.J. Simpson no assassinato da
ex-mulher e já defendeu a própria Marion Jones, quando
ela tinha apenas 16 anos de idade, por ter se recusado a fazer um
exame antidoping. Inevitavelmente, na semana passada, a espetacular
e folgada vitória de Jones nas provas dos 100 e 200 metros
sem falar nas três outras medalhas que ainda tinha
pela frente ficou respingada de comentários.
Em
matéria de doping e antidoping, houve de tudo nestes Jogos
de Sydney. Desde técnicos de equipes olímpicas flagrados
no aeroporto com os bolsos abarrotados de ampolas de hormônio
de crescimento humano até a inusitada retirada de uma atleta
do estádio, poucos minutos antes de sua apresentação.
Mihaela Melinte, da Romênia, campeã mundial de lançamento
de martelo e única mulher a ter alcançado a marca
dos 76 metros, saiu do campo escoltada, aos prantos. A equipe de
levantamento de peso da Bulgária, por sua vez, foi expulsa
de Sydney por inteiro. Segundo as bizarrias do olimpismo, a equipe
que tiver dois de seus atletas suspensos por doping pode, em alguns
casos, pagar 50.000 dólares de
multa para que os demais continuem a competir. No caso da Bulgária,
foram três os flagrados inclusive a medalhista de ouro
Izabela Dragneva e não houve dinheiro que os salvasse.
Convém
lembrar que quando os levantadores de peso da antiga União
Soviética introduziram o uso de esteróides em competições
internacionais, nos anos 50, a novidade foi saudada com entusiasmo.
E imediatamente copiada pelos americanos. O médico-chefe
da equipe dos EUA, John Ziegler, experimentou pessoalmente os efeitos
da testosterona e a partir daí a coisa se espalhou para outros
esportes arremesso de disco, de peso, de martelo, decatlo.
Até os Jogos do México, em 1968, o que se discutia
não era a propriedade ou não do uso de esteróides,
mas quais funcionavam melhor. Pesquisa realizada nas Olimpíadas
de Munique, em 1972, mostrou que 68% dos competidores das provas
de atletismo já tinham usado esteróides. A tônica
da época pode ser resumida no desafio do levantador de peso
americano Ken Patera ao campeoníssimo peso pesado da URSS,
Vassily Alexeyev. "A única diferença entre nós
dois era que eu não tinha dinheiro para investir em drogas.
Hoje eu tenho. Vamos ver agora quais os melhores esteróides
os dele ou os meus." A frase poderia ser a epígrafe
dos Jogos de Sydney.
Com
reportagem de
Maurício Cardoso
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