O
corpo no Olimpo
O
importante não é apenas vencer,
mas também ter presença, estilo,
vender uma imagem de glória
Dorrit
Harazim
A
medalha de bronze pendurada no pescoço da ginasta russa Ekaterina
Lobazniouk quase lhe batia nas pernas, na semana passada, durante
a premiação da prova de salto no cavalo. Pudera: a
atleta mede apenas 1,41 metro, pesa 40 quilos e parece ter no máximo
13 anos de idade na verdade, tem 17. Como a maioria de suas
adversárias e companheiras de equipe, Ekaterina parece de
borracha, não de carne, músculos, veias, ossos e sangue.
Desde sempre tem sido assim. Só que essas atletas em miniatura,
que têm público cativo em todas as Olimpíadas,
davam a impressão, pela primeira vez, de estar completamente
deslocadas nos Jogos de Sydney. Jamais seus topetes e franjas endurecidos
de laquê, chuca-chucas e presilhas no cabelo, maquiagem que
se desmancha no choro e roupas de competição saídas
de um guarda-roupa Barbie pareceram tão anacrônicos.
Quase uma aberração. Isso porque, nestes Jogos Olímpicos
do ano 2000, celebrou-se como nunca a mulher atleta plena, orgulhosa
de seus músculos, vaidosa de seu corpo. Nem todas eram bronzeadas
como no vôlei de praia, belas como no time de vôlei
da Itália ou torneadas como as estreantes olímpicas
do salto com vara modalidade do atletismo até então
vetada a mulheres. Contudo, para a grande maioria das 4.254
mulheres que representaram 42% do total de competidores em Sydney,
ser atleta, hoje, também é ter arrojo, ostentar saúde
e, por que não, ser sedutora, sensual. Em suma, poder e gostar
de ser mulherão. Enquanto isso, no tablado de ginástica
do Super Dome, meninas-atletas capazes de feitos extraordinários
como saltar no cavalo numa velocidade de 25 quilômetros por
hora represavam qualquer alegria por estar ali, por ser atletas.
Até mesmo quando içadas ao topo do pódio, a
celebração parecia atrofiada se comparada aos arroubos
nas pistas, nas quadras, nas piscinas. Para uma ginasta olímpica,
o termômetro de seu desempenho continua sendo o olhar de condenação
ou o abraço de urso do técnico.
Antonio Milena
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VANTAGEM
DUPLA
Os
macaquinhos colantes usados pelo time brasileiro de basquete
tornam as jogadoras mais atraentes e dificultam os habituais
puxões de roupa das adversárias. A Austrália foi o primeiro
país a adotá-los
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Já
para a atleta-emblema destas Olimpíadas, a aprovação
vem, primeiro, dela mesma. Depois, contagia o mundo. Foi assim que
Tatiana Grigorieva surgiu nos céus do Estádio Austrália
na noite de segunda-feira, incandescendo os telões voltados
para um público de 110.000 pessoas.
Vestindo as cores da Austrália, que combinavam com o azul-esverdeado
de seus olhos eslavos, Tatiana, nascida em São Petersburgo,
na Rússia, arrasou no salto com vara. A prova em si já
é singular: exige velocidade de corredor de 100 metros, habilidade
atlética de ginasta, coordenação do salto em
distância e coragem para se catapultar de ponta-cabeça
e superar uma barra situada a mais de 4 metros de altura. A cada
vez que a silhueta esguia e bronzeada de Tatiana se colocava em
marcha (no salto com vara o atleta pode fazer três tentativas
para saltar a uma nova altura), o estádio aplaudia a cadência
das passadas e urrava. A cada vez que o telão focava seu
rosto intenso, emoldurado por uma penca de cabelos loiros, a sedução
era absoluta. "Quero mostrar que uma mulher que compete no esporte
pode ser uma mulher linda e que sabe se cuidar", diria a atleta
mais tarde. Mostrou, ganhando medalha de prata com um salto de 4,55
metros. Agora chegou a vez de embolsar contratos de publicidade
e patrocínios polpudos. Suas primeiras palavras para o agente
que cuida de sua imagem foram roubadas de Tom Cruise no filme Jerry
Maguire: "Me mostre o dinheiro". Aos 24 anos, Tatiana já
mostrou mais do que a tatuagem que ornamenta sua anca direita .
Ela pode ser admirada em sete fotos em preto-e-branco da edição
especial (esgotada) da revista Black&White, que retrata
a nudez de 21 atletas da equipe olímpica da Austrália.
Tatiana é a atleta-emblema também por ter o nome envolvido
em doping. Dois dias após seu triunfo, circulavam rumores
de que seu teste feito em Sydney tenha dado positivo (veja
a reportagem seguinte).
Antonio Milena
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OURO
E BRILHO
A
americana Venus Williams reinou sozinha nas quadras de Sydney.
Além de conquistar a medalha de ouro, lotou a arena com seu
estilo exuberante e arrojado de ser mulher
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Durante
as duas semanas de uma Olimpíada, atletas de elite
ou os que conseguem capturar a atenção e seduzir platéias,
independentemente de resultados se transformam em supermodelos
e têm à disposição uma passarela única,
de 3,5 bilhões de telespectadores. A velocista americana
Florence Griffith-Joyner, ao eletrizar as pistas de Seul em 1988
com seus colantes sensuais, unhas pintadas de escarlate e recorde
mundial até hoje inigualado (10,49s nos 100 metros rasos),
foi pioneira do gênero. Para alegria do público e contentamento
dos patrocinadores, ela fez escola. Hoje, tanto atletas mulheres
como homens fazem do corpo seu cartão de visita. E de forma
francamente mais erotizada. "Há tantos atletas competindo
que se depender só de esforço e vontade de vencer
você não vai ser diferente dos demais", analisa Kim
Skildum-Reid, consultor de patrocínio corporativo. "É
preciso sobressair."
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A
DIVA RUSSA
Temperamental
e bela, a ginasta russa Svetlana Khorkina se distanciou do
universo de atletas mirins. No lugar do habitual estilo atlético-infantil,
ganhou um ouro e duas pratas aos 21 anos, medindo 1,64 metro
e apostando no estilo sensual
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Reuters
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Neste
ano, para brindar a estréia olímpica das mulheres
no levantamento de peso, a federação internacional
presenteou cada uma das doze competidoras além de
todas as mulheres da platéia com um cravo vermelho.
Cafona? Pode ser, mas ninguém reclamou. Participando pela
primeira vez das provas de pentatlo moderno, tae-kwon-do e arremesso
de martelo, além do salto com vara e levantamento de peso,
a mulher atleta permanece excluída apenas do boxe e das lutas.
Vai longe o tempo em que o lançamento em 1982, pela Reebok,
do primeiro tênis específico para a anatomia do pé
feminino parecia uma operação arriscada, por falta
de mercado. Em Sydney, os fabricantes de material esportivo fizeram
a festa e a alegria do público. Não houve quem
não comparasse os macaquinhos colantes das jogadoras de basquete
do Brasil com os shortões largados e compridos, à
la NBA, da equipe canadense. Um delegado da Austrália que
dava entrevista coletiva sobre combate a drogas no esporte viu-se
em apuros quando indagado a respeito do VPL. Imaginando tratar-se
de alguma nova substância de doping, declarou não estar
apto a responder por não ser do departamento médico
da equipe. Na verdade, a pergunta da jornalista australiana se referia
à "visible panty line", VPL, ou "marca da calcinha visível",
que atormentou as atletas do país-sede desde que receberam
suas sungas de competição eram amarelo-claras
na parte traseira e se tornavam transparentes com o suor. "Normalmente
não uso nada embaixo da sunga", explicava a corredora Anne
Cross, dos 5.000 metros, "mas vou ter
de repensar." "Felizmente sou uma velocista e vou tratar de sair
correndo da pista o mais depressa possível", concordava Melinda
Gainsford-Taylor, a estrela dos 200 metros. "Pelo menos ninguém
vai deixar de nos notar", concluía uma companheira de equipe.
Antonio Milena
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Antonio Milena
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VENDENDO
SAÚDE
O
time de vôlei da Itália,
com Maurizia Cacciatori à frente, foi um dos mais fotografados
em Sydney. A dupla australiana vencedora do vôlei de praia
esbanjou saúde, força atlética e alegria
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A celebração
do chute muscular da zagueira americana Brandi Chastain, dona de
abdominais sarados e endurecidos como um casco de tartaruga, não
pode ser aplicada a qualquer modalidade olímpica, é
claro. Mas, mesmo na ginástica, os Jogos de Sydney terão
demonstrado que é possível sair do anonimato rompendo
com o mimetismo imposto pelas características daquele esporte.
Pairando uma cabeça acima das demais competidoras, a diva
russa Svetlana Khorkina desafiou a inevitabilidade de tantas carreiras
que florescem e murcham ainda na adolescência. Na ginástica,
maturidade é sinônimo de limitação, uma
vez que o aparecimento de seios e nádegas provoca um realinhamento
no centro de gravidade do corpo da mulher e dificulta as evoluções
giroscópicas das atletas. Svetlana tem 21 anos, boca carnuda,
olhar de veludo, perigoso, e pernas de modelo. Só se apresenta
de negro ou de branco, sem maiores lantejoulas. O corte de cabelo
à la garçonne, repartido no meio, e a linguagem do
corpo sugerem uma sensualidade contida, pronta para irromper. Ganhou
duas medalhas de prata e um ouro, menos do que a romena Simona Amanar.
Mas foi a única a seduzir fotógrafos do mundo inteiro.
"Quero ser reconhecida a meia milha de distância", declarou
Svetlana à NBC. Assim foi.
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