Rebelião
no ar
Programa
de TV ensina a garotada
a reivindicar seus direitos. E ela aprende rápido
Aida
Veiga
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Fotos Ricardo Benichio

Apresentadores
ultrajovens: mais ibope que as loiras
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Um
programa infantil sem apresentadora loira engraçadinha, sem
brincadeiras bobas e sem musiquinhas intragáveis está
cativando a criançada entre 4 e 10 anos de idade. É
o Disney Club, um assumido arauto de idéias provocativas
que o SBT exibe no começo da noite. No recheio, é
movido, como todos os seus concorrentes, a desenhos animados enlatados.
A diferença está nos intervalos: durante quinze minutos,
de seus 45 de duração, vai ao ar a TV CRUJ (de Comitê
Revolucionário Ultrajovem), uma espécie de TV pirata
que se proclama porta-voz dos direitos do público infantil.
Puxados pelo lema "Sou ultrajovem e mereço respeito", os
cinco apresentadores Juca, 17 anos, Guelé, 13, Malu,
15, Ana Paula, 11, e Frederico, 14 ressaltam, através
de esquetes, o fato de que os pais raramente ouvem a opinião
dos filhos, ou de que criança dificilmente merece um "por
favor" ou "obrigado". A garotada adora (13 pontos no Ibope, contra
8 da Jackeline, do SBT, e 7 da Eliana, da Record). "O mérito
deles é mostrar que a criança tem o direito de reivindicar",
diz a psicóloga infantil Marilda Marco Antonio, de São
Paulo. "Não que esse direito lhe seja negado de caso pensado.
O que acontece é que, normalmente, ninguém pára
para escutar o que ela tem a dizer."
Criado pela mesma equipe que fez o premiadíssimo Castelo
Rá-Tim-Bum, da TV Cultura paulista, o Disney Club
não é um programa educacional. "A educação
ocorre informalmente ao mostrar, por meio de situações
vividas pelos personagens, como lidar com acontecimentos do dia-a-dia",
diz a diretora, Regina Soler. Em seu quarto ano, o programa tem
discutido assuntos levantados pelas próprias crianças,
de quem recebe, semanalmente, cerca de 150 cartas e e-mails. Correspondência
típica: estimulados pela professora, os alunos de 4ª
série de uma escola de São Roque, cidade do interior
de São Paulo, compuseram uma lista de 47 reivindicações
de "mais respeito". Nela, criticam pais que sempre conferem o troco
ou o dever de casa porque não acreditam em sua palavra, exigem
a chance de escolher o que comer, vestir e ver na TV e dão
uma dura até nos colegas que só convidam bons alunos
para fazer trabalhos em grupo. Podem não ter mudado uma vírgula
no comportamento de ninguém, mas adoraram ver suas opiniões
lidas e comentadas no ar. Nem sempre com manifestações
de apoio, diga-se. "Muitas vezes, os apresentadores da TV CRUJ lêem
cartas e discutem o tema de forma a levar a audiência a pensar
e ver que os pais têm razão", explica Regina.

Murilo:
telefone sem interrupção, sim; cabelo comprido,
não |
Telespectadores
assíduos do rograma, os irmãos Murilo Bottaro Luz,
10 anos, Adriana, 9, e Isabela, 7, tentam exercer em casa os direitos
dos ultrajovens. O mais velho, devolvendo uma exigência dos
pais, quis que eles também não o interrompessem quando
estivesse ao telefone. Conseguiu, mas não ficou de todo feliz.
"Queria também ter o direito de não cortar o cabelo,
mas nisso minha mãe não cedeu", conta ele, resignado.
De fato, se a rebelião dos ultrajovens lhes dá voz,
esta não é necessariamente tiva. "Mostrei para minha
mãe que ela falava sempre bem das minhas amigas, mas nunca
falava bem de mim", relata Giovanna Junqueira, 9 anos. "Ela até
chorou e disse que ia mudar. Mas ainda não mudou."
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