Colégios
vazios
As
escolas católicas têm 200 000 alunos
a menos e 130 unidades fechadas nos
últimos cinco anos
Gisela
Sekeff
Rogério Voltan
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| O
Liceu Coração de Jesus, em São Paulo: vítima
da degradação na vizinhança
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As
escolas mantidas pela Igreja Católica estão mergulhadas
em sua maior crise. Um estudo recém-concluído pela
Associação Nacional de Mantenedoras de Escolas Católicas
(Anamec) revela que essas tradicionais instituições
de ensino de 1º e 2º graus perderam 20% de seus alunos
nos últimos cinco anos. São 200.000
que foram para outras instituições particulares ou
públicas, o que representou o fechamento de 130 estabelecimentos
dirigidos por padres e freiras em todo o país. No ensino
privado em geral, também houve redução de alunos,
mas de apenas 10%, devido a fatores econômicos e à
ampliação de vagas na rede pública. O total
de instituições particulares não-católicas,
por outro lado, aumentou de 15.000 para
24.000 unidades.
"Perdemos
alunos para máquinas de preparo para o vestibular, nas quais
não há a preocupação com a educação
integral nem com a formação religiosa", diagnostica
o secretário executivo da associação de escolas
católicas, Eurico Borba. Mas o fenômeno tem também
outras faces. Em parte, até por se preocupar com essa "formação
integral", parcela considerável das escolas católicas
não deixou que as mudanças sociais ultrapassassem
os limites de seus muros, conservando-se como bastiões de
um ensino com base religiosa pelo qual poucos pais ainda se interessam.
"Hoje ninguém mais põe o filho num colégio
apenas porque é católico", diz o especialista em questões
de ensino Claudio de Moura Castro.
Oscar Cabral
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| Alunos
do São Bento, no Rio: exceção à
crise, com uniforme e orações |
Na direção dos estabelecimentos, os problemas são
sentidos desde os anos 70, mas a capacidade de reação
é mais lenta do que o avanço dos fatos em volta das
escolas. "Ao final do curso fundamental, optamos por tirar nossos
filhos da escola católica", afirma a professora de inglês
Maria do Carmo Marques, que, com o marido, Luiz Fernando, chegou
à conclusão de que o Colégio Santa Maria, de
São Paulo, não os prepararia para a batalha do vestibular.
Há casos que resumem exemplarmente todas as dificuldades
dessas instituições. No Recife, o tradicional Colégio
Marista, fundado em 1924, passou a admitir meninas há três
décadas, mas só a partir de 1996, quando a carga do
ensino religioso foi substancialmente reduzida, começou-se
a aceitar a idéia de que havia casais de namorados no meio
das turmas. O jeito religioso de assumir a questão foi fazer
um encontro anual dos casaizinhos, no Dia dos Namorados, para conversas
com um psicólogo situação inimaginável
em boa parte das escolas onde a garotada simplesmente "fica" de
vez em quando, em vez de namorar. Brincos na orelha dos meninos
passaram a ser admitidos, mas até hoje o Marista exige uniforme
completo dos alunos o que não parece ser, no entanto,
o maior de seus problemas.
Rogério Voltan
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| Maria
do Carmo, Luiz e os filhos, ex-alunos do Santa Maria: rumo ao
vestibular |
Enquanto a reputação de solidez do ensino ministrado
lá dentro ainda lembrava a importante escola cujos bancos
receberam o poeta João Cabral de Melo Neto, há seis
décadas, 2.000 alunos renovavam
as matrículas a cada ano. Nos anos 80, porém, diante
das primeiras perdas de estudantes que saíam para novos colégios
das imediações, os padres tentaram reagir, passando
a direção da escola para professores leigos. A mudança
fez pouco efeito. Seguiram-se a proliferação de concorrentes
acoplados a cursinhos pré-vestibular e a guerra de preços
nas mensalidades, mortal para instituições que precisam
ter bons professores e pagá-los condignamente. Num período
de dez anos, o Marista perdeu metade daqueles 2.000
alunos e já não tem mais estudantes da 1ª à
4ª série do ensino fundamental. "Vários bairros
receberam novas escolas para crianças menores. Isso facilitou
a vida dos pais e nos levou a acabar com o equivalente ao antigo
primário", explica o diretor Nivan Seabra. Numa nova tentativa
de arrancada, em 2001 o colégio terá seu próprio
cursinho pré-vestibular e turmas do supletivo. Essa pode
ser mesmo uma saída. "Criou-se um modelo de ensino muito
pragmático nos últimos anos, cheio de dicas com orientação
para a vida profissional e o vestibular", diz o presidente do Conselho
Nacional dos Secretários de Educação, Éfrem
Maranhão.
O
ensino católico chegou ao Brasil na infância do país,
junto com os bandeirantes e o padre Manoel da Nóbrega. O
primeiro colégio começou a funcionar na Bahia em 1550,
implantado pelos jesuítas. Outras ordens, como a dos beneditinos,
foram criando suas escolas nos séculos seguintes e, quando
o advento da República tirou o ensino religioso dos colégios
públicos, a Igreja foi beneficiada, pois as famílias
queriam seus filhos formados segundo os preceitos católicos.
Em 1928, 80% dos estudantes dos cursos equivalentes ao antigo 2º
grau estavam nas escolas católicas uma relação
hoje completamente invertida, com 90% dos estudantes matriculados
na rede pública.
Orlando Brito
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Fernando Vivas
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Cida Souza
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| Marco
Maciel (Colégio Nóbrega, do Recife), Jorge Amado
(Antonio Vieira, de Salvador) e Jô Soares (Colégio
de São Bento, do Rio): a elite brasileira passava pelas
salas de aula das escolas católicas |
Boa
parte dos colégios católicos importantes nasceu no
apogeu da década de 20 e luta há tempos contra a deterioração
do ensino e até da vizinhança, em muitos casos. Em
São Paulo, a experiência vivida pelo Liceu Coração
de Jesus ajuda a entender esse aspecto da crise que envolve muitas
escolas católicas. Fundado há 115 anos, o colégio
já teve mais de 2.000 alunos,
filhos da elite paulistana, cujos motoristas faziam fila diante
do portão nos horários de entrada e saída.
Mantido pela Congregação Salesiana, tem hoje pouco
mais de 1.000 estudantes, num labirinto
de salas fechadas. Nos bons tempos, o liceu era vizinho do Palácio
do Governo, no bairro dos Campos Elíseos, centro da cidade.
A sede do Executivo paulista mudou-se há muito tempo para
o bairro do Morumbi, deixando para trás aquela região
central que já foi nobre e hoje é ocupada por um casario
deteriorado, pequenos hotéis de má fama e praças
cheias de camelôs. A escola conseguiu resistir até
à vizinhança da principal rodoviária da capital,
que se mudaria do bairro em 1982. Quando os ônibus e os viajantes
foram transferidos para outra área da cidade, a região
do liceu ficou ainda mais afetada pela decadência. Os alunos
começaram a debandar. Nem a mensalidade de 255 reais para
as primeiras séries do curso fundamental, considerada baixíssima
para escolas particulares de São Paulo do mesmo padrão,
é capaz de reverter esse quadro. "Mas vamos continuar resistindo",
diz o padre Aílton Antônio dos Santos, diretor do liceu.
Há
quem considere também que a própria natureza dessas
escolas, vinculadas aos dogmas da Igreja, acaba influenciando negativamente
o ensino, e isso gera um paradoxo. "A melhor peça de atração
de alunos que um colégio assim pode oferecer é sua
condição de entidade conservadora, séria, respeitável
e distante da atual realidade confusa", diz Antonio Miguel Kater
Filho, consultor de marketing católico. "Ao mesmo tempo,
o que se pode adquirir numa instituição com esse formato
não é muito útil num mundo em que se valoriza
cada vez mais o questionamento de qualquer dogma." Na contramão
desse processo, redes de escolas privadas, como a do Colégio
Objetivo, que tem dezenas de milhares de alunos em todo o Brasil
e foi construída durante os últimos 35 anos, investem
pesadamente em dar respostas práticas ao que o mercado de
educação está pedindo. E fazem bastante propaganda
disso o que é incomum mesmo para escolas católicas
que passam longe da crise que afeta a maior parte delas.
Pouca
gente já ouviu falar, por exemplo, da Fundação
L'Hermitage, que vem atendendo a estabelecimentos confessionais
com problemas de evasão e já assumiu a direção
de 68 deles. "Voltamos a crescer a uma média de 11% ao ano",
explica o diretor de outra instituição tradicional
do Recife, o Colégio Vera Cruz, que, antes de procurar o
socorro da fundação, em 1998, atingiu a marca de 1.050
alunos, comparados aos 2.300 que atendia
há sete anos. "Hoje temos 1.200
matriculados", comemora o diretor do colégio, Edgard Humberto
de Paula. No Rio de Janeiro, há pelo menos uma daquelas grandes
exceções que vêm confirmar todas as regras que
compõem uma crise. Em termos de marketing, o velho Colégio
de São Bento, do Rio de Janeiro, do alto de seus 142 anos,
dá lições tão conservadoras quanto as
que ainda se ministram em suas salas de aula. A propaganda funda-se
exclusivamente em sua tradição de educar rigidamente
e preparar os alunos para qualquer exame. Há oito anos a
escola é a primeira da lista de aprovações
no vestibular da Universidade Federal do Rio de Janeiro sem
cursinho.
Os
monges beneditinos responsáveis pela instituição,
às portas do terceiro milênio, ainda não aceitam
meninas como estudantes, proíbem que se masque chiclete dentro
da escola e vedam cabelos longos, brincos ou bonés entre
os alunos. Os meninos do curso fundamental rezam antes das aulas
e usam uniformes que têm o mesmo modelo há quarenta
anos. Seus pais pagam mensalidades que vão de 399 a 583 reais
com uma fé inabalável no sistema e a perspectiva de
que os garotos venham a seguir os passos de precurcores ilustres
daquelas salas de aula, como o maestro Heitor Villa-Lobos, o músico
Noel Rosa e o jurista Clóvis Bevilacqua, autor do Código
Civil Brasileiro. "Em time que só colhe vitórias há
um século, é melhor não mexer", afirma dom
Lourenço de Almeida Prado, reitor do colégio. Curiosamente,
uma estratégia de sobrevivência educacional parecida
com a do Colégio de São Bento faz sucesso em Chicago,
nos Estados Unidos. Lá as escolas católicas cresceram
cerca de 25% nos últimos anos baseadas numa formação
conservadora, em contraposição a um universo de gangues
e violência juvenil encontrado nas ruas.
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