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Viagem virtual

Chega ao Brasil o ice, uma versão turbinada
de anfetamina usada pelos internautas

Cristina Poles e Ricardo Galhardo

 
Montagem sobre foto divulgação

Há uma nova droga na praça. Depois do ecstasy, chegou a vez do ice (gelo, em inglês). É o aditivo dos internautas adolescentes e aficionados por videogame – aquela turma capaz de passar horas e horas de olhos vidrados na tela do computador, surfando ou lutando contra exércitos de alienígenas na rede. Vendido sob a forma de pedras de cristais transparentes, o ice pode ser dissolvido em bebidas, fumado e até mesmo injetado na veia. Vinte minutos e... o coração dispara. A pressão arterial sobe. As pupilas dilatam. O cérebro é inundado por substâncias relacionadas à sensação de bem-estar. Tem-se a impressão de que o corpo é um poço de energia. O raciocínio parece mais rápido. Os reflexos motores, mais aguçados. A luz vinda do monitor incrementa a dança cerebral. Cansaço, o usuário não sente nenhum. Nem depois de doze horas ininterruptas na frente da máquina.

Como tudo relacionado ao consumo desse tipo de substância, a viagem proporcionada pela "droga virtual" é uma aventura perigosa. Pode levar a convulsões e até à morte por parada cardíaca. As autoridades mal a conhecem. No último verão, tirou o sono da polícia européia. Agora, chegou ao Brasil. Alguns médicos, especialistas na recuperação de dependentes químicos, já ouviram relatos de pacientes que experimentaram as pedras. Uma equipe de investigadores paulistas está infiltrada nos pontos mais prováveis de circulação de ice – as lojas de videogame e os salões de fliperama.

Sob encomenda – As pedras transparentes não preocupam apenas por significar a entrada no país de mais um entorpecente. Elas revelam também a que ponto chegaram a ousadia e a sofisticação dos narcotraficantes. Eles se especializam, cada vez mais, em fornecer drogas sob encomenda, para atender a determinados segmentos do mercado consumidor. Assim como o ecstasy se destinava aos freqüentadores de casas noturnas, o ice visa a um público bem definido, os internautas e jogadores de videogame. É diferente do que ocorre, por exemplo, com a maconha ou a cocaína, drogas que, embora no passado tenham sido associadas a tribos específicas (como a dos hippies e a dos yuppies), hoje são consumidas por diferentes grupos da população. "Essa é a nova estratégia dos traficantes", diz Walter Maierovitch, ex-secretário nacional antidrogas e presidente do Instituto Brasileiro Giovanni Falcone, centro de estudos sobre o crime organizado internacional. "Eles querem condicionar o consumo de entorpecentes a determinadas atividades."

 
Ricardo Benichio
Dança durante a madrugada: ecstasy como combustível

O ice é uma versão mais potente das antigas anfetaminas, classe de drogas estimulantes do sistema nervoso central. Utilizadas desde a década de 30 para o tratamento da narcolepsia (distúrbio caracterizado pelo excesso de sono), da hiperatividade infantil e da obesidade, as anfetaminas chegaram ao mercado clandestino nos anos 60. No exterior, ganharam o nome de speed. No Brasil, bolinha ou rebite. Agora reaparecem mais concentradas – por isso têm a forma de cristais. "O ice é uma espécie de crack sintético e pode ser tão devastador quanto ele", alerta o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, da Universidade Federal de São Paulo. O crack é uma versão barata da pasta de cocaína, vendida para as camadas mais pobres da população. Produzido na China, na Tailândia e nas Filipinas, o ice chega à Europa ocidental depois de atravessar a Rússia. No Brasil, entra via Paraguai. O preço baixo, cerca de 2 reais a pedrinha, é outra fonte de grande preocupação. As autoridades brasileiras temem que daqui a pouco (e com bastante facilidade) a substância deixe de ser droga restrita aos internautas de classe média e ganhe as ruas.

Versão turbinada – No esforço para conquistar novos consumidores, os traficantes estão conseguindo alterar a composição até dos entorpecentes naturais. Há trinta anos, um cigarro de maconha continha apenas 3% de THC, o princípio ativo da erva. Hoje, graças a novas técnicas de plantio e manipulação genética, a quantidade de THC chega a até 14%. Algumas versões, como o skank, contêm até 33% da substância e podem provocar alucinações. Outra droga que ganha nova roupagem nesta virada de milênio é o LSD. Descoberto por acaso por um químico do laboratório farmacêutico Bayer, foi usado em experiências da Nasa, a agência espacial americana. O ácido lisérgico, imaginava-se, poderia evitar o enjôo que acometia os astronautas em ambientes de gravidade zero. Não funcionou. Serviu, no entanto, para abrir as "portas do inconsciente", como pregava seu guru Timothy Leary. O LSD de hoje vem acrescido de grandes doses de anfetamina. O objetivo é atender aqueles que se dispõem a sacolejar nas pistas de dança.

Os ingredientes do ecstasy também são conhecidos há muitas décadas. Nova e surpreendente é a modificação feita na droga pelos "químicos do narcotráfico". Desenvolvida em 1914 pelo laboratório Merck, para ser usada em psicoterapia de pacientes com traumas de abuso sexual na infância e no alívio da dor em doentes terminais de câncer, a substância metilenodioxidometanfetamina (MDMA) ressurgiria numa versão turbinada no final da década de 80 como a "droga do amor", ou simplesmente "E". A anfetamina serve de combustível para a maratona nas casas noturnas ou raves, aquelas megafestas que começam na madrugada e só terminam no meio da tarde. As luzes estroboscópicas e o ritmo bate-estaca da música eletrônica favorecem o efeito alucinógeno da droga. "A mistura do estimulante anfetamina com um alucinógeno foi adaptada quimicamente para quem pretende passar horas em uma pista de dança", diz a psiquiatra Maria Tereza de Aquino, diretora do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Atenção ao Uso de Drogas, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

É em aditivos como o ice que os traficantes apostam o futuro de seus negócios. As drogas sintéticas podem ser produzidas por uma única pessoa, em um laboratório de fundo de quintal. Ao contrário da maconha e da folha da coca (usada para fazer cocaína), dispensam o espaço para plantação, o uso de mão-de-obra no plantio, colheita, processamento e transporte da matéria-prima. Nos Estados Unidos, na Ásia e em alguns países da Europa, como a Inglaterra, assiste-se a uma explosão no consumo de aditivos sintéticos. No Japão, 90% de toda a droga apreendida é da família das anfetaminas. Na Coréia, o ice ocupa o segundo lugar na lista da preferência dos dependentes. Oito de cada dez laboratórios desbaratados pela polícia americana fabricam as pedras estimulantes.

Em 1998, durante a Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas realizada em Nova York, decretou-se que até 2008 todas as drogas naturais e semi-sintéticas deverão ser erradicadas do mercado global. Depois, então, se investirá contra as sintéticas. Até lá, no entanto, os bandidos têm tempo mais do que suficiente para inventar e lançar um sem-número de novos entorpecentes. "O narcotráfico está se adaptando rapidamente a essa tendência", diz o chefe da divisão de repressão a entorpecentes da Polícia Federal, Getúlio Bezerra dos Santos. Para se ter uma idéia, neste ano já foram apreendidas na capital paulista 18.000 pedras de crack, um semi-sintético, e 20.000 pastilhas de ecstasy. Se as autoridades brasileiras até hoje têm dificuldades para encontrar enormes plantações de maconha no sertão nordestino, imagine-se o problema que será combater as fabriquetas clandestinas de onde saem essas novas substâncias.

 



Fonte: Maria Tereza de Aquino, psiquiatra da Universidade Estadual do Rio de Janeiro
Fotos Claudio Rossi/Esdras Martins/Milton Carello/Alfredo Franco/Gerry Gropp

 

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