O clube dos
arrependidos
Divórcio
e segundo casamento fazem
aumentar a procura por cirurgias de
reversão de vasectomia
Karina
Pastore
Claudio Rossi
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| Paulo
com a mulher, Marilza, e o filho Victor: pai pela terceira vez
depois de dezesseis anos de vasectomia |
Fazer
vasectomia, a cirurgia de esterilização masculina,
é uma decisão que um número cada vez maior
de brasileiros tomou nos últimos anos. São realizadas
cerca de 7.000 operações
dessa natureza anualmente no Brasil. Quem se submete a ela são
homens que já tiveram todos os filhos que gostariam de ter
e cujo casamento parece estável e feito para durar para sempre.
Ocorre que nessa turma tem aumentado também o número
de arrependidos. Mais cedo ou mais tarde, até 6% dos operados
lamentam ter feito a cirurgia. No Hospital das Clínicas de
São Paulo, faz-se uma reversão de vasectomia por semana.
Há dez anos, era uma a cada dois meses. Lá, a fila
de espera chega a quarenta pacientes. O fenômeno se repete
em outras cidades, caso dos hospitais das universidades estaduais
do Rio de Janeiro e de Campinas, no interior paulista.
A
razão dessa mudança é óbvia: o casamento
que levou esses homens a fazer vasectomia não era tão
duradouro quanto parecia no momento em que a decisão foi
tomada. Veio a separação, um outro casamento e, com
ele, a esperança de recuperar na mesa de cirurgia a capacidade
reprodutiva. Na última década, o número de
divórcios e separações dobrou no Brasil. São
cerca de 200.000 a cada ano, segundo
dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE).
As
estatísticas também revelam que, depois do divórcio,
o homem tem muito mais chances de voltar a casar do que a ex-mulher.
E ele geralmente se une a uma mulher solteira, mais jovem e sem
filhos. No primeiro casamento, a diferença de idade entre
marido e mulher é de quatro anos, em média. Nos vínculos
seguintes, chega a oito. E raras são as mulheres que, ao
casar com um homem divorciado, desistem de ter filhos. "O homem
tende a fazer a reversão para satisfazer a esposa", diz o
médico Paulo Palma, presidente da Sociedade Brasileira de
Urologia. "Na maioria dos casos, a motivação passa
longe da vontade de ser pai novamente." Segundo o urologista Celso
Gromatzky, da Universidade de São Paulo, cerca de 95% dos
arrependidos têm entre 30 e 50 anos, já são
pais e estão no segundo ou terceiro casamento.
Um
caso exemplar é o de Paulo Roberto Rodrigues, sargento do
Corpo de Bombeiros de São Paulo. Em 1978, Paulo havia se
casado com Rosana, com quem teve dois filhos, Vanessa e Michelle,
hoje com 21 e 16 anos, respectivamente. "Logo depois do nascimento
da caçula, fiz a vasectomia", conta. "Nunca imaginei que
pudesse separar-me." E foi isso que aconteceu. Em 1992, Paulo casou-se
com Marilza, de 34 anos, dez menos que ele. "Foi muito frustrante
quando soube que ele não poderia ter filhos", conta ela.
"Era meu primeiro casamento e eu sempre tive muita vontade de ser
mãe." Por essa razão, Marilza convenceu Paulo a tentar
a reversão. "Fiz a cirurgia por ela", ele diz. Paulo operou-se
em 1999 e logo em seguida Marilza engravidou. O filho do casal,
Victor, está hoje com 8 meses.
Desfecho
diferente teve a história de dois brasileiros famosos, o
humorista Tom Cavalcante e Edson Arantes do Nascimento, o Pelé.
Em fevereiro passado, nasceu em São Paulo a pequena Maria
Antonia, filha do comediante com a segunda mulher, Patrícia,
treze anos mais jovem. Na última semana, os gêmeos
Celeste e Joshua, frutos do segundo casamento de Pelé (com
Assíria, dezenove anos mais nova que ele), completaram 4
anos. Na primeira união, Tom e Pelé tiveram, respectivamente,
dois e três filhos. Satisfeitos com o tamanho da prole, optaram
pela vasectomia. Nenhum dos dois imaginava, então, que uma
futura esposa fizesse questão de crianças em casa.
Tanto Pelé quanto Tom recorreram à cirurgia de reversão.
Não funcionou. Acabaram optando pela inseminação
artificial.
O
sucesso da operação depende do tempo entre a primeira
e a segunda intervenção (veja quadro).
"Em razão da vasectomia, o organismo masculino perde progressivamente
a capacidade de produzir espermatozóides", explica o urologista
Ronaldo Damião, professor da Universidade Estadual do Rio
de Janeiro. Quanto mais tempo o homem passa estéril, mais
difícil para ele é recuperar a fertilidade perdida.
Reverter uma vasectomia é mais complicado do que a operação
original. A cirurgia de esterilização masculina consiste
no corte dos canais deferentes, por onde trafegam os espermatozóides
antes que se misturem ao líquido seminal. O procedimento
é extremamente simples: duas incisões de 3 milímetros
no saco escrotal, anestesia local e meia hora de duração.
A reversão é uma microcirurgia que requer pinças
delicadíssimas, fios de sutura mais finos do que um fio de
cabelo, microscópios e lupas de última geração.
Nesse caso, a anestesia é peridural ou geral e a operação
pode levar de duas a seis horas. Também sai caro. Uma vasectomia
custa em torno de 2.000 reais. A reversão,
cinco vezes mais.
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Pais
por pressão
Antonio Milena
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Cida Souza
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| Pelé
e Assíria, em 1996, logo depois do nascimento dos
gêmeos: por desejo dela, ele tentou, sem sucesso,
reverter a vasectomia e o casal apelou para a fertilização
in vitro |
O
humorista Tom Cavalcante, a segunda mulher, Patrícia,
e a pequena Maria Antonia, em fevereiro passado: esterilização
depois do segundo filho do primeiro casamento |
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Fim
de caso
No
set de filmagens de Sabrina, em 1954, Audrey Hepburn
e William Holden estavam apaixonados. O ator americano prometeu
divorciar-se da mulher, a atriz Brenda Marshall, com quem
tinha dois filhos. Audrey comemorou. Disse que queria ter
muitos bebês. Para sua surpresa, Holden avisou que não
poderia mais procriar. Tinha feito vasectomia. Naquela época,
as chances de sucesso de reversão da cirurgia eram
praticamente nulas. "Um casamento sem filhos não é
um casamento de verdade", retrucou Audrey. Foi o fim de um
romance de cinema.
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