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Eis uma pequena amostra do tipo de dificuldade a ser enfrentado pelos prefeitos que começam a ser escolhidos agora no primeiro turno das eleições: Em São Paulo, no horário de pico, 450.000 veículos produzem congestionamentos de até 200 quilômetros de extensão. Metade do 1,3 milhão de habitantes do Recife vive em áreas com algum tipo de irregularidade, a maior parte em favelas. No Rio de Janeiro, 1 milhão de pessoas moram em morros. Vitória é o centro de uma área metropolitana que tem o maior índice de homicídios do país, setenta mortos por 100.000 pessoas a cada ano. Mais de 300.000 moradores de Fortaleza são analfabetos. Neste domingo, os brasileiros elegerão os prefeitos de 5.656 municípios, a maior parte deles lugares pequenos, sem o caos, a riqueza e a miséria das metrópoles. Nas gigantes de concreto, onze capitais que centralizam regiões metropolitanas, é que a disputa ganha relevância nacional. Em torno dessas regiões, reúnem-se 50 milhões de habitantes, mais de 30% da população do país, e quase a metade dos brasileiros urbanos. As mais de 150 cidades que compõem essas áreas metropolitanas não têm vida independente. Tudo nelas se mistura. O assassino de Vila Velha, município que faz parte da Grande Vitória, contribui para engrossar o índice de homicídios de toda a região. Em São Paulo, os funcionários dispensados das indústrias do ABC paulista elevam o índice de desemprego da região metropolitana. O trabalhador da fábrica da Fiat, em Betim, utiliza o transporte coletivo da capital, Belo Horizonte. Levantamento
da Fundação Getúlio Vargas mostra que, de 1996
a 1999, a queda na renda da população brasileira foi
de 1,37% ao ano. Nas capitais, tomadas isoladamente, a queda chegou
a um índice muito mais elevado, de 3,19% ao ano. E as regiões
metropolitanas bateram o recorde: 3,22% anuais. Essas áreas
formam uma espécie de epicentro da crise brasileira, conforme
definição do economista Marcelo Néri, da Fundação
Getúlio Vargas. Qual é o perfil de um candidato adequado
a enfrentar esse desafio?
Depois
da era Collor, passando pelos anões do Orçamento e
pelo caso do prédio do TRT de São Paulo, nenhum veto
a um candidato pode ser tão forte quanto a desconfiança
sobre sua honorabilidade. "A suspeição de desonestidade
é o principal defeito que um candidato pode ter", diz o cientista
político Marcos Coimbra, do instituto de pesquisa Vox Populi.
A
segurança é uma atribuição do governo
do Estado, que controla as polícias e tem poder de investigação
em todo o território sob seu comando. Da mesma forma, nenhum
administrador consegue produzir empregos no município agindo
com as ferramentas de prefeito. O desemprego é uma decorrência
de políticas federais e até de circunstâncias
internacionais. Não há como um prefeito interferir
na crise da Ásia, na alta do petróleo, na taxa de
câmbio e nos juros. Descartar candidatos que prometem o que
não podem cumprir é uma das maneiras de valorizar
o voto neste domingo.
O pefelista Jaime Lerner, que hoje governa o Paraná, nunca foi um homem bom de palanque. No entanto, como prefeito de Curitiba, tornou-se um fenômeno reconhecido até fora do país. Nos últimos dez dias, o governador paranaense atendeu jornalistas da emissora de televisão inglesa BBC, de uma rede de TV sul-africana e de periódicos de Londres e de Genebra, na Suíça. Já foi tema de reportagens nos jornais americanos Washington Post e New York Times e costuma ser rotineiramente procurado por administradores municipais de outros países que passam pelo Brasil. Metade dos especialistas ouvidos por VEJA na composição desta reportagem citou Lerner e seus três mandatos de prefeito como caso exemplar. Curitiba é hoje apontada como modelo por especialistas nacionais e estrangeiros, apesar de ter sofrido, como as demais capitais brasileiras, os efeitos sociais da migração desordenada do campo sua população de 600.000 pessoas, em 1970, duplicou em vinte anos. Jaime Lerner, em seu primeiro mandato, de 1971 a 1975, imaginou a mudança de perfil econômico do município, criando o projeto Cidade Industrial de Curitiba, que em vinte anos atraiu 500 indústrias para a Zona Sul da cidade. Com base num plano diretor de crescimento urbano, Lerner orientou o fluxo populacional para as regiões escolhidas para o desenvolvimento industrial e as dotou de infra-estrutura. Grandes avenidas foram abertas para cortar e ligar os bairros com o centro. Nelas, criaram-se corredores exclusivos para ônibus. O eficiente sistema de transporte público permite que o curitibano ande pela cidade inteira pagando apenas uma passagem e fazendo todas as conexões de que necessita. A intervenção planejada na geografia da cidade incluiu fechamento de ruas para calçadões de pedestres e uma pioneira preocupação ambiental, com a construção de parques e investimento em programas de reciclagem de lixo. Tudo feito sem déficit de caixa. Lerner administrou Curitiba de 1971 a 1975, de 1979 a 1983 e de 1989 a 1992. Fez dois sucessores: Rafael Greca (1992-1997) e o atual, Cassio Taniguchi, que lidera as pesquisas de intenção de voto para reeleição. "A história de Curitiba pode ser dividida em pré e pós-Jaime Lerner", afirma o cientista político Fernando Luiz Abrúcio, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Da última vez que concorreu à prefeitura, em 1988, Lerner fez uma campanha de apenas doze dias, para um mandato que terminou com 97% de aprovação popular. "Jaime Lerner é inovador na solução dos problemas", diz o economista Marcelo Néri. Muito bem. Jaime Lerner foi um prefeito com um plano adequado e que soube conseguir os meios de levá-lo a efeito. Jaime Lerner é do PFL, o partido de Antonio Carlos Magalhães, que também é considerado um inspirador competente das administrações baianas. Alguma coisa a ver com o PFL? Não. A explicação é mais simples. Tem a ver com capacidade gerencial. Quando se procura entre os técnicos outros exemplos de bons administradores no Brasil atual, encontram-se, paradoxalmente, três exemplos do PT, os prefeitos que há doze anos administram Porto Alegre. É em nome da continuidade da boa administração que o PT tem garantido o comando de Porto Alegre há mais de uma década, com boas chances de conseguir o quarto mandato consecutivo na prefeitura da capital gaúcha ainda no primeiro turno das eleições. Em 1988, quando o atual governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, assumiu o governo municipal, Porto Alegre era uma cidade sem recursos para investimentos, tinha um sistema de transporte coletivo medíocre e as favelas cresciam vertiginosamente. A prefeitura arrecadava mal seus impostos e gastava 98% de sua receita com a folha de pagamento.
Após três administrações sucessivas, o PT gaúcho conseguiu recuperar o equilíbrio financeiro da capital. A receita do município aumentou e hoje apenas 63% dela é gasta com funcionários. A cidade está prestes a cumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal, que estabelece um índice máximo de 60% de despesas com pessoal. A participação do IPTU no total arrecadado pela prefeitura cresceu de 6% para 12%. Fiscais da prefeitura tornaram-se mais rigorosos na arrecadação dos impostos. Hoje, acredita-se na capital gaúcha que eles sejam mais resistentes à tentação da propina. As dívidas da prefeitura começaram a ser pagas em dia. Com o saneamento financeiro, Porto Alegre readquiriu sua capacidade de investimentos e o acesso ao crédito internacional. Nos últimos dez anos, foram gastos 500 milhões de dólares em obras de urbanização, pavimentação e saneamento básico, investimentos decididos pela comunidade por meio do orçamento participativo, um sistema que estimula a população a comparecer a reuniões que discutem a forma de definir os gastos da cidade e virou produto de exportação. Hoje, Porto Alegre, uma das poucas cidades brasileiras a cuidar diretamente desse serviço, tem 84% da população atendida pela rede de esgoto (antes era 46%) e, de tudo o que é coletado, 27% recebe tratamento (antes era apenas 2%). O déficit de pavimentação, que era de 500 quilômetros, hoje está em 180 quilômetros. A idade média da frota de ônibus de Porto Alegre, antes de onze anos, passou a quatro. É possível andar de ônibus com ar-condicionado. O eleitor nota essas mudanças, mesmo que não dê a mínima atenção a denúncias genéricas que o PT costuma fazer sobre os perigos da globalização econômica e o risco apresentado pelos barões do sistema financeiro internacional. "Os governos do PT em Porto Alegre têm responsabilidade fiscal, criatividade e capacidade de mobilizar a comunidade", diz o economista Mailson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda. No Brasil, o eleitor já ganhou experiência suficiente para valorizar a idéia de que bons projetos de governo não sofram interrupção por causa das eleições. Não é por outro motivo que tantos prefeitos concorrendo à reeleição lideram as pesquisas. Na popularidade desses prefeitos, não há elemento ideológico preponderante, esse é o recado que os eleitores estão dando nesta temporada. Prefeitos agradam ou não independentemente de pertencerem ao partido do governo ou à oposição. No Rio de Janeiro, o atual prefeito, Luiz Paulo Conde, do PFL, tinha até a semana passada 37% das intenções de voto, contra 19% de Cesar Maia, do PTB, e 17% de Benedita da Silva, do PT. No Ceará, outro prefeito, Juraci Magalhães, do PMDB, corre à frente. Em Vitória, Luiz Paulo Vellozo Lucas, do PSDB, tem 70% das preferências dos eleitores. Ele governa uma cidade que é centro de um pólo de desgraças: maior índice nacional de homicídios e de lixo produzido pelos habitantes. No entanto, os moradores de Vitória acham que, dentro desse quadro negativo, o prefeito conseguiu manter o caos do lado de lá das divisas da cidade e até contribuiu para que ele não se tornasse ainda maior. A experiência das últimas eleições mostra que, em geral, governos que alternam linhas políticas muito divergentes podem causar prejuízos à cidade pelo perverso hábito de destruir o que o governante anterior construiu. No Distrito Federal, o governador Joaquim Roriz, do PMDB, aniquilou o bem-sucedido programa bolsa-escola criado pelo rival ex-governador petista Cristovam Buarque, que garantia o pagamento de um salário mínimo mensal a famílias de baixa renda por filho que mantivessem na escola. Roriz contrariou nada menos que o Unicef, a Unesco e diversos estudiosos do assunto, que já haviam reconhecido o bolsa-escola e disseminado a idéia para três continentes. Em São Paulo, a atual candidata Luiza Erundina, do PSB, foi prefeita depois de Jânio Quadros e simplesmente mandou parar as obras que ele havia iniciado. Erundina, então no PT, parecia achar que túneis e viadutos de Jânio eram obras de direita. Desta vez, candidata mais experiente, já avisou que, se eleita, não vai interromper nenhuma obra dos antecessores por viés político. Essas coisas o eleitor não está engolindo mais. Outra característica apontada como essencial num prefeito é sua capacidade de imaginar. Muita coisa depende de dinheiro, mas a realização revolucionária se apóia muito mais em idéias do que em verbas. Óbvio? Nem um pouco. "É espantoso como se ignoram os interesses reais das cidades e se privilegia a politicagem", diz o auditor paulista Antoninho Marmo Trevisan, da Trevisan Auditores e Consultores. Integrante de várias ONGs e cidadão combativo, Antoninho apresentou um plano para recuperar as calçadas no bairro em que mora ao prefeito Celso Pitta, então recém-eleito em São Paulo. Bastava a prefeitura supervisionar a operação que os moradores contratariam e pagariam os serviços diretamente. O projeto não andou nem meio metro. Afinal, como fazer uma administração municipal se interessar por um negócio em que não corre dinheiro público? Segundo Antoninho, as milhares de ONGs brasileiras já fizeram o diagnóstico de todos os problemas urbanos que se possam imaginar e dispõem de idéias muito detalhadas para solucioná-los, inclusive sem grandes gastos de dinheiro. "Muitos problemas, especialmente na área social, podem ser tremendamente aliviados com a contribuição de voluntários das ONGs, que têm toda a condição de dar ajuda desinteressada", afirma ele. Quando se trata de grandes inovações, a imaginação é ainda mais decisiva. Francisco Prestes Maia, que governou a cidade de São Paulo por duas vezes entre as décadas de 30 e 60, é lembrado até hoje como um dos grandes prefeitos que o país já teve porque transformou a cidade em um grande canteiro de obras, num trabalho que depois seria arrematado por José Vicente de Faria Lima. Mas, ao contrário do que acontece em muitas cidades, Maia fez isso de uma forma planejada e adiantou-se ao crescimento estrondoso da capital paulista, que veio com a industrialização. Prestes Maia montou o Plano de Avenidas, o primeiro estudo da cidade que trazia o zoneamento urbano da capital, preocupando-se com a construção de uma malha viária capaz de suportar o fluxo de tráfego que estava por vir. "Ele teve uma visão urbanística da cidade e noção de qual seria o impacto de suas obras na qualidade de vida dos cidadãos", diz Flávio Fava de Morais, diretor da Fundação Seade e ex-reitor da Universidade de São Paulo. Na França do século XIX, Napoleão III convocou o barão Georges-Eugène Haussmann para tirar o esgoto das calçadas de Paris e dar viabilidade de tráfego a uma cidade que tinha ruas com traçado medieval. Haussmann foi o homem que implantou em Paris as avenidas e bulevares alinhados em forma de estrela. Tornou-se uma lenda e seu modelo de planejamento, um modo de pensar que faria escola. No Rio de Janeiro de 1902, o engenheiro Francisco Pereira Passos seguiu o modelo alargando as ruas do centro da cidade e fazendo nascer a Avenida Atlântica nos fundos dos casarões de Copacabana. Pereira Passos também deu a contribuição definitiva ao trabalho do sanitarista Oswaldo Cruz com um pacote de obras que tornaram o Rio menos insalubre. Melhor que a encomenda, pagou as dívidas municipais e consertou a arrecadação. Entrou para a crônica do Rio de Janeiro como o Haussmann brasileiro. "Um bom prefeito precisa ter, entre outras coisas, alguns netos", diz o consultor Stephen Kanitz. "Essa é uma das garantias de que ele vai pensar nas próximas gerações", ele complementa. Pode-se
resumir um bom prefeito em vários moldes, mas as características
básicas serão parecidas. É conveniente que
tenha sensibilidade política, por exemplo, porque terá
de convencer a comunidade, os vereadores em particular, de que seus
projetos devem ser apoiados. Mas a boa administração
nem sequer exige que haja um político à sua frente.
Há cidades, fora do Brasil, que são geridas por administradores
contratados. Em muitas, o sistema funciona bem. Nos Estados Unidos,
a experiência começou em 1912, na pequena Sumter, na
Carolina do Sul. Ali, foi contratado um "gerente" para imprimir
ao serviço público princípios como produtividade
e redução de custos, enquanto o prefeito ficava livre
para politicar. Dois anos depois, já havia uma associação
nacional dos gerentes de cidades e um código de ética
proibindo-os de ter atividades partidárias. Hoje são
8.000 associados a essa entidade e há
casos de gerentes com ou sem prefeito na Austrália, Nova
Zelândia, Inglaterra, Alemanha e Holanda. Em Toronto, no Canadá,
Arthur Stevenson permaneceu por 25 anos no cargo. "A longevidade
garante a continuidade dos projetos, que são da cidade e
não do político", observa Marcos Camargo Campagnone,
mestre em administração e planejamento urbano e autor
de uma tese de doutorado sobre gerentes de cidades na Fundação
Getúlio Vargas.
Com reportagem de Cristine Prestes e Uilson Paiva |
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