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Edição 1 767 - 4 de setembro de 2002
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Meu querido diário

O técnico que levou a seleção
ao penta conta
em livro os
singelos segredos da conquista

Diogo Schelp


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Mais trechos do livro

Durante a última Copa do Mundo, o técnico da seleção brasileira, Luiz Felipe Scolari, acordava entre 5 e 7 horas da manhã, pegava uma caneta e, antes que os colegas da delegação se levantassem, iniciava mais uma página de seu diário. Ali, anotava impressões sobre os adversários, avaliação dos treinos, dúvidas entre o 3x3x2x2 e o 3x4x1x2, conversas com uma psicóloga e detalhes de sua relação com os jogadores. Esse mundo interior do técnico se tornará público no próximo dia 12, com o lançamento do livro Felipão, a Alma do Penta (ZH Publicações; 188 páginas; 24 reais). Além do diário, a obra reúne textos do cronista esportivo Ruy Carlos Ostermann e uma biografia autorizada. Para quem espera grandes revelações, segredos táticos ou a vingança de um treinador por muitos desacreditado antes da conquista do pentacampeonato, o livro será uma decepção. Para quem só deseja conhecer melhor um homem que parece simples, há muito material na obra para confirmar a teoria: Felipão é simples.

O técnico escreve com a desenvoltura que exibia quando jogava de zagueiro: sem enfeites. Foi tão econômico nas anotações que cada trecho teve de ser completado por Ostermann para que se reconstituísse a lógica que só Felipão alcançava. Mesmo assim, é difícil entender suas comparações entre o vôo dos gansos no céu e a formação da equipe na terra. São segredos singelos os que ele confiava ao diário. O mais interessante deles é sobre os telefonemas que dava à psicóloga Regina Brandão, paga de seu bolso, para que ela, no Brasil, o ajudasse a resolver questões da alma e dos gramados. Ligou para Regina angustiado antes da estréia, diante da Turquia, como havia ligado para discutir como melhorar o desempenho do meio-campo Kléberson depois do amistoso com a Malásia. A família também era alvo de telefonemas. Já na época em que era técnico do Brasil de Pelotas, no Rio Grande do Sul, Felipão ouvia os dirigentes perguntando se sua mulher, Olga, estava com a escalação do time pronta.


AP
Felipão: casos de gansos e leões para motivação e ligações para a psicóloga


No capítulo técnicas de motivação, Felipão revela-se um entusiasta dos apólogos. A vida em campo não comporta muitas sutilezas. Antes de jogar contra a China e de dar a palestra à equipe, ele enfiou uma cópia da fábula A Flauta Mágica embaixo da porta do quarto de cada um dos atletas. A história trata de um caçador que encanta leões com o som de seu instrumento, para matá-los, até o dia em que encontra um leão surdo. Segundo ele explicou em detalhes depois aos jogadores, a moral da história é que a China podia ser um leão surdo. Os fãs dos bastidores de Copas do Mundo ficam sabendo também que a choradeira de Romário numa coletiva de televisão comoveu e quase convenceu o técnico a dar-lhe nova oportunidade no time. Felipão esteve a ponto de perdoá-lo por pedir dispensa da Copa América para uma suposta cirurgia no olho e aparecer jogando pelo Vasco logo em seguida. A intenção desapareceu quando outra imagem mostrou Eurico Miranda, o presidente do clube, fazendo bravatas em tom de discurso político. "Aí vi que era outra coisa", afirma o treinador em seu livro.

Frases desse quilate são a marca principal da obra, seja quando Felipão trata de seu desconforto diante de conversas de jogadores sobre quem seria o goleador da Copa, seja quando explica a importância de um vídeo da seleção com trilha sonora de Ivete Sangalo exibido antes do jogo de quartas-de-final aos convocados. É divertida sua conclusão sobre a importância de uma força da natureza atuando a favor do Brasil no duro jogo contra a Inglaterra. O técnico lembra que, depois da expulsão de Ronaldinho, os ingleses insistiram em cruzar bolas na área brasileira, tentando um gol de cabeça. "Esqueceram-se de que o vento lhes era favorável e levava a bola até a cabeça dos nossos zagueiros ou (ela) passava e o Marcos recolhia", ele explica. E se ventasse em outra direção? "Ia ser horrível", ele conclui. Felipão revelou-se um técnico capaz de surpreender o país ao levar o time à conquista do penta. Seria muito exigir que se revelasse também um filósofo de sua atividade.

   
 
   
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