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Meu
querido diário
O técnico que levou a seleção
ao penta conta
em livro os
singelos segredos da conquista
Diogo
Schelp

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Durante
a última Copa do Mundo, o técnico da seleção
brasileira, Luiz Felipe Scolari, acordava entre 5 e 7 horas da manhã,
pegava uma caneta e, antes que os colegas da delegação se
levantassem, iniciava mais uma página de seu diário. Ali,
anotava impressões sobre os adversários, avaliação
dos treinos, dúvidas entre o 3x3x2x2 e o 3x4x1x2, conversas com
uma psicóloga e detalhes de sua relação com os jogadores.
Esse mundo interior do técnico se tornará público
no próximo dia 12, com
o lançamento do livro Felipão, a Alma do Penta
(ZH Publicações; 188 páginas; 24 reais). Além
do diário, a obra reúne textos do cronista esportivo Ruy
Carlos Ostermann e uma biografia autorizada. Para quem espera grandes
revelações, segredos táticos ou a vingança
de um treinador por muitos desacreditado antes da conquista do pentacampeonato,
o livro será uma decepção. Para quem só deseja
conhecer melhor um homem que parece simples, há muito material
na obra para confirmar a teoria: Felipão é simples.
O
técnico escreve com a desenvoltura que exibia quando jogava de
zagueiro: sem enfeites. Foi tão econômico nas anotações
que cada trecho teve de ser completado por Ostermann para que se reconstituísse
a lógica que só Felipão alcançava. Mesmo assim,
é difícil entender suas comparações entre
o vôo dos gansos no céu e a formação da equipe
na terra. São segredos singelos os que ele confiava ao diário.
O mais interessante deles é sobre os telefonemas que dava à
psicóloga Regina Brandão, paga de seu bolso, para que ela,
no Brasil, o ajudasse a resolver questões da alma e dos gramados.
Ligou para Regina angustiado antes da estréia, diante da Turquia,
como havia ligado para discutir como melhorar o desempenho do meio-campo
Kléberson depois do amistoso com a Malásia. A família
também era alvo de telefonemas. Já na época em que
era técnico do Brasil de Pelotas, no Rio Grande do Sul, Felipão
ouvia os dirigentes perguntando se sua mulher, Olga, estava com a escalação
do time pronta.
AP
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| Felipão:
casos de gansos e leões para motivação e ligações para a psicóloga
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No capítulo técnicas de motivação, Felipão
revela-se um entusiasta dos apólogos. A vida em campo não
comporta muitas sutilezas. Antes de jogar contra a China e de dar a palestra
à equipe, ele enfiou uma cópia da fábula A Flauta
Mágica embaixo da porta do quarto de cada um dos atletas. A
história trata de um caçador que encanta leões com
o som de seu instrumento, para matá-los, até o dia em que
encontra um leão surdo. Segundo ele explicou em detalhes depois
aos jogadores, a moral da história é que a China podia ser
um leão surdo. Os fãs dos bastidores de Copas do Mundo ficam
sabendo também que a choradeira de Romário numa coletiva
de televisão comoveu e quase convenceu o técnico a dar-lhe
nova oportunidade no time. Felipão esteve a ponto de perdoá-lo
por pedir dispensa da Copa América para uma suposta cirurgia no
olho e aparecer jogando pelo Vasco logo em seguida. A intenção
desapareceu quando outra imagem mostrou Eurico Miranda, o presidente do
clube, fazendo bravatas em tom de discurso político. "Aí
vi que era outra coisa", afirma o treinador em seu livro.
Frases desse quilate são a marca principal da obra, seja quando
Felipão trata de seu desconforto diante de conversas de jogadores
sobre quem seria o goleador da Copa, seja quando explica a importância
de um vídeo da seleção com trilha sonora de Ivete
Sangalo exibido antes do jogo de quartas-de-final aos convocados. É
divertida sua conclusão sobre a importância de uma força
da natureza atuando a favor do Brasil no duro jogo contra a Inglaterra.
O técnico lembra que, depois da expulsão de Ronaldinho,
os ingleses insistiram em cruzar bolas na área brasileira, tentando
um gol de cabeça. "Esqueceram-se de que o vento lhes era favorável
e levava a bola até a cabeça dos nossos zagueiros ou (ela)
passava e o Marcos recolhia", ele explica. E se ventasse em outra direção?
"Ia ser horrível", ele conclui. Felipão revelou-se um técnico
capaz de surpreender o país ao levar o time à conquista
do penta. Seria muito exigir que se revelasse também um filósofo
de sua atividade.
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