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A
roleta-russa da Aids
Nas festas do chamado barebacking,
o risco de contrair a doença ajuda
a aumentar o prazer
Leonardo Coutinho
Divulgação
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| Cena
do filme Trainspotting: um jogo para testar limites e desafiar
a morte |

Veja também |
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Médicos
e cientistas têm um novo inimigo na luta contra a disseminação
da Aids. Ele se chama barebacking, uma expressão que pode
ser traduzida como "cavalgada sem sela" e define o comportamento de pessoas
que se expõem voluntariamente a relacionamentos de alto risco,
sem nenhuma proteção, para unir ao prazer sexual a adrenalina
do perigo. Definido como uma prática de tendências autodestrutivas
semelhantes às que são diagnosticadas em suicidas, dependentes
de heroína e necrófilos, o barebacking está se tornando
perigosamente popular. Na Europa e nos Estados Unidos já se realizam
festas em que, além de estimular o sexo livre e sem preservativos,
os organizadores convidam portadores de HIV que não são
identificados para os outros participantes.
Na Alemanha, o Instituto Robert Koch, de Berlim, especializado no estudo
de doenças contagiosas, estima em 2.000 casos anuais o total de
contaminados pelo vírus da Aids devido à prática
dessa modalidade de sexo. Há dois anos, o centro de vigilância
sanitária da França realizou uma pesquisa e constatou que,
entre 5.000 homossexuais de nível superior ou matriculados em universidade,
1.500 tinham feito sexo sem proteção recentemente e, nesse
grupo, 1.050 agiram motivados pela excitação da possibilidade
de contrair a doença. Em junho passado, um estudo divulgado nos
EUA apresentou dados mostrando que cada festa desse tipo realizada no
Estado de Massachusetts terminou com pelo menos dois novos soropositivos
na praça.
São Francisco, na costa oeste dos EUA, virou a cidade-sede do fenômeno.
Além das festas de barebacking, registram-se casos de gays
que se contaminaram voluntariamente, para ter no relacionamento uma situação
equivalente à dos parceiros e para se livrar do uso do preservativo.
Segundo estatísticas da San Francisco Aids Foundation, o número
de novos casos de contaminação dobrou em um ano. O mais
inflamado ativista contra o preservativo, Tony Valenzuela, da Califórnia,
distribui declarações que fazem tremer as entidades que
lutam pela prevenção da Aids. "O sexo sem preservativo tem
um valor original que resulta em elevado nível de intimidade e
erotismo incomparável", ele afirma no site da organização
antipreservativos Sex Panic. "Isso precisa ser dito e respeitado, porque,
do contrário, estaremos sendo condescendentes e pouco verdadeiros
com aquilo em que acreditamos e de que gostamos." A reação
a esse tipo de pregação são campanhas e mais campanhas
na mídia, em saunas e boates. Com efetividade duvidosa.
O próprio sucesso no desenvolvimento de tratamentos para a Aids
acabou facilitando esse tipo de loucura. Pela medicação
com coquetéis, é cada vez maior a sobrevida de pacientes
que desenvolvem sintomas da doença e ainda mais expressiva a quantidade
de soropositivos assintomáticos. A letalidade da Aids foi reduzida
à metade do que era em 1996, quando se iniciaram os tratamentos
com a combinação de medicamentos. "Como diminui a visibilidade
da doença, muitos podem ter a falsa impressão de que já
é seguro novamente o sexo sem preservativos", diz o sanitarista
paulista Mario Scheffer, da ONG Pela Vidda. "As pessoas esquecem que a
Aids não é mais sinônimo de morte, mas ainda mata."
Jornais que circulam na comunidade gay de países europeus narram,
em tom de alerta, casos de desempregados que se contaminaram propositalmente
para obter benefícios oferecidos aos portadores do vírus,
como auxílio para moradia, alimentação e tratamento
de saúde.
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| O
cartaz para sinalizar o perigo da opção pelos relacionamentos
sem proteção |
O
psicólogo brasileiro André Barreto publicou recentemente
na revista Sociétés, do Centro de Estudos sobre o
Cotidiano da Universidade de Paris, um trabalho a respeito do comportamento
de homossexuais do Rio de Janeiro no qual também se encontram depoimentos
de pessoas que descartam a proteção em nome do prazer. "Esses
são casos em que a excitação é estimulada
pelo perigo", afirma Barreto. "O prazer para essas pessoas está
associado a algum tipo de descontrole." Ao justificar seu comportamento
de risco, um dos entrevistados se define como uma pessoa de sorte, garantindo
que manteve relações sexuais sem camisinha com mais de 300
parceiros em um ano e não contraiu a doença. "Em relacionamentos
que eu descolo e vou parar no motel ou na sauna me dá muita vontade
de transar sem camisinha", depôs a Barreto um administrador de empresas
carioca. "É um pouco o jogo de roleta-russa."
Comparado a outras situações em que as pessoas põem
a vida em risco, o barebacking revela ter um potencial homicida
tanto quanto de autodestruição. Nos esportes mais perigosos,
o atleta se arrisca em razão de recompensas sociais e dentro de
uma margem de segurança que pode ser mínima, mas é
conhecida. No jogo do sexo de alto risco, assim como não quer saber
se seus parceiros estão doentes, o adepto também não
se interessa em fazer exames e descobrir se já é um potencial
transmissor da Aids. "Jogar-se de um prédio é diferente
de pôr a vida alheia em risco", observa o professor Yves de La Taille,
do Departamento de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da
Personalidade da Universidade de São Paulo. O comportamento dos
praticantes de sexo aleatório e desprotegido é mais parecido,
nesse aspecto, com o do motorista que teima em dirigir mesmo se sentindo
embriagado ou com o da pessoa que não tem freios no uso de determinada
droga. No cinema, o inquietante filme Trainspotting, do inglês
Danny Boyle, que adaptou o romance de Irvine Welsh, relata a trajetória
de quatro jovens que, na compulsão por se autodestruir, consomem
heroína até o último limite. A morte.
Há dois impulsos operando sobre os neurônios quando alguém
tem um estímulo sexual, explica o psiquiatra Marcos Mercadante,
do Hospital das Clínicas de São Paulo. Um empurra o organismo
na direção do prazer, da recompensa. O outro mede os prejuízos
que podem decorrer dessa atitude. Insetos não têm esse mecanismo
e tornam-se presas fáceis para seus predadores durante a cópula.
Quando o homem age do mesmo modo, está havendo, portanto, uma falha
neurológica. O psicanalista Luiz Cláudio Mendonça
Figueiredo, de São Paulo, relata ter analisado pacientes que cederam
ao prazer temperado com perigo e depois nem tiveram mais coragem de se
examinar. "O risco, para eles, funcionou como um tempero para aumentar
a excitação", ele diz. Isso pode ser considerado um comportamento
doentio tanto quanto o da pessoa que só obtém prazer mantendo
relações sexuais quase em público, sob o risco de
ser descoberta. Os problemas são a dose de adrenalina e as conseqüências.
"Ambos estão lidando com a necessidade de sentir medo, mas o que
se arrisca a contrair Aids age como se desse um passo atrás na
história da evolução, como um animal que perde um
instinto."
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