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A roleta-russa da Aids

Nas festas do chamado barebacking,
o risco de contrair a doença ajuda
a aumentar o prazer

Leonardo Coutinho

 
Divulgação
Cena do filme Trainspotting: um jogo para testar limites e desafiar a morte


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Dos arquivos de VEJA
Reportagem de 22/5/2002: campanha contra a Aids
Reportagem de 25/7/2002: o medo da Aids diminui

Médicos e cientistas têm um novo inimigo na luta contra a disseminação da Aids. Ele se chama barebacking, uma expressão que pode ser traduzida como "cavalgada sem sela" e define o comportamento de pessoas que se expõem voluntariamente a relacionamentos de alto risco, sem nenhuma proteção, para unir ao prazer sexual a adrenalina do perigo. Definido como uma prática de tendências autodestrutivas semelhantes às que são diagnosticadas em suicidas, dependentes de heroína e necrófilos, o barebacking está se tornando perigosamente popular. Na Europa e nos Estados Unidos já se realizam festas em que, além de estimular o sexo livre e sem preservativos, os organizadores convidam portadores de HIV que não são identificados para os outros participantes.

Na Alemanha, o Instituto Robert Koch, de Berlim, especializado no estudo de doenças contagiosas, estima em 2.000 casos anuais o total de contaminados pelo vírus da Aids devido à prática dessa modalidade de sexo. Há dois anos, o centro de vigilância sanitária da França realizou uma pesquisa e constatou que, entre 5.000 homossexuais de nível superior ou matriculados em universidade, 1.500 tinham feito sexo sem proteção recentemente e, nesse grupo, 1.050 agiram motivados pela excitação da possibilidade de contrair a doença. Em junho passado, um estudo divulgado nos EUA apresentou dados mostrando que cada festa desse tipo realizada no Estado de Massachusetts terminou com pelo menos dois novos soropositivos na praça.

São Francisco, na costa oeste dos EUA, virou a cidade-sede do fenômeno. Além das festas de barebacking, registram-se casos de gays que se contaminaram voluntariamente, para ter no relacionamento uma situação equivalente à dos parceiros e para se livrar do uso do preservativo. Segundo estatísticas da San Francisco Aids Foundation, o número de novos casos de contaminação dobrou em um ano. O mais inflamado ativista contra o preservativo, Tony Valenzuela, da Califórnia, distribui declarações que fazem tremer as entidades que lutam pela prevenção da Aids. "O sexo sem preservativo tem um valor original que resulta em elevado nível de intimidade e erotismo incomparável", ele afirma no site da organização antipreservativos Sex Panic. "Isso precisa ser dito e respeitado, porque, do contrário, estaremos sendo condescendentes e pouco verdadeiros com aquilo em que acreditamos e de que gostamos." A reação a esse tipo de pregação são campanhas e mais campanhas na mídia, em saunas e boates. Com efetividade duvidosa.

O próprio sucesso no desenvolvimento de tratamentos para a Aids acabou facilitando esse tipo de loucura. Pela medicação com coquetéis, é cada vez maior a sobrevida de pacientes que desenvolvem sintomas da doença e ainda mais expressiva a quantidade de soropositivos assintomáticos. A letalidade da Aids foi reduzida à metade do que era em 1996, quando se iniciaram os tratamentos com a combinação de medicamentos. "Como diminui a visibilidade da doença, muitos podem ter a falsa impressão de que já é seguro novamente o sexo sem preservativos", diz o sanitarista paulista Mario Scheffer, da ONG Pela Vidda. "As pessoas esquecem que a Aids não é mais sinônimo de morte, mas ainda mata." Jornais que circulam na comunidade gay de países europeus narram, em tom de alerta, casos de desempregados que se contaminaram propositalmente para obter benefícios oferecidos aos portadores do vírus, como auxílio para moradia, alimentação e tratamento de saúde.

O cartaz para sinalizar o perigo da opção pelos relacionamentos sem proteção

O psicólogo brasileiro André Barreto publicou recentemente na revista Sociétés, do Centro de Estudos sobre o Cotidiano da Universidade de Paris, um trabalho a respeito do comportamento de homossexuais do Rio de Janeiro no qual também se encontram depoimentos de pessoas que descartam a proteção em nome do prazer. "Esses são casos em que a excitação é estimulada pelo perigo", afirma Barreto. "O prazer para essas pessoas está associado a algum tipo de descontrole." Ao justificar seu comportamento de risco, um dos entrevistados se define como uma pessoa de sorte, garantindo que manteve relações sexuais sem camisinha com mais de 300 parceiros em um ano e não contraiu a doença. "Em relacionamentos que eu descolo e vou parar no motel ou na sauna me dá muita vontade de transar sem camisinha", depôs a Barreto um administrador de empresas carioca. "É um pouco o jogo de roleta-russa."

Comparado a outras situações em que as pessoas põem a vida em risco, o barebacking revela ter um potencial homicida tanto quanto de autodestruição. Nos esportes mais perigosos, o atleta se arrisca em razão de recompensas sociais e dentro de uma margem de segurança que pode ser mínima, mas é conhecida. No jogo do sexo de alto risco, assim como não quer saber se seus parceiros estão doentes, o adepto também não se interessa em fazer exames e descobrir se já é um potencial transmissor da Aids. "Jogar-se de um prédio é diferente de pôr a vida alheia em risco", observa o professor Yves de La Taille, do Departamento de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade da Universidade de São Paulo. O comportamento dos praticantes de sexo aleatório e desprotegido é mais parecido, nesse aspecto, com o do motorista que teima em dirigir mesmo se sentindo embriagado ou com o da pessoa que não tem freios no uso de determinada droga. No cinema, o inquietante filme Trainspotting, do inglês Danny Boyle, que adaptou o romance de Irvine Welsh, relata a trajetória de quatro jovens que, na compulsão por se autodestruir, consomem heroína até o último limite. A morte.

Há dois impulsos operando sobre os neurônios quando alguém tem um estímulo sexual, explica o psiquiatra Marcos Mercadante, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Um empurra o organismo na direção do prazer, da recompensa. O outro mede os prejuízos que podem decorrer dessa atitude. Insetos não têm esse mecanismo e tornam-se presas fáceis para seus predadores durante a cópula. Quando o homem age do mesmo modo, está havendo, portanto, uma falha neurológica. O psicanalista Luiz Cláudio Mendonça Figueiredo, de São Paulo, relata ter analisado pacientes que cederam ao prazer temperado com perigo e depois nem tiveram mais coragem de se examinar. "O risco, para eles, funcionou como um tempero para aumentar a excitação", ele diz. Isso pode ser considerado um comportamento doentio tanto quanto o da pessoa que só obtém prazer mantendo relações sexuais quase em público, sob o risco de ser descoberta. Os problemas são a dose de adrenalina e as conseqüências. "Ambos estão lidando com a necessidade de sentir medo, mas o que se arrisca a contrair Aids age como se desse um passo atrás na história da evolução, como um animal que perde um instinto."

   
 


Advertência da ONG de São Francisco na internet: a cidade sedia o fenômeno
   
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