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Edição 1 767 - 4 de setembro de 2002
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Onde estão os bebês gênios

Filhos do banco de sêmen dos prêmios
Nobel são jovens de inteligência normal

Daniel Hessel Teich

 
Fotos Ed Kashi

O único a ser identificado publicamente desde bebê, Doron Blake (à esq. e, criança, na capa de uma revista) tem 20 anos, toca cítara e quer distância das aulas de ciências

Um multimilionário americano causou alarido internacional no fim dos anos 70 com um projeto controverso: o de criar uma legião de crianças superdotadas por meio de inseminação artificial com o esperma doado por cientistas brilhantes, de preferência ganhadores do Prêmio Nobel. Até 1999, quando o banco de sêmen criado por ele fechou as portas, havia produzido 240 bebês. Na semana passada, a segunda criança a nascer e a única a ter sua identidade revelada publicamente, o americano Doron Blake, completou 20 anos. A pergunta óbvia é se ele corresponde às expectativas de genialidade. Se depender da comprovação de pendor para a ciência pura ou de realizações intelectuais precoces, a resposta é não. Nada do que fez até agora indica talento fora de série. Blake estuda religião em uma universidade de segundo time e é apaixonado por taoísmo, budismo e wicca, uma pseudo-religião que invoca os princípios da bruxaria. Vegetariano, toca cítara e é ávido leitor dos livros infantis da série Harry Potter. "Eu sinceramente acho essa idéia de produzir bebês gênios uma coisa meio maluca", disse o jovem em entrevista recente. "Nunca fiz nada de especial e não acho que a inteligência seja uma característica capaz de tornar uma pessoa melhor que outra."

Na infância, ele viveu como o personagem principal do filme O Show de Truman. Cada passo seu era acompanhado pela imprensa e dividido com milhões de curiosos de todo o planeta. Blake estima que já tenha dado mais de 100 entrevistas. Ele transformou o assédio dos jornalistas em meio de sobrevivência e cobra 1.500 dólares por entrevista. O preço aumenta se incluir uma conversa com sua mãe, Afton Blake, uma psicóloga espalhafatosa que mora em Los Angeles. Aos 6 anos, ele foi submetido a um teste de inteligência que apurou Q.I. de 180 – qualquer escore acima de 130 é excepcional. Mas isso, no final das contas, não significa grande coisa. Os testes são controversos porque não há consenso sobre que habilidades constituem inteligência. Mesmo se soubéssemos, ficaria em aberto se o Q.I. representa adequadamente essas habilidades. Os nomes dos doadores e dos bebês gerados pelo Repository for Geminal Choice – nome oficial do banco de sêmen dos prêmios Nobel – são mantidos em sigilo. Mas nem por isso estamos sem notícias deles.

Desde o início de 2001, o jornalista David Plotz, da Slate, revista americana na internet, já localizou quinze dessas crianças, com idade entre 7 e 20 anos. Ele também entrevistou nove mães e um pai adotivo. Identificou ainda sete doadores e, no começo de agosto, promoveu o encontro de um deles com a filha gerada com seu sêmen. "Esses meninos e meninas não têm nada de bizarro ou qualquer traço que os transforme em supercrianças", escreveu Plotz. "Mesmo as famílias e os doadores não parecem convencidos de que a idéia de aprimoramento genético proposta pelo projeto funcione de fato." Robert Graham, o milionário que criou o banco de sêmen, era obcecado por conceitos de eugenia perigosamente próximos aos dos nazistas. A diferença é que em lugar de exterminar as pessoas que considerava de padrão inferior, como fez Hitler, ele propunha a reprodução maciça daquelas que, em sua opinião, seriam superiores. Graham acreditava que o desenvolvimento da medicina e dos programas de amparo social tinham virado do avesso as leis darwinistas de seleção natural, permitindo a sobrevivência e a reprodução dos mais fracos e menos inteligentes. A idéia de seu banco era oferecer a contrapartida a esse "fenômeno" gerando artificialmente americanos – sim, ele só se preocupava com os Estados Unidos – geneticamente superiores.


Afton Blake, mãe de Doron: renda extra com entrevistas

Para isso, o multimilionário procurou os prêmios Nobel. Conseguiu convencer três a cinco deles. Só um – William Shockley, inventor do transistor, Nobel de Física de 1956 e racista notório – admitiu participar. De qualquer forma, a maioria dos premiados era velha demais para fins reprodutivos. Graham precisou recorrer a professores e estudantes universitários e atletas. Estima-se que tenha contado com meia centena de doadores. O sêmen era gratuito, mas a clínica exigia que a mulher estivesse casada com um homem estéril, fosse bem-educada e com boa situação financeira. Afton, a mãe de Blake, acredita ter sido aceita por ter jurado que seu propósito era contribuir com a humanidade gerando um bebê gênio. Foi inseminada com o esperma de um professor universitário apaixonado por música clássica, de boa aparência e adepto da natação. Da ficha constava um pequeno defeito: hemorróidas. A pesquisa da Slate mostrou que, na realidade, as mulheres davam pouca atenção ao discurso eugenista. Eram atraídas pelas condições excepcionais de seleção dos doadores porque queriam bebês saudáveis – e não superdotados.

Ainda bem que não esperavam genialidade, pois as chances de nascer uma criança excepcionalmente bem-dotada eram as mesmas de qualquer outra concepção. "As características físicas são, com certeza, herdadas pela criança. Quanto a particularidades como inteligência ou dotes artísticos, ninguém sabe se são transmitidas ou não", afirma Vera Fehér, supervisora do Banco de Sêmen do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Graham previu a possibilidade de um encontro futuro entre a criança e o pai biológico. A clínica servia de intermediária na troca de correspondência entre o pai biológico e a família do bebê. Toda a comunicação terminou quando Graham morreu (devido a uma queda no banheiro), em 1997. O doador que encontrou sua filha biológica, depois de estabelecer contato por meio da Slate, havia mantido correspondência com ela, com troca de presentes e fotos. Hoje ele tem 70 anos e a menina, 11. O doador é pai de outras sete meninas e onze meninos. Outro garoto localizado, de 16 anos, não gosta de ciências e sonha ser lutador profissional. Só no ano passado soube de sua origem e decidiu levá-la a sério. "Comecei a me concentrar mais nas minhas tarefas escolares. Acredito agora que tenho potencial e que no passado era apenas preguiçoso", declara.

A inseminação artificial por meio de doação de esperma congelado foi a primeira tecnologia utilizada em grande escala para permitir que homens estéreis pudessem ter filhos. Pode existir nos Estados Unidos 1 milhão de crianças geradas por bancos de sêmen. No Brasil, estima-se que só 1% dos casais inférteis recorra ao método, atualmente um recurso menor dentro do arsenal de técnicas de reprodução artificial. Mesmo assim, a questão levantada pelo banco de sêmen dos prêmios Nobel continua pertinente: podemos melhorar nossos filhos? A ciência ainda não é capaz de garantir aos pais o nascimento de bebês mais inteligentes do que teriam naturalmente, mas estamos a um passo da clonagem de seres humanos. E sabe-se lá de que outras novidades.



   
 
   
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