
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Onde estão
os bebês gênios
Filhos
do banco de sêmen dos prêmios
Nobel são jovens de inteligência normal
Daniel Hessel
Teich
Fotos Ed Kashi
 |
 |
|
O
único a ser identificado publicamente desde bebê, Doron
Blake (à esq. e, criança, na capa de uma revista)
tem 20 anos, toca cítara e quer distância das aulas
de ciências
|
Um multimilionário
americano causou alarido internacional no fim dos anos 70 com um projeto
controverso: o de criar uma legião de crianças superdotadas
por meio de inseminação artificial com o esperma doado por
cientistas brilhantes, de preferência ganhadores do Prêmio
Nobel. Até 1999, quando o banco de sêmen criado por ele fechou
as portas, havia produzido 240 bebês. Na semana passada, a segunda
criança a nascer e a única a ter sua identidade revelada
publicamente, o americano Doron Blake, completou 20 anos. A pergunta óbvia
é se ele corresponde às expectativas de genialidade. Se
depender da comprovação de pendor para a ciência pura
ou de realizações intelectuais precoces, a resposta é
não. Nada do que fez até agora indica talento fora de série.
Blake estuda religião em uma universidade de segundo time e é
apaixonado por taoísmo, budismo e wicca, uma pseudo-religião
que invoca os princípios da bruxaria. Vegetariano, toca cítara
e é ávido leitor dos livros infantis da série Harry
Potter. "Eu sinceramente acho essa idéia de produzir bebês
gênios uma coisa meio maluca", disse o jovem em entrevista recente.
"Nunca fiz nada de especial e não acho que a inteligência
seja uma característica capaz de tornar uma pessoa melhor que outra."
Na infância,
ele viveu como o personagem principal do filme O Show de Truman. Cada
passo seu era acompanhado pela imprensa e dividido com milhões
de curiosos de todo o planeta. Blake estima que já tenha dado mais
de 100 entrevistas. Ele transformou o assédio dos jornalistas em
meio de sobrevivência e cobra 1.500 dólares
por entrevista. O preço aumenta se incluir uma conversa com sua
mãe, Afton Blake, uma psicóloga espalhafatosa que mora em
Los Angeles. Aos 6 anos, ele foi submetido a um teste de inteligência
que apurou Q.I. de 180 qualquer escore acima de 130 é excepcional.
Mas isso, no final das contas, não significa grande coisa. Os testes
são controversos porque não há consenso sobre que
habilidades constituem inteligência. Mesmo se soubéssemos,
ficaria em aberto se o Q.I. representa adequadamente essas habilidades.
Os nomes dos doadores e dos bebês gerados pelo Repository for Geminal
Choice nome oficial do banco de sêmen dos prêmios Nobel
são mantidos em sigilo. Mas nem por isso estamos sem notícias
deles.
Desde o
início de 2001, o jornalista David Plotz, da Slate, revista
americana na internet, já localizou quinze dessas crianças,
com idade entre 7 e 20 anos. Ele também entrevistou nove mães
e um pai adotivo. Identificou ainda sete doadores e, no começo
de agosto, promoveu o encontro de um deles com a filha gerada com seu
sêmen. "Esses meninos e meninas não têm nada de bizarro
ou qualquer traço que os transforme em supercrianças", escreveu
Plotz. "Mesmo as famílias e os doadores não parecem convencidos
de que a idéia de aprimoramento genético proposta pelo projeto
funcione de fato." Robert Graham, o milionário que criou o banco
de sêmen, era obcecado por conceitos de eugenia perigosamente próximos
aos dos nazistas. A diferença é que em lugar de exterminar
as pessoas que considerava de padrão inferior, como fez Hitler,
ele propunha a reprodução maciça daquelas que, em
sua opinião, seriam superiores. Graham acreditava que o desenvolvimento
da medicina e dos programas de amparo social tinham virado do avesso as
leis darwinistas de seleção natural, permitindo a sobrevivência
e a reprodução dos mais fracos e menos inteligentes. A idéia
de seu banco era oferecer a contrapartida a esse "fenômeno" gerando
artificialmente americanos sim, ele só se preocupava com
os Estados Unidos geneticamente superiores.
 |
|
Afton
Blake, mãe de Doron: renda extra com entrevistas
|
Para isso,
o multimilionário procurou os prêmios Nobel. Conseguiu convencer
três a cinco deles. Só um William Shockley, inventor
do transistor, Nobel de Física de 1956 e racista notório
admitiu participar. De qualquer forma, a maioria dos premiados
era velha demais para fins reprodutivos. Graham precisou recorrer a professores
e estudantes universitários e atletas. Estima-se que tenha contado
com meia centena de doadores. O sêmen era gratuito, mas a clínica
exigia que a mulher estivesse casada com um homem estéril, fosse
bem-educada e com boa situação financeira. Afton, a mãe
de Blake, acredita ter sido aceita por ter jurado que seu propósito
era contribuir com a humanidade gerando um bebê gênio. Foi
inseminada com o esperma de um professor universitário apaixonado
por música clássica, de boa aparência e adepto da
natação. Da ficha constava um pequeno defeito: hemorróidas.
A pesquisa da Slate mostrou que, na realidade, as mulheres davam
pouca atenção ao discurso eugenista. Eram atraídas
pelas condições excepcionais de seleção dos
doadores porque queriam bebês saudáveis e não
superdotados.
Ainda bem
que não esperavam genialidade, pois as chances de nascer uma criança
excepcionalmente bem-dotada eram as mesmas de qualquer outra concepção.
"As características físicas são, com certeza, herdadas
pela criança. Quanto a particularidades como inteligência
ou dotes artísticos, ninguém sabe se são transmitidas
ou não", afirma Vera Fehér, supervisora do Banco de Sêmen
do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Graham previu a possibilidade
de um encontro futuro entre a criança e o pai biológico.
A clínica servia de intermediária na troca de correspondência
entre o pai biológico e a família do bebê. Toda a
comunicação terminou quando Graham morreu (devido a uma
queda no banheiro), em 1997. O doador que encontrou sua filha biológica,
depois de estabelecer contato por meio da Slate, havia mantido
correspondência com ela, com troca de presentes e fotos. Hoje ele
tem 70 anos e a menina, 11. O doador é pai de outras sete meninas
e onze meninos. Outro garoto localizado, de 16 anos, não gosta
de ciências e sonha ser lutador profissional. Só no ano passado
soube de sua origem e decidiu levá-la a sério. "Comecei
a me concentrar mais nas minhas tarefas escolares. Acredito agora que
tenho potencial e que no passado era apenas preguiçoso", declara.
A inseminação
artificial por meio de doação de esperma congelado foi a
primeira tecnologia utilizada em grande escala para permitir que homens
estéreis pudessem ter filhos. Pode existir nos Estados Unidos 1
milhão de crianças geradas por bancos de sêmen. No
Brasil, estima-se que só 1% dos casais inférteis recorra
ao método, atualmente um recurso menor dentro do arsenal de técnicas
de reprodução artificial. Mesmo assim, a questão
levantada pelo banco de sêmen dos prêmios Nobel continua pertinente:
podemos melhorar nossos filhos? A ciência ainda não é
capaz de garantir aos pais o nascimento de bebês mais inteligentes
do que teriam naturalmente, mas estamos a um passo da clonagem de seres
humanos. E sabe-se lá de que outras novidades.
|
|
 |
|
 |

|
 |