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Diogo
para
presidente (2)
"O
Brasil precisa de legalidade.
O problema é que a ilegalidade
é tão difusa que o único jeito de
debelá-la é legalizá-la. Essa é
minha plataforma revolucionária"
Continuando minha campanha para presidente, que avança inexoravelmente
rumo à vitória, venho a público para lançar
algumas propostas no campo da criminalidade. Os outros candidatos prometem
contratar mais policiais e prender mais bandidos? Eu prometo o contrário:
minha primeira medida será abrir as cadeias e soltar um monte de
gente. Exasperados, os brasileiros vivem comparando a violência
urbana a uma guerra civil. Pois é assim que terminam as guerras
civis: com uma anistia. Lincoln anistiou os inimigos sulistas na Guerra
Civil americana da mesma maneira que, um século e meio depois,
a força internacional de paz anistiou os prisioneiros comuns na
Bósnia. Em meu governo, os únicos que permaneceriam na cadeia
seriam os condenados por crimes graves, com penas superiores a dez anos,
que seriam transferidos para as cadeias mais modernas e seguras do país.
Isso resultaria numa imediata melhoria do sistema penitenciário
brasileiro, com a eliminação do problema da superlotação
e a conseqüente diminuição do risco de fugas, rebeliões
e abusos entre os presos. O Estado gasta mais de 500 reais mensais para
cada preso na cadeia. Eu daria, portanto, 500 reais mensais aos anistiados
pelo prazo de um ano, como salário de reintrodução
social. Muitos usariam o dinheiro para financiar um retorno ao crime,
claro, mas a taxa de reincidência certamente seria mais baixa que
a atual, em torno de 85%.
Considere também, caro eleitor, as vantagens que uma anistia traria
ao sistema judiciário, com o cancelamento de milhares de processos,
que atualmente paralisam os tribunais. Uma Justiça mais eficiente
é a melhor garantia contra o crime. Quanto à polícia,
devemos tentar tirar proveito de sua notória conivência com
os bandidos. Eu instituiria uma comissão semelhante à que
atuou na transição política da África do Sul,
sob o comando do bispo Desmond Tutu. Em nosso caso, os policiais corruptos
que admitissem seus vínculos com o crime seriam plenamente perdoados,
desde que denunciassem seus corruptores e ajudassem a capturá-los.
Pense na quantidade de informações que nossos policiais
corruptos possuem. O suficiente para liquidar o tráfico de drogas
e armas no Brasil.
Minha anistia beneficiaria igualmente todos os brasileiros que construíram
seus barracos de forma clandestina, dando-lhes títulos de propriedade
e cobrando-lhes um simbólico IPTU. Por outro lado, os que sonegaram
impostos ou fizeram remessas ilícitas para o exterior teriam o
direito de regularizar sua situação fiscal mediante uma
multa camarada. Essa gente costuma ser muito malvista pela sociedade,
mas eu acho que a sonegação de impostos e a remessa ilícita
para o exterior têm um aspecto altamente meritório, como
manifestações de protesto cívico e desconfiança
em relação aos políticos.
O Brasil precisa de legalidade. O problema é que a ilegalidade
é tão difusa que o único jeito de debelá-la
é legalizá-la. É com essa plataforma revolucionária
que pretendo ganhar as eleições. Vote em mim. Se minhas
argumentações não o convencem, não se preocupe,
porque prometo que, logo depois de eleito, renuncio, deixando o Brasil
nas mãos do vice-presidente. Quanto a mim, nomeio-me adido cultural
num país bem distante e desapareço.
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