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Edição 1 767 - 4 de setembro de 2002
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Sérgio Abranches

O palanque eletrônico

"No mundo dos segundos ultra-eficazes
da mídia eletrônica, há tempo de sobra
para grandes mudanças, em qualquer
sentido, até a boca de urna"


Ilustração Ale Setti


Bastou uma semana de palanque eletrônico para jogar por terra uma série de teorias improvisadas sobre as eleições e confirmar o que eu havia dito aqui: que havia três candidatos competitivos e que a campanha só começaria para valer quando a TV entrasse nela. Era óbvio que, logo nos primeiros programas, a propaganda mexeria com as intenções de voto, paradas desde a terceira semana de julho.

Entre as teorias improvisadas, duas não resistiram às primeiras 48 horas de campanha na TV. Uma dizia que o programa eleitoral teria sido esvaziado pela pré-campanha muito longa e pela exposição dos candidatos na mídia, principalmente nos meses de julho e agosto. Como eu havia argumentado, essa exposição, dada sua natureza descontínua e não cumulativa, apenas aguçaria o interesse da opinião pública pela propaganda eleitoral e pelos demais eventos de mídia ligados à eleição. Foi o que se viu.

O ibope da propaganda eleitoral gratuita para candidatos presidenciais foi maior que a audiência de programas líderes do horário nobre, como o Jornal Nacional, que registrou média de 37 pontos na semana de 5 a 11 de agosto, na Grande São Paulo, e de 43 pontos no Rio de Janeiro. O horário político registrou 52 pontos em seu primeiro dia de exibição, 47 no segundo e 45 no terceiro. Maiores que a audiência média da novela das 8, que ficou em 40 pontos, ou que a média alcançada pelo Programa Silvio Santos, de 21 pontos. Para medir a audiência da propaganda eleitoral, é necessário somar os pontos de todos os canais, porque é programa único e simultâneo. Ela dá a extensão do alcance de suas mensagens na opinião pública. Já os programas regulares são concorrenciais, veiculam mensagens alternativas, e suas audiências não podem ser somadas. Durante o mês de setembro, provavelmente a audiência do palanque eletrônico cairá e se recobrará nas últimas semanas de campanha. Foi o que aconteceu nas eleições anteriores, e parece que não será diferente neste ano.

A outra teoria dizia que não daria tempo para muita mudança nos padrões de intenção de voto com a TV. Claro que dá. É que a tese, falsa, se baseou em noções de "tempo" e "distância" que não se aplicam às medidas da dinâmica eleitoral. O "tempo" da campanha não se mede mais em dias, mas em intensidade de exposição na mídia. O palanque decisivo não é físico, é eletrônico. Em alguns anos será virtual. No mundo dos segundos ultra-eficazes da mídia eletrônica, há tempo de sobra para grandes mudanças, em qualquer sentido. Não seria de surpreender se houvesse ainda muitas mudanças, em direções diferentes, até a boca de urna. Isso é o que se chama volatilidade.

Quando se olha a pesquisa espontânea, do Ibope ou do Datafolha, vê-se que os indecisos, incapazes de apontar um candidato de sua preferência, beiram os 50%. Na última pesquisa do Ibope para o Jornal Nacional, eles passaram a 45% – antes eram 49% –, apesar de só entre Ciro e Serra ter havido variação conjunta da ordem de 11 pontos percentuais: a diferença entre eles caiu de 15 para 4 pontos. Ciro saiu de 26% para 21% e Serra de 11% para 17%. Por enquanto, é uma espécie de troca-troca entre candidatos, sem cristalização de preferências nem conversão de intenção em voto. Logo, mais volatilidade que tendência.

Outra coisa: somando-se os índices de Ciro e Serra nos meses de julho e agosto, vê-se que a soma permanece tão estável quanto a simpatia por Lula. É indicação de segundo turno. Lula continua a ter um pólo definido na opinião pública e é o que tem mais votos misturados às intenções de voto. Parece óbvio, mas é significativo: ele é o único dos três que já foi votado para presidente, e sabe seu potencial de votos. Os outros dois ainda têm de firmar a preferência que conquistarem.

A campanha na TV marca o momento de conversão de indecisos em eleitores por parte dos candidatos, e de consolidação das intenções mais firmes de votos, anteriormente definidas. Nesse processo de conversão de intenção em voto, há quase 60% de eleitores disponíveis – os indecisos, mais os que ainda podem mudar de opinião –, portanto há muita água ainda para rolar por baixo da ponte dos candidatos. A incerteza é grande, o que é bom para a democracia. Existe muita chance de o primeiro turno ser decidido por pequena margem entre os três, e o segundo turno também. Mas essa será outra eleição, bastante diferente daquela com data marcada para 6 de outubro.


Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)

 
 
   
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