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Sérgio
Abranches
O
palanque eletrônico
"No
mundo dos segundos ultra-eficazes
da mídia eletrônica, há tempo de sobra
para grandes mudanças, em qualquer
sentido, até a boca de urna"
Ilustração Ale Setti
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Bastou uma semana de palanque eletrônico para jogar por terra uma
série de teorias improvisadas sobre as eleições e
confirmar o que eu havia dito aqui: que havia três candidatos competitivos
e que a campanha só começaria para valer quando a TV entrasse
nela. Era óbvio que, logo nos primeiros programas, a propaganda
mexeria com as intenções de voto, paradas desde a terceira
semana de julho.
Entre as teorias improvisadas, duas não resistiram às primeiras
48 horas de campanha na TV. Uma dizia que o programa eleitoral teria sido
esvaziado pela pré-campanha muito longa e pela exposição
dos candidatos na mídia, principalmente nos meses de julho e agosto.
Como eu havia argumentado, essa exposição, dada sua natureza
descontínua e não cumulativa, apenas aguçaria o interesse
da opinião pública pela propaganda eleitoral e pelos demais
eventos de mídia ligados à eleição. Foi o
que se viu.
O ibope da propaganda eleitoral gratuita para candidatos presidenciais
foi maior que a audiência de programas líderes do horário
nobre, como o Jornal Nacional, que registrou média de 37
pontos na semana de 5 a 11 de agosto, na Grande São Paulo, e de
43 pontos no Rio de Janeiro. O horário político registrou
52 pontos em seu primeiro dia de exibição, 47 no segundo
e 45 no terceiro. Maiores que a audiência média da novela
das 8, que ficou em 40 pontos, ou que a média alcançada
pelo Programa Silvio Santos, de 21 pontos. Para medir a audiência
da propaganda eleitoral, é necessário somar os pontos de
todos os canais, porque é programa único e simultâneo.
Ela dá a extensão do alcance de suas mensagens na opinião
pública. Já os programas regulares são concorrenciais,
veiculam mensagens alternativas, e suas audiências não podem
ser somadas. Durante o mês de setembro, provavelmente a audiência
do palanque eletrônico cairá e se recobrará nas últimas
semanas de campanha. Foi o que aconteceu nas eleições anteriores,
e parece que não será diferente neste ano.
A outra teoria dizia que não daria tempo para muita mudança
nos padrões de intenção de voto com a TV. Claro que
dá. É que a tese, falsa, se baseou em noções
de "tempo" e "distância" que não se aplicam às medidas
da dinâmica eleitoral. O "tempo" da campanha não se mede
mais em dias, mas em intensidade de exposição na mídia.
O palanque decisivo não é físico, é eletrônico.
Em alguns anos será virtual. No mundo dos segundos ultra-eficazes
da mídia eletrônica, há tempo de sobra para grandes
mudanças, em qualquer sentido. Não seria de surpreender
se houvesse ainda muitas mudanças, em direções diferentes,
até a boca de urna. Isso é o que se chama volatilidade.
Quando se olha a pesquisa espontânea, do Ibope ou do Datafolha,
vê-se que os indecisos, incapazes de apontar um candidato de sua
preferência, beiram os 50%. Na última pesquisa do Ibope para
o Jornal Nacional, eles passaram a 45% antes eram 49% ,
apesar de só entre Ciro e Serra ter havido variação
conjunta da ordem de 11 pontos percentuais: a diferença entre eles
caiu de 15 para 4 pontos. Ciro saiu de 26% para 21% e Serra de 11% para
17%. Por enquanto, é uma espécie de troca-troca entre candidatos,
sem cristalização de preferências nem conversão
de intenção em voto. Logo, mais volatilidade que tendência.
Outra coisa: somando-se os índices de Ciro e Serra nos meses de
julho e agosto, vê-se que a soma permanece tão estável
quanto a simpatia por Lula. É indicação de segundo
turno. Lula continua a ter um pólo definido na opinião pública
e é o que tem mais votos misturados às intenções
de voto. Parece óbvio, mas é significativo: ele é
o único dos três que já foi votado para presidente,
e sabe seu potencial de votos. Os outros dois ainda têm de firmar
a preferência que conquistarem.
A campanha na TV marca o momento de conversão de indecisos em eleitores
por parte dos candidatos, e de consolidação das intenções
mais firmes de votos, anteriormente definidas. Nesse processo de conversão
de intenção em voto, há quase 60% de eleitores disponíveis
os indecisos, mais os que ainda podem mudar de opinião ,
portanto há muita água ainda para rolar por baixo da ponte
dos candidatos. A incerteza é grande, o que é bom para a
democracia. Existe muita chance de o primeiro turno ser decidido por pequena
margem entre os três, e o segundo turno também. Mas essa
será outra eleição, bastante diferente daquela com
data marcada para 6 de outubro.
Sérgio
Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)
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