Edição 1865 . 4 de agosto de 2004

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Tales Alvarenga
Moore deixa Bush nu

"Por natureza, o ser humano adora ver
o valentão levando a pior. Neste filme, o
Davi Michael Moore surra o Golias Bush
do princípio ao fim"

Estreou no Brasil neste fim de semana um filme extraordinário. É Fahrenheit 11 de Setembro, o documentário que mais levou gente ao cinema em todos os tempos. Nele, o autor Michael Moore apresenta o presidente George W. Bush como fanático, tacanho, influenciável, perigoso para a segurança dos Estados Unidos e um risco para a tranqüilidade do resto do mundo. O filme é partidário e oportunista, como toda boa peça de sátira. Moore despe Bush no meio da praça. Só que, em vez de fazer os discursos de praxe contra o presidente americano, Fahrenheit 11 de Setembro usa o poder das imagens para deixar ao próprio Bush a tarefa de apresentar-se a si mesmo como fanático, tacanho e perigoso.

O filme mostra apenas o lado ruim de Bush. Não acompanha o presidente em seus grandes momentos, como aquele em que, no Congresso americano, ele encarnou a repulsa coletiva e o desejo de punição aos terroristas de Osama bin Laden. Não importa a parcialidade de Michael Moore. Todo mundo já viu Bush no papel favorável de líder determinado. O que ninguém viu até esse filme aparecer foi aquele Bush que as TVs nunca mostraram.

Michael Moore selecionou quilômetros de vídeos desprezados pelos editores dos noticiários de TV e, com eles, armou o mais demolidor ataque que um político já sofreu com o uso deliberado de suas próprias imagens. A direita fundamentalista que cerca Bush no governo ficou indignada com o oportunismo do filme. É bom não esquecer, porém, que Bush também se valeu oportunisticamente dos ataques terroristas de 11 de setembro para estimular o patriotismo dos americanos e levá-los a apoiar sua invasão militar do Iraque. Diante desses dois oportunistas, escolha o menos lesivo ao interesse público.

Sempre houve antiamericanismo no mundo desde que os EUA se tornaram um império econômico e uma potência bélica. Essa reação quase instintiva contra o mais forte foi explorada pela ideologia de esquerda e pelo nacionalismo de direita, que andam de mãos dadas. Agora, porém, não é mais disso que se trata. Os EUA perderam não apenas a boa vontade de multidões por todo o planeta. Perderam o respeito e o prestígio. O futuro se encarregará de recolocar as coisas no seu devido lugar, mas em nenhum momento foi tão baixa a estima mundial pelo mais poderoso, mais dinâmico e mais inventivo país do mundo.

Então, qual dos dois manipuladores você escolhe, George W. Bush ou Michael Moore? Escolha Michael Moore e vá ao cinema. Mesmo que você ache o filme ideológico, como os conservadores americanos acharam, é provável que se espante com as partes em que Bush é apresentado como um bobalhão que detém o comando do mais poderoso arsenal de guerra do mundo.

Por natureza, o ser humano adora ver o valentão levando a pior. Nesse filme, o Davi Michael Moore surra o Golias Bush do princípio ao fim. E quem bate não é um grande jornal ou uma respeitada rede de TV. Quem bate é um senhor gordo, feio, malvestido, com o cabelo engordurado e a barba deselegante, o senhor Michael Moore, o homem da rua, o cidadão comum que saiu de uma família de operários, o proletário simbólico. Sua arma na guerra contra Bush é apenas uma câmera de cinema. A câmera funciona como uma bomba atômica.

 
 
 
 
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