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Memória
Ele decifrou o código
da vida
Morre Francis
Crick, que descobriu a estrutura do DNA e revolucionou a ciência
do século XX

Okky de Souza
AP
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| Francis Crick: ele foi tão importante quanto
Darwin ou Einstein |
Nem todas
as revoluções são anunciadas da mesma maneira.
"Proletários de todo o mundo, uni-vos!", conclamavam os bolcheviques
na Rússia em 1917. "Quando, no curso dos acontecimentos,
se torna necessário a um povo romper com os laços
políticos que o ligam a outro...", começava a Declaração
de Independência americana, em 1776. "Gostaríamos de
sugerir uma estrutura para a molécula do ácido desoxirribonucléico
(DNA), com novidades que são de considerável interesse
para a biologia", escreveu o cientista britânico Francis Crick
em 1953, num artigo para a revista Nature. Embora quase humilde,
essa introdução anunciava uma das mais notáveis
revoluções científicas do século XX.
As observações e conclusões que vinham a seguir
no texto de Crick eram o primeiro passo para sua descoberta da estrutura
do DNA, o código genético da vida, que determina as
características de todas as espécies e, dentro delas,
de cada um dos seres. As idéias de Crick, elaboradas com
a ajuda de um colega, o americano James Watson, fundaram a biologia
molecular e a hoje chamada engenharia genética. Por suas
descobertas, a dupla ganhou o Prêmio Nobel em 1962
a eles juntou-se ainda o neozelandês Maurice Wilkins, cujo
trabalho com raio X de moléculas ofereceu evidências
cruciais para que a estrutura do DNA pudesse ser desvendada.
Francis
Crick morreu na quarta-feira passada, aos 88 anos, num hospital
de San Diego, na Califórnia, onde morava. Há tempos
travava uma batalha com um câncer de cólon. Ao comentar
a morte, a comunidade científica internacional foi unânime
em avaliar que sua contribuição foi tão importante
para a biologia quanto a de Charles Darwin, e equivalente à
de Albert Einstein para a física. Por meio de suas pesquisas,
pela primeira vez a própria natureza da vida pôde ser
explicada à luz dos fenômenos físicos e químicos.
Na prática, elas abriram caminho para que hoje se possam
fazer testes de DNA que comprovam parentescos ou capturam criminosos,
tornaram possíveis as clonagens de seres vivos, como no caso
da ovelha Dolly, e a produção de alimentos geneticamente
modificados os transgênicos. "As descobertas de Crick
e Watson mudaram todos os paradigmas da biologia até
então ninguém de nós sequer sabia o que era
um gene", comenta o professor Paul Berg, da Universidade Stanford,
ele próprio vencedor de um Prêmio Nobel.
Reuters
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Bia Parreiras
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| A ovelha Dolly e a pesquisadora
do Projeto Genoma: Crick tornou tudo isso possível |
Crick e
Watson trabalharam sempre juntos durante o longo processo que os
levou a decifrar a estrutura da molécula do DNA, mas sabe-se
que o primeiro era o cérebro por trás das descobertas.
Crick era dono de uma personalidade forte e envolvente, de um apetite
interminável por conhecimento e de um raro talento para estabelecer
parcerias produtivas no meio científico. O historiador Horace
Freeland Judson, em seu livro O Oitavo Dia da Criação,
o define da seguinte forma: "Através da inteligência
e da sagacidade, do charme pessoal e da fina ironia, ele coordenou
as pesquisas de muitos outros biólogos, ordenou seus raciocínios,
julgou suas discordâncias e os iluminou". Muitas vezes ele
também enfureceu colegas de inveja ao explicar-lhes
por que suas teorias estavam equivocadas ou qual era o verdadeiro
significado dos dados que eles tinham em mãos.
Seu jeito
exuberante e suas risadas, digamos, pouco britânicas também
se tornaram lendárias no meio acadêmico. O diretor
do laboratório da Universidade de Cambridge, onde ele desenvolveu
suas pesquisas moleculares, freqüentemente era obrigado a se
retirar do local por não conseguir trabalhar sob a algazarra
causada pelo entusiasmo de Crick. Seu parceiro Watson conta que,
no dia em que eles chegaram à sua descoberta principal, a
"dupla hélice" que representa a estrutura do DNA, Crick correu
para o pub onde ambos costumavam almoçar e gritou para os
presentes que havia descoberto "o segredo da vida". A platéia,
evidentemente, achou que ele exagerara na cerveja. Depois, ao chegar
em casa, repetiu o discurso para a esposa, a pintora Odile, que
mais tarde comentaria o episódio: "Nem dei bola, porque ele
vivia chegando em casa e dizendo coisas desse tipo".
Em meados
dos anos 60, já tendo aperfeiçoado sua teoria em vários
aspectos, Crick resolveu dedicar-se a outro campo da biologia. Passou
a pesquisar como um organismo completo pode se desenvolver a partir
de um ovo ou óvulo fertilizado. Em 1977, mudou-se
para a Califórnia e novamente reorientou suas pesquisas
desta vez para estudar a natureza da consciência. Já
com mais de 70 anos, tinha poucas expectativas de conquistar grandes
avanços na nova área que escolhera, mas isso não
importava. "Na fase da vida em que estou, tenho o direito de fazer
as coisas só por diversão", escreveu na época.
Hoje, com o genoma humano já decifrado (o DNA é composto
de 3 bilhões de bases químicas, que codificam todas
as informações biológicas necessárias
para gerar e manter uma pessoa), as descobertas de Crick apontam
para horizontes ainda mais fantásticos. Já é
possível até imaginar medicamentos personalizados,
de acordo com o código genético de cada um.
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