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Entrevista: Yoram Yovell
Nem Freud explica
Psicanalista que trata de árabes e judeus
diz que todos se odeiam e vivem em trauma,
mas se acostumaram com a violência

Diogo Schelp
O paciente mais complicado e assíduo
do psicanalista israelense Yoram Yovell, de 45 anos, é o
conflito entre árabes e judeus. Os traumas causados pelas
tensões entre os dois povos permeiam praticamente todas as
sessões de terapia em seu consultório, nas proximidades
de Jerusalém, onde buscam tratamento tanto pacientes judeus
quanto árabes-israelenses. Yovell conta sua experiência
no tratamento de vítimas da guerra, da anexação,
da ameaça terrorista cotidiana, do trauma do holocausto e
de angústias humanas mais comezinhas no livro Mindstorm
(Tempestade Cerebral). Médico, com Ph.D. em neurobiologia,
Yovell é formado em psiquiatria e psicanálise pela
Universidade Colúmbia, de Nova York, onde trabalhou com o
vencedor do Prêmio Nobel de Medicina Eric Kandel. Nesta entrevista,
Yovell fala sobre a relação tensa com os pacientes
palestinos, que o vêem ao mesmo tempo como médico e
inimigo, e desvenda um pouco dos fascinantes meandros da mente humana,
na paz ou na guerra.
Veja Quando o senhor conversa
com os pacientes, percebe um ódio generalizado contra o lado
oposto do conflito?
Yovell Totalmente. Israelenses e palestinos têm
muita raiva uns dos outros. Há muita hostilidade. Quase não
há exceções. Entre meus pacientes, percebo
que aqueles que são mais autoconfiantes, que se sentem mais
confortáveis com a própria existência, tendem
a ser menos coléricos. É difícil não
ter raiva. Nos últimos quatro anos esse conflito exigiu muito
das pessoas. Entre os israelenses, todos conhecem alguém
que foi morto ou ferido. Alguns de meus melhores amigos foram vítimas
de ataques terroristas. No lado palestino é ainda pior. Eles
sofreram muito mais baixas. Praticamente todos tiveram algum membro
de sua família morto ou ferido pelos israelenses. Isso torna
tudo muito pessoal. Cada vez mais o conflito toma conta da sala
de terapia. É trágico. Israelenses e palestinos estão
muito traumatizados.
Veja Como é ter pacientes
árabes sendo judeu?
Yovell É sempre difícil manter o conflito
fora da sala. Em uma situação em que o psicanalista
e o paciente pertencem a grupos étnicos que estão
em guerra, é quase impossível controlar as emoções.
Certa vez uma paciente palestina começou a me contar sobre
o que lembrava dos atentados de 11 de setembro em Nova York. Ela
falou que quando viu as torres gêmeas desabando ficou tão
feliz que gritava de alegria. Eu fiz uma cara de espanto e ela me
disse: "Por que você está olhando desse jeito? Você
não entende? Vocês e os americanos nos oprimem, não
há nada que podemos fazer a respeito, mas finalmente retribuímos
com o que vocês mereciam. Agora vocês entendem como
é estar no nosso lugar".
Veja Ela disse isso para
provocá-lo?
Yovell É mais do que isso. É comum que
o paciente odeie o psicanalista um pouco e vice-versa. No caso dos
meus clientes árabes, o ódio é a regra. Tive
um paciente palestino que tinha muita raiva de mim. Era como se
a sala de terapia não tivesse paredes e o conflito entrasse
nela. Ele me dizia que eu era incompetente, que eu era como todos
os outros israelenses, que tentam matar um palestino e acabam atingindo
centenas de inocentes. Ele fazia faculdade de psicologia e os colegas
eram judeus. Um dia convidou uma colega para sair. Acontece que
em Israel é muito raro uma garota judia sair com um árabe.
Ela deu um fora nele. Eu disse a ele que não devia tomar
isso como algo pessoal, porque o motivo que fez com que ela recusasse
o seu convite talvez tivesse a ver apenas com o fato de ele ser
árabe. "Você tem noção do que está
me dizendo?", ele me disse. "Para não levar isso para o lado
pessoal? De manhã, enquanto você tomava café,
eu fui ofendido umas três vezes antes de chegar aqui, por
ser árabe." E em seguida começou a fazer acusações:
que os israelenses não vacilam em atirar neles, em matá-los
a sangue-frio, em expulsá-los à força dos lugares
e assim por diante.
Veja Como o senhor resolveu
essa situação?
Yovell Aos poucos eu comecei a ter ódio dele
também, de tanto que ele me odiava. Nós dois estávamos
em guerra. Em certo ponto eu falei que era melhor ele procurar um
psicoterapeuta árabe ou europeu. Quando eu disse isso, ele
quase entrou em pânico. Ele não queria ser recusado
pelo inimigo. E novamente recorreu ao conflito entre os dois povos
para me acusar. "Você quer me expulsar como os judeus nos
expulsaram em 1948 (quando da criação do Estado
de Israel)", ele dizia.
Veja Por que um palestino
busca tratamento com um psicanalista judeu?
Yovell Há várias razões. A primeira
é que a sociedade palestina é muito tradicional. Pessoas
que têm problemas fora das normas sociais de sua comunidade
não querem passar pelo crivo de seus pares. Tive uma paciente
palestina que estava tendo um caso com um homem com quem não
era casada. Na sociedade árabe tradicional, isso faria dela
uma prostituta. A família poderia tentar matá-la se
descobrisse. Ela achava que se fosse a um terapeuta árabe
ele iria julgá-la segundo essa ótica tradicional.
A outra razão é psicologicamente mais complexa. Muitos
dos pacientes palestinos que tive viveram uma relação
de dominação e submissão com os pais na infância.
Ao procurarem um psicanalista que é do povo inimigo, eles
podem estar tentando repetir de alguma maneira essa relação.
Veja O fato de o senhor ter
pacientes palestinos ao menos indica que ainda resiste alguma convivência
entre árabes e israelenses.
Yovell Eu ainda tenho amigos árabes, além
de pacientes, e não acredito que esse conflito seja justificativa
para odiar as pessoas de maneira indiscriminada. Só o que
se mostra no noticiário são os lugares de Israel onde
judeus e árabes não podem conviver. Mas a coexistência
pacífica entre os dois povos ainda existe. Prova disso é
que há árabes que me confiam seus segredos. Sob o
ponto de vista deles, estão fazendo algo radical, estão
confiando no inimigo. Antes de estudar psicanálise e psiquiatria,
eu servi no Exército, como todo israelense. Os palestinos
que vêm fazer tratamento comigo sabem muito bem que fui militar
e lutei contra os seus irmãos na guerra do Líbano.
Ainda assim eles confiam em mim.
Veja Se um paciente árabe
lhe contasse sobre os planos de um atentado, o que o senhor faria?
Yovell Já passei por uma situação
semelhante. Uma de minhas pacientes palestinas começou a
me falar de seus amigos e suas atividades políticas. De repente
ela parou e perguntou: "Como vou saber se você não
é da shabak, a polícia secreta israelense?
Seria um ótimo disfarce para vocês". Eu respondi com
outra pergunta: "Vamos imaginar que você me contasse que sabe
de alguém que pretende cometer um ataque suicida. O que acha
que eu iria fazer?" E ela disse: "Você contaria para as autoridades
israelenses e estaria totalmente correto, mas não quero que
conte nada sobre as atividades políticas de meus amigos".
Eu respondi que então ela teria de fazer algo muito difícil:
confiar em mim. O sigilo na terapia é muito importante, mas
a vida humana é mais.
Veja O que se passa na cabeça
de um homem-bomba?
Yovell Às vezes, quando a bomba não
explode ou a pessoa muda de idéia no último momento,
é possível conversar com esses terroristas para tentar
entendê-los. Muitos eram marginalizados em sua própria
sociedade: uma jovem que é mãe solteira ou um rapaz
que é tão pobre que não é capaz de bancar
um casamento. Essas pessoas querem conquistar o respeito de sua
gente e acham que o martírio é um caminho. A outra
motivação é a vingança. Muitas vezes,
perderam no conflito um grande número de parentes e amigos.
Para vingar o sangue dos seus, esses homens-bomba resolvem matar
tantos israelenses quanto puderem.
Veja O primeiro julgamento
que se faz é que são loucos fanáticos.
Yovell É mais complexo do que isso. Até
a situação econômica desses suicidas influi.
São homens e mulheres que não vêem chance para
si mesmos. Eles não vão morrer de fome, não
é isso. Eles não vêem chance de estudar em boas
escolas, de ter um emprego, de morar em uma boa casa. E aí
vem alguém e começa a falar de como será melhor
no outro mundo, de como eles podem ganhar respeito, aceitação
e amor dos seus fazendo o martírio. E, cada vez que a mídia
mostra um ataque suicida, aumenta o número de pessoas dispostas
a se explodirem.
Veja O senhor conversa sobre
religião com seus pacientes?
Yovell Sim. Pessoas que têm crença religiosa
firme têm mais facilidade de resolver problemas psicológicos.
Por outro lado, se alguém acredita que terá 72 virgens
no céu, como no caso dos homens-bomba palestinos, perderá
o medo de morrer. Por isso seria importante, tanto entre os palestinos
como entre os israelenses, que se começasse a enfatizar as
partes das religiões que ensinam compaixão e respeito
pela vida, em vez de valores como a glorificação da
morte. Eu falo sobre esses assuntos religiosos na terapia, mas nunca
tento convencer ninguém a entrar ou sair de uma religião.
Veja O que as pessoas devem
fazer para não deixar que o medo da violência se transforme
em paranóia?
Yovell Em uma situação em que a violência
é fruto da criminalidade, como no Brasil, ou resultado de
conflito entre povos diferentes, como em Israel, os procedimentos
para evitar que o medo atrapalhe nossa vida são os mesmos.
Em primeiro lugar, você deve fazer tudo o que estiver ao seu
alcance para se preparar contra o perigo, sem esquecer que tudo
o que fizer não lhe dará segurança total. Quem
acredita em segurança absoluta tem um problema psicológico
e precisa ser tratado. Viver é perigoso. Em segundo lugar,
é preciso se esforçar para viver como sempre viveu.
É preciso aprender a levar uma vida plena, mesmo sob a sombra
do perigo.
Veja Não é difícil
colocar isso em prática?
Yovell Não é difícil. Se as pessoas
pensarem sobre o que as deixa com medo, vão perceber que
às vezes penam pelos motivos errados. A probabilidade de
morrer de acidente de carro em Israel é maior que a de morrer
em um ataque terrorista. Mas as pessoas aqui têm muito menos
medo de morrer em um acidente de trânsito do que na explosão
de um homem-bomba. É importante dizer isso para lembrar que,
do ponto de vista filosófico, todos nós estamos esperando
a morte. A pergunta que devemos nos fazer é como queremos
viver, e não como vamos morrer. Por isso, não se pode
deixar o medo dirigir nossa vida.
Veja É fácil
se acostumar com a violência?
Yovell Quando alguém convive com uma situação
que não consegue controlar, talvez seja melhor não
ficar pensando nela o tempo todo. Em Israel você vê
as pessoas indo ao cinema, ao shopping center e andando de ônibus
como se nada pudesse acontecer. Como se fosse improvável
que a qualquer momento alguém carregado de bombas pudesse
tentar se explodir em um desses lugares. Compare isso com os Estados
Unidos. Há dois anos, um franco-atirador matou dez pessoas
aleatoriamente, em Washington. Toda a cidade entrou em pânico.
As pessoas tinham medo de ir à escola, ao trabalho. Todos
temiam o franco-atirador. Se isso tivesse acontecido em um lugar
como Israel, não teria havido tanta comoção.
Veja Como o senhor lida com
o cotidiano violento do país?
Yovell Eu vivo com minha mulher e meus dois filhos
em uma cidadezinha que não fica muito longe da linha verde
(que separa Israel da Cisjordânia). Fica a apenas 5
quilômetros de uma aldeia árabe. Eu jamais me arriscaria
em caminhar por lá. Sei que, se alguém de lá
quisesse fazer mal à minha família, teria de andar
apenas uma hora para chegar à minha casa. Por isso, eu provavelmente
sou um dos poucos psicanalistas do mundo que andam por aí
armados. É uma precaução necessária.
Eu não vou ser o primeiro a atirar, mas, se for preciso,
atiro. Garanto que sei usar a arma muito bem. Fora isso, vivemos
a vida dentro de uma rotina, procurando manter uma certa normalidade:
quando vou a um cinema ou a um shopping, os seguranças revistam
minha mochila e não reclamo.
Veja Como as pessoas que enfrentaram
o holocausto lidam com a questão do terrorismo em Israel?
Yovell A relação entre a ameaça
terrorista e o holocausto foi subestimada pelos palestinos. O holocausto
incutiu no povo judeu uma mensagem muito clara: se vocês não
forem fortes, se não se defenderem, vão desaparecer.
A propaganda árabe diz que é preciso se livrar dos
judeus. Em situações em que as pessoas percebem que
sua segurança está ameaçada, é difícil
convencê-las a ser generosas. Isso é usado pelo governo
conservador de Israel para endurecer com os palestinos.
Veja Como israelenses e palestinos
resistem tanto tempo ao conflito?
Yovell Os laços familiares nas duas sociedades
são fortes, dão um suporte social muito grande. As
pessoas não estão sozinhas, como acontece muito nos
Estados Unidos ou na Europa. Isso dá força a ambos
os povos. Esse sentimento de união se estende à sociedade
como um todo. Os israelenses acreditam que esse é o seu país,
que essa é uma luta para toda a sua vida. O mesmo vale para
os palestinos.
Veja O senhor acredita no
fim do conflito?
Yovell Sou otimista. Alguns psicólogos usam
o modelo do distúrbio pós-traumático para descrever
o que acontece entre palestinos e israelenses hoje. Isso é
incorreto. Vivemos um momento traumático, não pós-traumático.
O modelo do pós-trauma considera que o evento doloroso aconteceu
em algum instante no passado e só depois o paciente se trata
para se livrar de suas conseqüências. O que vivemos aqui
é uma situação em que o trauma ainda está
acontecendo. Por isso, a reconciliação e a superação
dos ódios mútuos só poderão ser conseguidas
depois que a violência acabar ou quando houver uma separação
real entre as duas sociedades.
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