Edição 1865 . 4 de agosto de 2004

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Entrevista: Yoram Yovell
Nem Freud explica

Psicanalista que trata de árabes e judeus
diz que todos se odeiam e vivem em trauma,
mas se acostumaram com a violência


Diogo Schelp

O paciente mais complicado e assíduo do psicanalista israelense Yoram Yovell, de 45 anos, é o conflito entre árabes e judeus. Os traumas causados pelas tensões entre os dois povos permeiam praticamente todas as sessões de terapia em seu consultório, nas proximidades de Jerusalém, onde buscam tratamento tanto pacientes judeus quanto árabes-israelenses. Yovell conta sua experiência no tratamento de vítimas da guerra, da anexação, da ameaça terrorista cotidiana, do trauma do holocausto e de angústias humanas mais comezinhas no livro Mindstorm (Tempestade Cerebral). Médico, com Ph.D. em neurobiologia, Yovell é formado em psiquiatria e psicanálise pela Universidade Colúmbia, de Nova York, onde trabalhou com o vencedor do Prêmio Nobel de Medicina Eric Kandel. Nesta entrevista, Yovell fala sobre a relação tensa com os pacientes palestinos, que o vêem ao mesmo tempo como médico e inimigo, e desvenda um pouco dos fascinantes meandros da mente humana, na paz ou na guerra.

Veja – Quando o senhor conversa com os pacientes, percebe um ódio generalizado contra o lado oposto do conflito?
Yovell – Totalmente. Israelenses e palestinos têm muita raiva uns dos outros. Há muita hostilidade. Quase não há exceções. Entre meus pacientes, percebo que aqueles que são mais autoconfiantes, que se sentem mais confortáveis com a própria existência, tendem a ser menos coléricos. É difícil não ter raiva. Nos últimos quatro anos esse conflito exigiu muito das pessoas. Entre os israelenses, todos conhecem alguém que foi morto ou ferido. Alguns de meus melhores amigos foram vítimas de ataques terroristas. No lado palestino é ainda pior. Eles sofreram muito mais baixas. Praticamente todos tiveram algum membro de sua família morto ou ferido pelos israelenses. Isso torna tudo muito pessoal. Cada vez mais o conflito toma conta da sala de terapia. É trágico. Israelenses e palestinos estão muito traumatizados.

Veja – Como é ter pacientes árabes sendo judeu?
Yovell – É sempre difícil manter o conflito fora da sala. Em uma situação em que o psicanalista e o paciente pertencem a grupos étnicos que estão em guerra, é quase impossível controlar as emoções. Certa vez uma paciente palestina começou a me contar sobre o que lembrava dos atentados de 11 de setembro em Nova York. Ela falou que quando viu as torres gêmeas desabando ficou tão feliz que gritava de alegria. Eu fiz uma cara de espanto e ela me disse: "Por que você está olhando desse jeito? Você não entende? Vocês e os americanos nos oprimem, não há nada que podemos fazer a respeito, mas finalmente retribuímos com o que vocês mereciam. Agora vocês entendem como é estar no nosso lugar".

Veja – Ela disse isso para provocá-lo?
Yovell – É mais do que isso. É comum que o paciente odeie o psicanalista um pouco e vice-versa. No caso dos meus clientes árabes, o ódio é a regra. Tive um paciente palestino que tinha muita raiva de mim. Era como se a sala de terapia não tivesse paredes e o conflito entrasse nela. Ele me dizia que eu era incompetente, que eu era como todos os outros israelenses, que tentam matar um palestino e acabam atingindo centenas de inocentes. Ele fazia faculdade de psicologia e os colegas eram judeus. Um dia convidou uma colega para sair. Acontece que em Israel é muito raro uma garota judia sair com um árabe. Ela deu um fora nele. Eu disse a ele que não devia tomar isso como algo pessoal, porque o motivo que fez com que ela recusasse o seu convite talvez tivesse a ver apenas com o fato de ele ser árabe. "Você tem noção do que está me dizendo?", ele me disse. "Para não levar isso para o lado pessoal? De manhã, enquanto você tomava café, eu fui ofendido umas três vezes antes de chegar aqui, por ser árabe." E em seguida começou a fazer acusações: que os israelenses não vacilam em atirar neles, em matá-los a sangue-frio, em expulsá-los à força dos lugares e assim por diante.

Veja – Como o senhor resolveu essa situação?
Yovell – Aos poucos eu comecei a ter ódio dele também, de tanto que ele me odiava. Nós dois estávamos em guerra. Em certo ponto eu falei que era melhor ele procurar um psicoterapeuta árabe ou europeu. Quando eu disse isso, ele quase entrou em pânico. Ele não queria ser recusado pelo inimigo. E novamente recorreu ao conflito entre os dois povos para me acusar. "Você quer me expulsar como os judeus nos expulsaram em 1948 (quando da criação do Estado de Israel)", ele dizia.

Veja – Por que um palestino busca tratamento com um psicanalista judeu?
Yovell – Há várias razões. A primeira é que a sociedade palestina é muito tradicional. Pessoas que têm problemas fora das normas sociais de sua comunidade não querem passar pelo crivo de seus pares. Tive uma paciente palestina que estava tendo um caso com um homem com quem não era casada. Na sociedade árabe tradicional, isso faria dela uma prostituta. A família poderia tentar matá-la se descobrisse. Ela achava que se fosse a um terapeuta árabe ele iria julgá-la segundo essa ótica tradicional. A outra razão é psicologicamente mais complexa. Muitos dos pacientes palestinos que tive viveram uma relação de dominação e submissão com os pais na infância. Ao procurarem um psicanalista que é do povo inimigo, eles podem estar tentando repetir de alguma maneira essa relação.

Veja – O fato de o senhor ter pacientes palestinos ao menos indica que ainda resiste alguma convivência entre árabes e israelenses.
Yovell – Eu ainda tenho amigos árabes, além de pacientes, e não acredito que esse conflito seja justificativa para odiar as pessoas de maneira indiscriminada. Só o que se mostra no noticiário são os lugares de Israel onde judeus e árabes não podem conviver. Mas a coexistência pacífica entre os dois povos ainda existe. Prova disso é que há árabes que me confiam seus segredos. Sob o ponto de vista deles, estão fazendo algo radical, estão confiando no inimigo. Antes de estudar psicanálise e psiquiatria, eu servi no Exército, como todo israelense. Os palestinos que vêm fazer tratamento comigo sabem muito bem que fui militar e lutei contra os seus irmãos na guerra do Líbano. Ainda assim eles confiam em mim.

Veja – Se um paciente árabe lhe contasse sobre os planos de um atentado, o que o senhor faria?
Yovell – Já passei por uma situação semelhante. Uma de minhas pacientes palestinas começou a me falar de seus amigos e suas atividades políticas. De repente ela parou e perguntou: "Como vou saber se você não é da shabak, a polícia secreta israelense? Seria um ótimo disfarce para vocês". Eu respondi com outra pergunta: "Vamos imaginar que você me contasse que sabe de alguém que pretende cometer um ataque suicida. O que acha que eu iria fazer?" E ela disse: "Você contaria para as autoridades israelenses e estaria totalmente correto, mas não quero que conte nada sobre as atividades políticas de meus amigos". Eu respondi que então ela teria de fazer algo muito difícil: confiar em mim. O sigilo na terapia é muito importante, mas a vida humana é mais.

Veja – O que se passa na cabeça de um homem-bomba?
Yovell – Às vezes, quando a bomba não explode ou a pessoa muda de idéia no último momento, é possível conversar com esses terroristas para tentar entendê-los. Muitos eram marginalizados em sua própria sociedade: uma jovem que é mãe solteira ou um rapaz que é tão pobre que não é capaz de bancar um casamento. Essas pessoas querem conquistar o respeito de sua gente e acham que o martírio é um caminho. A outra motivação é a vingança. Muitas vezes, perderam no conflito um grande número de parentes e amigos. Para vingar o sangue dos seus, esses homens-bomba resolvem matar tantos israelenses quanto puderem.

Veja – O primeiro julgamento que se faz é que são loucos fanáticos.
Yovell – É mais complexo do que isso. Até a situação econômica desses suicidas influi. São homens e mulheres que não vêem chance para si mesmos. Eles não vão morrer de fome, não é isso. Eles não vêem chance de estudar em boas escolas, de ter um emprego, de morar em uma boa casa. E aí vem alguém e começa a falar de como será melhor no outro mundo, de como eles podem ganhar respeito, aceitação e amor dos seus fazendo o martírio. E, cada vez que a mídia mostra um ataque suicida, aumenta o número de pessoas dispostas a se explodirem.

Veja – O senhor conversa sobre religião com seus pacientes?
Yovell – Sim. Pessoas que têm crença religiosa firme têm mais facilidade de resolver problemas psicológicos. Por outro lado, se alguém acredita que terá 72 virgens no céu, como no caso dos homens-bomba palestinos, perderá o medo de morrer. Por isso seria importante, tanto entre os palestinos como entre os israelenses, que se começasse a enfatizar as partes das religiões que ensinam compaixão e respeito pela vida, em vez de valores como a glorificação da morte. Eu falo sobre esses assuntos religiosos na terapia, mas nunca tento convencer ninguém a entrar ou sair de uma religião.

Veja – O que as pessoas devem fazer para não deixar que o medo da violência se transforme em paranóia?
Yovell – Em uma situação em que a violência é fruto da criminalidade, como no Brasil, ou resultado de conflito entre povos diferentes, como em Israel, os procedimentos para evitar que o medo atrapalhe nossa vida são os mesmos. Em primeiro lugar, você deve fazer tudo o que estiver ao seu alcance para se preparar contra o perigo, sem esquecer que tudo o que fizer não lhe dará segurança total. Quem acredita em segurança absoluta tem um problema psicológico e precisa ser tratado. Viver é perigoso. Em segundo lugar, é preciso se esforçar para viver como sempre viveu. É preciso aprender a levar uma vida plena, mesmo sob a sombra do perigo.

Veja – Não é difícil colocar isso em prática?
Yovell – Não é difícil. Se as pessoas pensarem sobre o que as deixa com medo, vão perceber que às vezes penam pelos motivos errados. A probabilidade de morrer de acidente de carro em Israel é maior que a de morrer em um ataque terrorista. Mas as pessoas aqui têm muito menos medo de morrer em um acidente de trânsito do que na explosão de um homem-bomba. É importante dizer isso para lembrar que, do ponto de vista filosófico, todos nós estamos esperando a morte. A pergunta que devemos nos fazer é como queremos viver, e não como vamos morrer. Por isso, não se pode deixar o medo dirigir nossa vida.

Veja – É fácil se acostumar com a violência?
Yovell – Quando alguém convive com uma situação que não consegue controlar, talvez seja melhor não ficar pensando nela o tempo todo. Em Israel você vê as pessoas indo ao cinema, ao shopping center e andando de ônibus como se nada pudesse acontecer. Como se fosse improvável que a qualquer momento alguém carregado de bombas pudesse tentar se explodir em um desses lugares. Compare isso com os Estados Unidos. Há dois anos, um franco-atirador matou dez pessoas aleatoriamente, em Washington. Toda a cidade entrou em pânico. As pessoas tinham medo de ir à escola, ao trabalho. Todos temiam o franco-atirador. Se isso tivesse acontecido em um lugar como Israel, não teria havido tanta comoção.

Veja – Como o senhor lida com o cotidiano violento do país?
Yovell – Eu vivo com minha mulher e meus dois filhos em uma cidadezinha que não fica muito longe da linha verde (que separa Israel da Cisjordânia). Fica a apenas 5 quilômetros de uma aldeia árabe. Eu jamais me arriscaria em caminhar por lá. Sei que, se alguém de lá quisesse fazer mal à minha família, teria de andar apenas uma hora para chegar à minha casa. Por isso, eu provavelmente sou um dos poucos psicanalistas do mundo que andam por aí armados. É uma precaução necessária. Eu não vou ser o primeiro a atirar, mas, se for preciso, atiro. Garanto que sei usar a arma muito bem. Fora isso, vivemos a vida dentro de uma rotina, procurando manter uma certa normalidade: quando vou a um cinema ou a um shopping, os seguranças revistam minha mochila e não reclamo.

Veja – Como as pessoas que enfrentaram o holocausto lidam com a questão do terrorismo em Israel?
Yovell – A relação entre a ameaça terrorista e o holocausto foi subestimada pelos palestinos. O holocausto incutiu no povo judeu uma mensagem muito clara: se vocês não forem fortes, se não se defenderem, vão desaparecer. A propaganda árabe diz que é preciso se livrar dos judeus. Em situações em que as pessoas percebem que sua segurança está ameaçada, é difícil convencê-las a ser generosas. Isso é usado pelo governo conservador de Israel para endurecer com os palestinos.

Veja – Como israelenses e palestinos resistem tanto tempo ao conflito?
Yovell – Os laços familiares nas duas sociedades são fortes, dão um suporte social muito grande. As pessoas não estão sozinhas, como acontece muito nos Estados Unidos ou na Europa. Isso dá força a ambos os povos. Esse sentimento de união se estende à sociedade como um todo. Os israelenses acreditam que esse é o seu país, que essa é uma luta para toda a sua vida. O mesmo vale para os palestinos.

Veja – O senhor acredita no fim do conflito?
Yovell – Sou otimista. Alguns psicólogos usam o modelo do distúrbio pós-traumático para descrever o que acontece entre palestinos e israelenses hoje. Isso é incorreto. Vivemos um momento traumático, não pós-traumático. O modelo do pós-trauma considera que o evento doloroso aconteceu em algum instante no passado e só depois o paciente se trata para se livrar de suas conseqüências. O que vivemos aqui é uma situação em que o trauma ainda está acontecendo. Por isso, a reconciliação e a superação dos ódios mútuos só poderão ser conseguidas depois que a violência acabar ou quando houver uma separação real entre as duas sociedades.

 
 
 
 
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