"Achei que em
Pasárgada eu correria menos
risco de me tornar descrente. Eu, que detesto
o ceticismo, agora tenho medo de me contagiar"
Ilustração
Atômica Studio
Eu já estava de malas prontas: ia pra Pasárgada
(para quem não se recorda, é o reino feliz inventado
por Manuel, o Bandeira; para quem não sabe, ele foi
um poeta maravilhoso). Queria escapar deste reino das frases
infelizes e atitudes grotescas, dos reis feios e nus, das
explicações cabotinas, da falta de providências
e de autoridade, da euforia apoteótica de um lado e
da realidade tão diferente de outro.
Pasárgada
podia ser um bom lugar, onde se acredita nas instituições
e nos líderes, onde vale a pena ser honrado e os malfeitores
vão direto para a cadeia, onde se tomam providências
antes que tudo desabe. Lá, ao contrário daqui
em que a manada se divide entre os ingênuos,
os que sabem das coisas mas se conformam e os aproveitadores
, autoridade serve para cuidar do bem do povo, decoro
é simplesmente decência, seja em algum cargo,
seja na vida cotidiana de qualquer um.
Na minha nova pátria
eu tentaria não escrever mais sobre o que por estas
bandas tem me angustiado ou ameaça transformar-se num
tristíssimo tédio: sempre os mesmos assuntos?
Mandaria só questionamentos sobre o que faz a vida
valer a pena: as coisas humanas, como família, educação,
transformações, relacionamentos e separação,
responsabilidades e escolhas, alegria, vida e morte, incomunicabilidade
e o mistério de tudo até a dor (mas que
seja uma dor decente).
Nem problema de
transporte eu teria: para Pasárgada se viaja com o
coração e o pensamento. Ainda bem, pois de avião
seria loucura e risco. Desses meses todos me ficou inesquecível
o trabalhador humilde cochilando numa cadeira de aeroporto
que, entrevistado sobre toda a confusão, respondeu:
"A casa já caiu, o brasileiro tem de se conformar".
Ninguém faz nada? perguntam-se as pessoas, no
limite de sua capacidade de espanto. A impressão que
estávamos tendo, nós, comuns mortais, era que
resolver problemas e impor ordem importava bem menos do que
distribuir ilusões como quem distribui pirulitos. É
para rir ou para chorar? Ora rimos, ora choramos, esse é
o novo jeito brasileiro de ser.
Cresce a economia,
encolhe a respeitabilidade; pisca uma luzinha de esperança,
mas a seriedade extraviou-se. Poucos andam à sua procura.
Aumenta o isolamento dos homens e mulheres públicos
respeitáveis, que mais parecem dinossauros sobreviventes
de um tempo em que seria totalmente impensável o que
hoje é pão nosso de cada dia. Eu ia embora porque
enjoei dessa repetição obsessiva de fatos que
provocam insônia no noticioso da noite e náusea
no café-da-manhã. Ia partir sem endereço,
sem telefone, sem e-mail. Levaria comigo pássaros,
crianças e esta paisagem diante da minha janela (com
nevoeiro, porque aí é de uma beleza pungente).
Levaria família, amigos, livros, música e o
homem amado. Ah, e as minhas velhas crenças de que
não somos totalmente omissos ou sem caráter,
portanto este país ainda teria jeito, embora neste
momento eu não tenha muita fé nisso.
Achei que em Pasárgada
eu correria menos risco de me tornar descrente: eu, que detesto
o ceticismo e não vivo bem com os pessimistas, agora
tenho medo de me contagiar. Podia me livrar da suspeita de
que por trás de tudo isso existe algo muito sério,
gravíssimo, que nós, rebanho alienado, desconhecemos.
Quem sabe até terminasse o romance que venho escrevendo,
num compasso de desânimo que nada tem a ver com literatura:
nasce do meu amor por este país, ao qual dei meus filhos
e meus netos para nele crescerem.
Mas então,
entre lideranças que negavam qualquer problema, fazendo
afirmações estapafúrdias e divertindo-se
talvez com nossa agonia, soprou um vento de lucidez e autoridade
parece que as coisas se reorganizam. Botar a casa em
ordem ao menos nos aeroportos não podia ter levado
tanto tempo, pobres de nós, mas hoje não precisarei
ter medo se um de meus filhos viajar de avião. Amanhã
é um enigma (sabe se lá o que vai acontecer
no breve intervalo entre escrever esta coluna e ela ser publicada).
E assim, na última
hora, decidi ficar. Acho que me sentiria como quem deserta
de um grupo com o qual tem laços muito fortes: meus
leitores. Os que me acompanham, os que pensam diferente e
até os indignados às vezes por terem
lido algo que nem estava ali. Todos são importantes
para mim. Com eles tem sido imensamente estimulante partilhar
alegrias e preocupações, descobertas ou receios.
Afinal, somos irmãos, filhos desta mãe, que,
com decoro, firmeza e vontade, será melhor do que qualquer
Pasárgada inventada.