Ensaio:Roberto Pompeu de Toledo O Congresso Nacional
foi à falência
Para quem ainda duvida,
vai aqui breve inventário
do estado de coisas entre deputados e senadores
No 185º ano
da independência do Brasil, 183º da instalação
da Câmara dos Deputados, 183º da instalação
do Senado, 118º da República e 22º da restauração
democrática, eis como, na semana passada, se apresentava
o Congresso Nacional:
o presidente
do Senado desintegrava-se num redemoinho alimentado pelo sopro
cruzado de lobista de empreiteira, pugnaz senhora conhecida
como "gestante", papelório suspeito, bois mais inverossímeis
do que o Minotauro e bilhetes lançados ao léu
como mensagens de náufrago;
a Câmara
dos Deputados, depois de fazer a viagem de circunavegação
em torno de alternativas para o sistema de eleição
de seus membros, com escalas na lista partidária fechada
e na lista partidária flexível, com o cuidado
de passar ao largo, com medo dos escolhos, do voto distrital
puro e do voto distrital misto, voltava ao ponto de partida,
consagrando como o melhor o sistema atual, em que se vota
num candidato mas elege-se outro, empenham-se amazônicos
dinheiros nas campanhas, não se faz campanha na TV
porque nela não cabem todos os milhares de candidatos,
e ao comum dos eleitores não se oferece saída
senão votar às tontas e no dia seguinte não
lembrar em quem votou;
o Conselho
de Ética do Senado insistia na trama cujo desfecho
ideal seria fingir que julga o presidente da Casa e logo absolvê-lo,
cujo plano B é arrumar um jeito de mandar o processo
para as calendas do Judiciário, cujo plano C é
tanto protelar e refugar e remanchar que o assunto venha a
ser esquecido, e cuja direção a evitar a todo
custo é proceder a um julgamento honesto, com exame
de documentos, oitiva de testemunhas e julgadores isentos;
na Câmara,
o deputado Mário de Oliveira (PSC-MG) era acusado de
tentar matar o deputado Carlos Willian (PTC-MG), ambos piedosos
pastores da mesma denominação evangélica;
o senador
Joaquim Roriz (PMDB-DF), flagrado numa conversa telefônica
em que combina com o interlocutor o melhor lugar para a entrega
de 2,2 milhões de reais, explicava que pediu emprestados
300.000 reais para pagar um boi, mas que podia ele
fazer? o amigo só tinha 2,2 milhões para
emprestar.
A esses fatores
conjunturais juntam-se outros, mais permanentes, como:
desapareceram
do Congresso lideranças e partidos capazes de encaminhar
as discussões, construir maiorias, conferir coerência
e ordem aos trabalhos. Em face do ambiente caótico
e da algaravia paralisante, começa a configurar-se
como tendência a opção dos congressistas
por abrir mão de suas responsabilidades e empurrar
as questões para os plebiscitos. Foi assim quando não
se conseguiu chegar a uma conclusão sobre a proibição
das armas. E era para o mesmo rumo que se encaminhava, na
semana passada, depois da derrota dos projetos sobre o sistema
de eleição dos deputados. (Opinião
deste autor: o povo tem mais que fazer do que esquentar a
cabeça com voto distrital, voto proporcional, distrital
misto, lista fechada);
o Senado
apresenta-se corroído pelo caruncho do "suplente".
O "suplente" é um fantasma concebido para o eleitor
não se dar conta de que votou nele. Obtém o
mandato não com votos, mas, freqüentemente, pelo
instituto comercial da venda e compra: financia a campanha
do cabeça de chapa e obtém em troca o exercício
do mandato quando o titular se ausenta. Uma dúzia de
suplentes encontra-se hoje no exercício do cargo no
Senado. Alguns deles estão na linha de frente na laboriosa
tentativa de fazer evaporar o caso Renan Calheiros;
continua
a ter trânsito franco no Congresso a figura dos malabaristas
doutrinários, capazes de amanhecer num partido e anoitecer
em outro. O senador escolhido na semana passada para presidir
o Conselho de Ética, Leomar Quintanilha (PMDB-TO),
é um campeão nesse quesito. Acrobata de tirar
o fôlego, iniciou carreira na Arena, o partido da ditadura
militar, para a uma certa altura descobrir-se comunista e
ingressar no PCdoB. Isso depois de passar pelo PDC, pelo PFL
e pelo PMDB e antes de retornar ao PMDB;
o Congresso,
graças ao entendimento amplo que empresta ao instituto
da imunidade parlamentar, continua o melhor homizio disponível
para quem enfrenta problemas com a lei. Para citar um caso,
porventura o mais eloqüente, o deputado Paulo Maluf (PP-SP)
não pode pisar nos Estados Unidos, onde pesa ordem
de prisão contra sua pessoa. Arrisca-se, se pisar em
outros países, a ser detido pela Interpol. No Brasil,
graças a uma legislação complacente e
a uma Justiça generosa em protelações,
movimenta-se à vontade. Ainda mais que, mesmo condenado,
teria a protegê-lo o muro sagrado da imunidade parlamentar.
Diante do exposto,
o autor deste breve inventário, apenas uma pálida
seleta dos argumentos que se poderiam invocar no mesmo sentido,
cumpre o doloroso dever de informar que o Congresso Nacional
faliu.