Trata-se
de um dos mitos fundadores da civilização: um
jovem é separado dos seus e tem não apenas de
enfrentar o mundo sozinho, entre estranhos, como também
se provar à altura de uma tarefa gigantesca, da qual
ninguém o julga capaz. Que o jovem aqui seja um rato
do detestado gênero Rattus mesmo, e não
um menos ofensivo camundongo só acrescenta à
eloqüência de Ratatouille (Estados
Unidos, 2007), que estréia nesta sexta-feira no país.
Remy, o rato em questão, é o proverbial estranho
no ninho. Em vez de comer qualquer coisa que encontre pela
frente, como manda o instinto da espécie, ele persegue
os melhores ingredientes e sonha com combinações
de sabores. E, por ser tão diferente, vai provocar
uma crise (a qual envolve uma velha, uma espingarda e uma
escalada de ação) e levar seu clã ao
êxodo. Remy, porém, se desencontra da família
e cai na cozinha do restaurante que foi de seu ídolo,
o falecido Auguste Gusteau. Tão perto do paraíso,
e tão longe dele: ratos, ainda que de paladar apurado
e talento gastronômico incomum como Remy (que também
lava as mãos antes de tocar na comida), não
são bem-vindos em cozinhas, o que obrigará o
herói a uma existência clandestina, sob o chapéu
do recém-contratado lavador de pratos. Linguini, o
rapaz, precisa fingir que sabe cozinhar; Remy ama tanto ser
chef que está pronto a exercer a profissão
sem levar os louros por suas criações; e, depois
de um aprendizado algo acidentado, os dois passam a funcionar
como um só. Essa dupla impostura, porém, terá
de resistir às más intenções do
sous-chef que herdou o restaurante, o sinistro Skinner
(assim batizado em referência ao cientista Burrhus Frederic
Skinner, que utilizava experimentos com ratos para demonstrar
suas teorias behavioristas), e à perfídia do
crítico gastronômico Anton Ego, que perdeu o
prazer à mesa e só o encontra arrasando os estabelecimentos
que freqüenta.
Ratatouille
é o primeiro desenho feito pela Pixar desde sua compra
pela Disney e demonstra por que a produtora valeu o negócio
de astronômicos 7,4 bilhões de dólares.
A despeito das qualidades dos outros estúdios que atuam
na área, nenhum deles tem um compromisso tão
firme e profundo com a originalidade quanto a Pixar
num tempo em que isso é visto como um risco desnecessário,
quando não desaconselhável. Um levantamento
publicado há pouco pelo jornal The New York Times
revelou que, nos últimos cinco anos, apenas 20% dos
filmes que superaram os 200 milhões de dólares
na bilheteria americana partiram de uma premissa integralmente
original. Os 80% restantes constituem seqüências
ou adaptações, contra não mais do que
50% na década passada. Brigar por um projeto novo,
portanto, requer cada vez mais coragem financeira e criativa.
Foi por causa da insistência nesse tipo de valentia
que, antes de virarem uma única corporação,
as duas empresas haviam rompido de forma acrimoniosa sua parceria
de distribuição porque a Disney queria
continuações e, à exceção
de Toy Story 2, a Pixar se recusava a fazê-las.
O panorama financeiro não ficou mais fácil desde
então, já que os desenhos da Pixar não
fazem mais dinheiro, na média, do que os lançamentos
da concorrência. Mas também não fazem
menos, embora não apelem para material já testado
e aprovado. Em outras palavras: ter em mãos o maior
celeiro criativo da animação mundial significa
não apenas lucro, como também é garantia
de que se estará sempre na dianteira, ditando tendências
em vez de segui-las um negócio excelente para
a Disney, e mais ainda para o espectador.
Há de se
ter coragem, sem dúvida, para solicitar que a platéia
vença sua aversão aos ratos a ponto de torcer
para que um deles assuma o comando de uma cozinha parisiense.
Ratatouille supera esse desafio com um roteiro impecável
e com um punhado de decisões muito sensatas. Remy,
por exemplo, fala. Mas só com seus semelhantes. Em
seu trato com seres humanos, ele se exprime com uma gama épica,
do ponto de vista da animação, de gestos e expressões
o que o coloca sempre no centro emocional, por assim
dizer, de cada cena. Ele anda sobre as duas patas traseiras,
para que as dianteiras, com as quais lida na cozinha, atendam
aos padrões mínimos de higiene. Mas aí
termina sua "humanização" e seus parentes,
que a certa altura voltam à história, permanecem
roedores genuínos, sujinhos e sem modos, até
o final.
É quase
desnecessário mencionar a qualidade da animação
e da produção (que envolveu estágios
em cozinhas famosas, para os animadores, e milhares de fotos
de Paris a ser usadas como referência) ou o ponto sempre
certo do humor, já que essas são marcas registradas
até das criações não particularmente
inspiradas da Pixar, como Carros. Acima de tudo, o
que destaca Ratatouille do restante da produção
de desenhos animados é a sua ambição.
A jornada de Remy não é um mero passeio. É
uma odisséia, no sentido estrito da palavra
uma odisséia que implicará encontrar consensos
e meios-termos e até, numa cena brilhante, devolver
a Anton Ego o prazer perdido de pôr uma garfada à
boca. Ratos se esgueiram e roubam enquanto quem cozinha doa,
ponderou o diretor Brad Bird (também de Os Incríveis).
Um rato que se doa há de ter uma outra questão
de identidade para resolver, e os seres humanos que decidam
se aproximar dele terão também de vencer um
ou outro preconceito. A vida em Ratatouille, enfim,
está mais próxima do mundo complicado dos desenhos
do japonês Hayao Miyazaki, de A Viagem de Chihiro,
do que do universo controlado da Disney. Ela não é
simples para ninguém e por isso mesmo é
muito mais interessante e saborosa.