Na sua encarnação
mais recente, os filmes feitos à moda de uma coletânea
de contos parecem querer criar na platéia a sensação
de que, ao vê-los, ela estará cumprindo uma boa
ação seja inteirando-se do que cineastas
de procedências diversas têm a dizer sobre o 11
de Setembro, como na antologia homônima, seja prestigiando
os esforços do Unicef, o Fundo das Nações
Unidas para a Infância, como em Crianças Invisíveis.
Em geral, assistir a tais filmes exige de fato um tanto de
altruísmo, já que, se há uma característica
capaz de definir esse subgênero, essa é a irregularidade.
Para tomar Crianças Invisíveis como exemplo,
pula-se de um episódio canhestro, como o do africano
Mehdi Charef, para outro bom, como o do bósnio Emir
Kusturica, e assim se vai, aos trancos e barrancos, até
um final que tem cara de qualquer coisa, menos de conclusão.
Paris, Te Amo (Paris, Je T'Aime, 2006), que
estréia nesta sexta-feira no país, trata um
pouco melhor sua platéia. Primeiro porque, à
exceção mais flagrante de um de seus dezoito
episódios, a intenção aqui não
é fazer proselitismo nem despertar consciências,
mas sim explorar um aspecto instigante da cidade a
maneira como todos, nela, são um pouco turistas ou
imigrantes. Depois, porque a montagem procura (nem sempre
com sucesso) ocultar as costuras entre esses muitos capítulos,
como se eles se emendassem uns nos outros pelo sentido. E,
finalmente, porque dar uma passeada por Paris nunca fez mal
a ninguém.
A irregularidade
continua a ser o defeito do projeto. Entre os pontos baixos
há uma tolíssima história de vampiros
com Elijah Wood e um delírio no bairro oriental, a
cargo do australiano Christopher Doyle além
de um decepcionante episódio dirigido pelos irmãos
Coen, no qual Steve Buscemi atravessa uma situação
embaraçosa na estação de metrô
de Tuileries. Um episódio que parte de uma idéia
divertida, a de mostrar como os parisienses odeiam os mímicos
que vivem de atormentar os transeuntes, já larga em
desvantagem por ser protagonizado exatamente por um mímico.
A surpresa é que os pontos altos contam-se em maior
número. A anglo-indiana Gurinder Chadha, de Driblando
o Destino, contribui com uma bela historieta sobre a paquera
entre um rapaz francês e uma menina árabe que
optou por usar o véu. A espanhola Isabel Coixet acerta
em cheio no enredo, narrado em tom de melodrama, do homem
que se reapaixona pela mulher ao descobrir que ela está
à morte. O alemão Tom Tykwer constrói
um romance intrigante entre um menino cego e uma jovem atriz
americana, interpretada por Natalie Portman, enquanto o sul-africano
Olivier Schmitz assina o mais poético dos episódios,
sobre um nigeriano esfaqueado que reconhece, na paramédica
que o atende, a moça que ele havia cortejado com uma
canção alguns dias antes. E o último
episódio, dirigido por Alexander Payne (de Sideways)
e brilhantemente interpretado por Margo Martindale, corresponde,
de fato, a um desfecho.
Diretores ilustres
batem ponto em Paris, Te Amo, como o mexicano Alfonso
Cuarón e o americano Gus Van Sant. Também não
faltam os brasileiros Walter Salles e Daniela Thomas, que
compartilham a direção do capítulo Longe
do 16º Arrondissement (todos eles levam o nome de
alguma localidade parisiense) e que, de maneira previsível,
optam pela linha "social" na história da moça
latina (a colombiana Catalina Sandino Moreno) que deixa o
filho na creche e atravessa a cidade, do seu subúrbio
até o centro, para cuidar do bebê de uma mulher
rica. Com o que se prova que é possível ser
infeliz em Paris embora, presumivelmente, a infelicidade
em Paris ainda seja melhor do que em Bogotá.