Como funciona a fábrica
de adaptações
latinas de Desperate Housewives que
a Disney montou na Argentina
Marcelo Marthe, de Buenos Aires
Montagem
sobre fotos de Marcelo Kura e Divulgação
PRODUÇÃO
EM ESCALA Estrelas do original americano
(acima) e suas contrapartes nas versões
latinas: como numa linha de montagem, todas as cópias
foram feitas com o mesmo cenário, figurino, equipe
técnica...
Na
manhã de terça-feira passada, o termômetro
registrava 3 graus centígrados em Pilar, a 50 quilômetros
de Buenos Aires. O frio contrastava com as roupas mínimas
usadas pelo elenco que participava da gravação,
ao ar livre, de um seriado para a televisão brasileira.
De camiseta e bermuda, os atores tremiam e, ainda por cima,
eram policiados para não lançar vapor ao respirar,
pois isso trairia que o cenário está bem longe
dos trópicos, onde a ficção se passa.
Pilar foi escolhida pela Disney para abrigar uma linha de
produção inusitada. Ali estão sendo feitas
quatro versões para o mercado latino de Desperate
Housewives, uma das séries americanas de maior
sucesso na atualidade. As aventuras de cinco mulheres que
vivem num subúrbio abastado, onde muita podridão
se esconde sob a superfície, ganharam recentemente
um similar argentino e outro colombo-equatoriano. Em breve
será gravado um terceiro genérico, voltado à
população latina dos Estados Unidos. Todos têm
o mesmo nome em espanhol: Amas de Casa Desesperadas.
No momento, porém, trabalha-se ali na versão
que deverá estrear no Brasil em agosto, na RedeTV!.
VEJA acompanhou as gravações e constatou que
a expressão "enlatado", nesse caso, faz todo o sentido.
Assim como as outras emissoras latinas envolvidas no projeto,
a RedeTV! entra apenas com a adaptação do roteiro
para o português, o time principal de atores e uma parcela
dos custos de produção, 5 milhões de
dólares. A Disney arca com o grosso da logística,
mas lucra com o pagamento de direitos autorais e acordos publicitários.
O mercado de compra
e venda de formatos de programas é antigo e agitado.
Reality shows como o Big Brother são adquiridos
de produtoras estrangeiras e adaptados ao gosto brasileiro.
Na dramaturgia, a rede mexicana Televisa mantém há
tempos um acordo com o SBT de Silvio Santos para que se façam
versões locais de seus melodramas. A empreitada da
Disney abre um novo capítulo nessa história.
A adaptação de um seriado americano, mantidos
os padrões técnicos da televisão daquele
país, sempre foi proibitiva por causa dos custos. O
orçamento de uma temporada de Desperate Housewives,
por exemplo, bate nos 25 milhões de dólares.
Para que uma emissora como a Rede TV!, com experiência
zero em dramaturgia, se lançasse numa aventura desse
tipo, seriam necessários investimentos ainda mais altos
em equipamento, por exemplo. A solução
imaginada pela Disney criar uma linha de montagem e
arrancar dela o máximo permitiu diluir os custos.
Da cidade cenográfica de 45.000 metros quadrados aos
figurinos, da equipe técnica ao elenco de apoio, Donas
de Casa Desesperadas compartilha tudo com as outras cópias
de Desperate Housewives. Tão logo a versão
brasileira se encerre, dentro de algumas semanas, terão
início os trabalhos da rede Univision, voltada ao público
latino dos Estados Unidos. Em seguida, virá a segunda
temporada do clone argentino. E assim por diante.
Donas de Casa
Desesperadas demorou um ano além do previsto para
sair do papel porque a RedeTV! teve dificuldade para fechar
o elenco. "Ter nomes conhecidos era um ponto essencial", diz
Mônica Pimentel, diretora artística da emissora.
Sonia Braga só assinou contrato uma semana antes do
início das gravações. Apesar de ter uma
participação menor do que a da colega Lucélia
Santos, Sonia está embolsando o maior cachê:
cerca de 1 milhão de reais pela temporada. A Disney
não viu problema de as protagonistas não viverem
exatamente o auge de suas carreiras. "Elas podem não
estar no topo, mas são dignas", diz Leonardo Aranguibel,
produtor executivo da companhia. E conclui: "As americanas
também não estavam no pico antes do seriado".
Assistir às
diversas versões de Desperate Housewives é
uma experiência curiosa. Como em qualquer linha de montagem,
os produtos saem da fábrica iguaizinhos. Cada capítulo
segue seu correspondente americano diálogo por diálogo.
As marcações de cena, a filmagem em alta definição,
a trilha sonora cada detalhe é padronizado de
tal maneira que não sobra espaço para atores
ou diretores imprimirem um tom pessoal à interpretação.
O cineasta Fábio Barreto (de O Quatrilho) responde
pela direção da série abrasileirada.
Na prática, porém, é monitorado o tempo
todo por um profissional argentino que zela para que a cartilha
da Disney seja cumprida. As pequenas modificações
realizadas no roteiro, em nome da cor local, não denotam
grande uso de imaginação. Um clube de strip-tease
da trama original foi substituído surpresa!
por um show de mulatas no Brasil.
O fato de as gravações
ocorrerem num país que fala outra língua terá
reflexos na versão brasileira. Na última terça,
um "duelo" de interpretação entre Teresa Seiblitz
(que tem o papel da executiva Lígia, que larga a carreira
para cuidar de três filhos endiabrados) e uma veterana
atriz argentina evidenciou as trombadas lingüísticas
a que uma produção nesse esquema está
sujeita. Lucrécia Campello, a atriz em questão,
não conseguia guardar (ou falar) seu texto em português
nem entender o que Teresa dizia. Preencher o elenco secundário
com atores argentinos é mais uma estratégia
para conter as despesas. Suas falas, naturalmente, terão
de ser dubladas. "Mas não vai ficar horrível
como nas novelas mexicanas do SBT", garante Barreto.
Por mais frugal
que possa parecer à distância, a questão
do frio também tem seu peso. Quando VEJA visitou o
set, o ator Iran Malfitano, que faz as vezes do amante da
ex-modelo Gabriela (a atriz Eva Longoria no original), reclamava
por atuar de bermuda e camiseta sob uma temperatura congelante.
"Isso afeta minha concentração", disse. Franciely
Freduzeski, que representa Gabriela, circulava com uma bolsa
de água quente por causa de uma tendinite no braço,
também provocada pelo frio. Lucélia Santos,
que interpreta a mãe separada vivida na série
americana por Teri Hatcher, teve de fazer uma cena pelada.
Teresa Seiblitz, por sua vez, foi obrigada a lançar-se
numa piscina. "A gente devia mudar o nome disso aqui para
'A Marcha dos Pingüins'.", diz ela.