...e uma lição:
os jovens abaixo poderiam ter tido um
futuro brilhante, mas serão lembrados como o bando
que espancou e humilhou uma mulher indefesa no Rio
Ronaldo Soares
Ernani D'Almeida
Severino Silva/Ag. O Dia
Sirlei: cortes, hematomas, vômito, náuseas e fortes
dores de cabeça são o resultado da violência que sofreu
Felippe, Leonardo, Júlio, Rubens e Rodrigo, algemados,
na escada da delegacia: bandidos comuns
O primeiro chute
atingiu em cheio o rosto. Com a violência do golpe,
o corpo da empregada doméstica Sirlei Dias, de 32 anos,
se curvou e seu olho esquerdo inchou. A pancada deu início
ao martírio a que ela seria submetida na madrugada
de 23 de junho. Antes do golpe, de pé em um ponto de
ônibus em frente à Praia da Barra da Tijuca,
bairro de classe média do Rio de Janeiro, o pensamento
de Sirlei vagava com a primeira brisa da madrugada tocando
seu rosto e o barulho das ondas estourando na praia. É
o som que mais lhe apraz quando está na Barra, onde
trabalha em um apartamento de frente para o mar. Alguma razão
a fez lembrar de seu filho, João Gabriel, de 3 anos.
Seus pensamentos foram interrompidos pelo primeiro golpe e
agora ela se encontrava agachada, tentando se proteger com
o braço dos chutes na cabeça. Havia se tornado
um alvo fácil, imóvel, para uma sucessão
de socos e pontapés desferidos por um grupo de delinqüentes
juvenis de classe média que voltavam de uma festa.
Sem nenhum motivo aparente, ela foi espancada, xingada e humilhada.
O ato de selvageria foi um choque mesmo para os anestesiados
sentidos de brasileiros submetidos diariamente a notícias
de crimes. Os algozes eram cinco universitários, de
19 a 21 anos de idade. Todos com família estruturada.
Tinham tudo para seguir o caminho da civilidade. Não
foi esse o rumo que escolheram. Quando o Brasil os descobriu,
na semana passada, espancavam uma mulher indefesa.
Hipólito Pereira/Ag.
O Globo
Sirlei é observada pelo pai
de um dos agressores: a lei não vale para os jovens delinqüentes?
Sirlei foi atacada
quando saía da residência em que trabalha para
ir a um posto de saúde perto de sua casa, em Duque
de Caxias, na Baixada Fluminense. Madrugou no ponto de ônibus
porque teria de encarar três conduções
e um percurso total de 63 quilômetros até o posto.
Depois da consulta, faria um trabalho extra em seu dia de
folga: uma faxina que lhe renderia 70 reais e reforçaria
o salário do mês, de 550 reais. Os golpes que
recebeu (veja quadro) fizeram
com que ela faltasse ao compromisso. Eles poderiam tê-la
matado. Ao se proteger com o braço, agachada, ela não
sofreu lesão mais grave. Os exames não acusaram
fraturas. Mas a doméstica ficou com hematomas no rosto
e teve de imobilizar o braço direito. Além disso,
ainda sente dores de cabeça constantes, tontura e ânsia
de vômito. Com o pescoço dolorido por causa dos
solavancos causados pelos golpes, ela não consegue
movimentar livremente a cabeça. O sofrimento da mãe
impactou o filho. Toda vez que ela sai de casa, João
Gabriel chora. Diz que tem medo de que ela seja agredida.
Se é apenas uma reação natural da criança
ou se é um trauma o que é um dano psicológico
o tempo dirá. A extensão de uma violência
assim pode ser imprevisível. Vai além da dor
física. Sirlei, que fala mansamente e gesticula pouco,
comove-se ao lembrar que, enquanto era espancada, pensava
na possibilidade de jamais voltar a ver o filho. "Achei que
em algum momento eles iam pegar uma arma e me matar", disse
a VEJA.
O que pode ter
levado os jovens a cometer essa atrocidade? Os cinco envolvidos
Felippe Nery, Rodrigo Bassalo, Rubens Arruda, Júlio
Junqueira e Leonardo Pereira moram em confortáveis
condomínios na Barra da Tijuca e estudaram em boas
escolas. Oportunidades não lhes faltavam. Rodrigo,
por exemplo, voltou recentemente de uma temporada de sete
meses na Austrália, onde foi estudar inglês,
e estava selecionado para trabalhar na equipe de apoio dos
Jogos Pan-Americanos. Júlio tomava conta de dois quiosques
do pai na orla da Barra. Felippe havia acabado de ganhar do
pai um Gol zero-quilômetro. Leonardo, que aos 19 anos
tem um filho de 3, trabalha com o pai. O que os teria levado
a isso? "Foi uma variante daquela velha frase: 'Você
sabe com quem está falando?'. Esses jovens se julgam
superiores e acham a doméstica inferior", diz o antropólogo
Roberto DaMatta. O que está por trás do comportamento
desses jovens é uma distorção que lhes
permite encarar as diferenças de classe social, cor,
orientação sexual como sinal de inferioridade
e submissão. A explicação de um deles
para a barbárie foi ainda mais cruel: eles confundiram
Sirlei com uma das prostitutas que costumam fazer ponto naquela
região.
Por ironia ou lição
do destino, foi justamente uma prostituta quem salvou a vida
de Sirlei, conforme ela mesma confirmou a VEJA. Quando os
jovens a atacaram, a garota de programa que presenciou a cena
gritou por socorro, o que os afugentou. Eles foram embora
levando a bolsa de Sirlei. No caminho até o carro bateram
em outras duas mulheres. Os agressores foram indiciados por
tentativa de latrocínio (quando a vítima é
roubada e assassinada) e podem pegar até quinze anos
de prisão. Além disso, o advogado da doméstica,
Marcus Fontenele, vai tentar na Justiça uma indenização
por danos morais e materiais. O delegado Carlos Pinto deverá
indiciá-los também por formação
de quadrilha, pois suspeita que ao menos parte deles costumava
bater em prostitutas com freqüência. Uma vítima,
agredida pouco antes do ataque a Sirlei, já os reconheceu.
O pai da doméstica, Renato Carvalho, tentou explicar
o desvio de conduta dos agressores de sua filha com base em
seu exemplo: "Eu criei quatro filhos e nunca tive condições
de dar uma bicicleta para eles, mas soube dar limites". O
pensamento é incompleto. Foram seus filhos que fizeram
a escolha certa. Os meninos da Barra da Tijuca, não.