A Serra da Misericórdia,
na Zona Norte do Rio de Janeiro, é um conjunto de morros
de até 180 metros de altitude e não mais do
que 4 quilômetros de extensão. É mais
conhecida por elevar na paisagem da cidade o Santuário
da Penha, que se vê ao longe no trajeto entre o Aeroporto
do Galeão e o centro da cidade. Mas os olhares de todo
o país têm convergido para ali por outra razão.
Conquistar definitivamente suas colinas é o objetivo
tático das tropas fluminenses que travam, neste momento,
a mais prolongada guerra contra os traficantes cariocas de
que se tem notícia. A serra é o ponto mais alto
do Complexo do Alemão, a região composta de
dezoito favelas que se tornou a cidadela do tráfico
e o ponto nevrálgico na luta para resgatar áreas
inteiras da cidade que seguem sob o domínio de bandidos.
Na quarta-feira da semana passada, depois de 57 dias do início
do confronto, o governo do estado empreendeu sua ação
mais eficaz. Com um efetivo de 1 350 homens, conseguiu avançar
meros 3 quilômetros, contados a partir da entrada do
complexo. Parece pouco, mas foi o suficiente para chegar aonde
governos passados nem cogitaram estar. Ali fica o quartel-general
dos líderes do tráfico local, não por
acaso uma das quadrilhas mais cruéis da cidade. A batalha,
a mais bem-sucedida até agora, teve um mérito
adicional: o de mostrar, enfim, como se deve tratar a questão
da criminalidade, que se espalha por todas as grandes cidades
do país. Enfrentar os bandidos, dominar o território
e restabelecer o poder do estado é o caminho. Os últimos
governos fluminenses patinavam na inação ou
em ações paliativas. O resultado foi o fortalecimento
da bandidagem, uma perigosa desmoralização do
estado formal. Agora a coisa mudou.
O rigor na operação
policial era indispensável, como demonstram as seis
barreiras retiradas pela polícia na semana passada,
em uma única rua. Barreiras que incluíam um
caminhão frigorífico tombado e barras de trilho
de trem fincadas no chão. Fora dezenas de outros obstáculos
em ruas menores. Apesar de todo o esforço e das oito
horas de confronto, a polícia ainda não conseguiu
chegar ao objetivo: prender os líderes do tráfico
local e estabelecer uma ocupação permanente,
sem a qual qualquer batalha terá sido em vão.
Isso dá a dimensão da dificuldade do combate.
O Complexo do Alemão é a região mais
bem armada entre todas as que estão sob o domínio
de traficantes. Seu arsenal de fogo é maior que o de
qualquer outro morro do Rio. E o problema que traz à
cidade não se resume ao tráfico. O clima de
insegurança que o domínio dos traficantes impõe
estimula a prática de uma série de outros crimes.
Estima-se que a criminalidade no Alemão seja a razão
de metade dos casos de violência e crimes registrados
na Zona Norte da cidade. O número de bandidos é
incerto. Pode chegar a 600. Mas não há menos
do que 200 homens armados estabelecidos ali. O arsenal de
que dispõem é estimado em 150 fuzis, metralhadoras
capazes de derrubar aviões, granadas e uma incontável
coleção de pistolas e revólveres. Há
entre os bandidos alguns com formação militar.
Por sua posição estratégica na cidade,
o território é considerado fundamental pelos
policiais na tarefa de eliminar as gangues armadas que dominam
o tráfico na cidade.
Fabio Motta/AE
Sérgio Cabral: plano inédito
de revitalização na região mais pobre do Rio
Ao final da batalha,
algumas ONGs e entidades que se pretendem defensoras dos direitos
civis se apressaram em classificar a operação
como uma matança indiscriminada, por causa das dezenove
mortes ocorridas. Foi possível ouvir também,
embora bem mais longínquos do que de costume, os ecos
do velho discurso de que invasões policiais não
resolvem o problema. Há, de fato, que tomar um cuidado
extremo para evitar as arbitrariedades e ações
inconseqüentes numa área densamente povoada. Mas
o que essa gente quer é passar a mão na cabeça
de facínoras, sob a falsa premissa de que eles são
bandidos porque nasceram pobres. Uma afirmação
do secretário de Segurança Pública do
Rio, o delegado federal José Mariano Beltrame, encerra
o melhor raciocínio sobre o assunto: "Hoje morreram
dezenove pessoas. Se esperássemos alguns anos, seriam
muito mais. O remédio é mesmo amargo, mas necessário",
disse.
O que diferencia
a ação do atual governo fluminense da dos demais
é a disposição de conjugar a ação
enérgica com ações sociais efetivas
e não apenas aquelas que visam à colheita de
votos em empobrecidos currais eleitorais. No mês passado,
o governador Sérgio Cabral anunciou um plano que pode
transformar a paisagem do lugar. O projeto terá verbas
do governo federal, que pretende investir 2 bilhões
de reais em obras de saneamento e habitação
no estado do Rio de Janeiro. O principal projeto urbanístico
no Complexo do Alemão (veja
o quadro) é a construção de um
teleférico, que vai transportar moradores da estação
de trem mais próxima até o topo da favela. A
idéia foi inspirada no teleférico de Medellín,
na Colômbia, que hoje transporta 30.000 pessoas por
dia numa região escarpada e miserável da cidade.
O projeto prevê o transporte de número similar
de pessoas. Seis estações serão construídas
ao longo do complexo, para desembarque de passageiros. O plano
do governo inclui a urbanização do entorno de
cada estação, com a construção
de unidades pré-hospitalares. Pelo menos quinze ruas
serão reurbanizadas e ampliadas para larguras de 4
a 7 metros, permitindo o acesso de automóveis. Não
é, nem de longe, tarefa fácil. A experiência
de outros países mostra que não há solução
isolada. Ações sociais serão sempre bem
recebidas. Mas de nada adiantarão se o estado não
for o dono do território.