Preso pela Polícia
Federal, Pedro Agrizzi ganhou
90 milhões de dólares com o contrabando de eletrônicos
Fábio Portela
Gazeta do Povo
Agrizzi e sua Nave
(ao lado): a loja foi a base de lançamento
do grupo que operava em quatro países e girava
250 milhões de dólares anuais
Na manhã
da terça-feira 26, agentes da Polícia Federal
bateram à porta da casa do empresário Pedro
Agrizzi, situada em um condomínio de luxo em Foz do
Iguaçu. Agrizzi não esperou para saber do que
se tratava. Tentou escapar pulando o muro do quintal. No meio
da escalada, os policiais o puxaram pelas calças. Agrizzi
tinha bons motivos para fugir. Há quinze anos, ele
morava de aluguel e trabalhava na paraguaia Ciudad del Este
como balconista de uma loja de muamba. De empregado, passou
a empresário desse setor. Acumulou desde então
um patrimônio de 90 milhões de dólares
em quatro países Brasil, Paraguai, Estados Unidos
e Taiwan. Aos 38 anos, ele é proprietário de
casas, apartamentos, prédios comerciais, galpões,
vinte empresas e contas bancárias, nas quais movimenta
250 milhões de dólares por ano. Uma investigação
da Receita e da Polícia Federal mostra como Pedro Agrizzi
ou Peter Agrizzi, como prefere ser chamado corrompeu,
contrabandeou, fraudou e sonegou para construir essa fortuna.
Ainda como balconista,
ele aplicava golpes com cartões de crédito na
loja onde trabalhava. Desviava dinheiro dos clientes e patrões.
Com isso, juntou capital para abrir o próprio negócio.
Em 1993, inaugurou em Ciudad del Este a Nave Informática,
nome que celebra sua paixão pelas viagens espaciais.
Logo percebeu que a atividade de lojista não lhe permitiria
enriquecer na velocidade pretendida. Afinal de contas, o ramo
da muamba é concorrido no Paraguai. A Nave voou de
lado até o fim dos anos 90, quando Agrizzi conheceu
o chinês Don Shieh, representante da Asus, uma fábrica
de placas de computador de Taiwan. Shieh exportava para os
Estados Unidos e precisava de um canal de distribuição
na América Latina legal ou ilegal. Agrizzi se
incumbiu da tarefa e passou a transportar os contêineres
de Miami até o Paraguai, de onde os distribuía
para o Brasil.
Acontece.com
O muambeiro e a mulher, Cleibimar,
dão notebook a Zezé: festão em Miami
Nesse tempo, concluiu
que, para ter sucesso nos Estados Unidos, precisava trocar
de nome. Passou a se apresentar como Peter. Em 2001, alugou
uma sala em Miami e montou uma empresa de trading, a Agrizzi
Enterprises, cujo nome homenageia a nave do seriado Jornada
nas Estrelas. No esquema de importação das
placas Asus, subfaturava o valor das mercadorias e sonegava
todos os impostos possíveis. Quando era flagrado pelas
autoridades aduaneiras do Brasil ou do Paraguai, subornava
os fiscais. Como ele não pagava impostos, as placas
Asus eram vendidas no Brasil a um preço 40% mais baixo
que o praticado no mercado. No primeiro ano, a Enterprises
movimentou 4 milhões de dólares. Nos seguintes,
seus lucros explodiram. Na condição de Peter,
Agrizzi comprou um apartamento de alto padrão em Miami
e um galpão com 10.000 metros quadrados para estocar
a mercadoria asiática. Obteve até um green card,
o visto de residência permanente naquele país.
Alertadas pela Polícia Federal, autoridades americanas
investigam como o documento foi concedido a um muambeiro.
No Paraguai, enquanto
isso, a loja Nave decolou e passou a ocupar um prédio
inteiro. A fachada do edifício foi remodelada na forma
de sua logomarca, um ônibus espacial. Do outro lado
do mundo, em Taiwan, Agrizzi expandiu sua rede de contatos.
Passou a representar outras empresas de produtos eletrônicos,
além da Asus. Vendia monitores, laptops, componentes
de computador, pen drives, servidores, câmeras de foto
e vídeo. Criou companhias fantasmas e montou um esquema
de falsificação de embalagens para comercializar
computadores e componentes taiwaneses como se eles tivessem
sido fabricados no Brasil beneficiando-se, assim, da
isenção de impostos concedida a produtos nacionais.
Seu sucesso no mundo empresarial foi tamanho que a comunidade
dos brasileiros ricos que vivem em Miami lhe abriu as portas.
A ascensão social chegou ao ápice no ano passado.
Como parte dos festejos do aniversário de cinco anos
da Enterprises, Agrizzi ajudou a patrocinar a turnê
americana da dupla Zezé di Camargo e Luciano. Agradecidos,
os músicos compareceram ao jantar de aniversário
da empresa de Peter Agrizzi. Na ocasião, ele deu notebooks
de presente aos cantores (olhem o contrabando aí, Zezé
e Luciano).
Recentemente, Agrizzi
se preparava para um novo salto empresarial. Comprou uma trading
em Taiwan e se associava a uma fábrica de componentes
eletrônicos quando foi preso. Dominaria, assim, toda
a cadeia produtiva da muamba: da fabricação
do produto na Ásia até a distribuição
ao consumidor final no Brasil. Agrizzi chegou tão longe
porque tinha o suporte de grandes empresários brasileiros.
A Receita Federal partiu de uma premissa simples para chegar
a essa conclusão: só 20% dos 250 milhões
de dólares em contrabando que Agrizzi vendia anualmente
chegavam ao varejo. O resto alimentava fábricas de
computadores e alguns dos maiores atacadistas brasileiros.
A polícia ainda não recolheu informações
suficientes para indiciar essa gigantesca turma de receptadores.
Mas, nos próximos meses, eles podem acompanhar a jornada
de Peter Spock Agrizzi para as estrelas.