A
CIA, agência de inteligência americana, planejou
assassinar o cubano Fidel Castro, o primeiro-ministro da República
do Congo Patrice Lumumba e o presidente socialista do Chile
Salvador Allende. O serviço secreto dos Estados Unidos
infiltrou espiões entre os hippies que protestavam
contra a Guerra do Vietnã, treinou grupos paramilitares
em outros países, testou drogas alucinógenas
em militares americanos, submeteu estrangeiros a interrogatórios
violentos e grampeou telefones de jornalistas. Tudo isso aconteceu
nas décadas de 50, 60 e 70, durante a Guerra Fria.
Muitos desses fatos já eram conhecidos pelos historiadores.
O mérito de um novo pacote de documentos secretos da
CIA divulgado pelo governo americano, na semana passada, está
em dois pontos. Primeiro, o de acrescentar os detalhes que
faltavam para entender como eram feitas as ações
ilegais da agência de inteligência dos Estados
Unidos. Segundo, o de comprovar um dos inúmeros benefícios
da democracia americana: o direito de os cidadãos terem
acesso a informações sigilosas do governo, depois
de um período de quarentena. Em comparação,
pouco ou nada foi oficialmente revelado pelo governo russo
sobre os crimes cometidos por espiões e agentes soviéticos
durante a Guerra Fria.
AP
O mafioso Roselli: ajuda para
a CIA
Os documentos trazidos a público na semana passada
são divididos em duas partes. A primeira contém
702 páginas com relatos de ações clandestinas
da CIA entre 1959 e 1973. A segunda parte apresenta uma série
de análises sobre o avanço do comunismo no mundo,
incluindo o Brasil. O material é suficiente para fazer
com que teóricos da conspiração como
o cineasta Michael Moore e o lingüista Noam Chomsky,
ambos americanos, se inflem de superioridade moral. Um dos
textos detalha o desastrado plano para matar Fidel Castro
em 1960, pouco mais de um ano depois da Revolução
Cubana. Na falta de uma idéia melhor, os agentes da
CIA entraram em contato com o mafioso Johnny Roselli, de Las
Vegas. Roselli lhes apresentou Sam Gold, outro mafioso, que
conhecia "a turma cubana". Sam por sua vez indicou Juan Orta,
um funcionário cubano corrupto, para fazer o serviço.
Após alguns acertos, a agência fabricou seis
pílulas venenosas e as entregou a Orta. Depois de várias
tentativas malsucedidas de colocar as pílulas na bebida
ou na comida de Fidel, Orta desistiu. Outro cubano foi encarregado
do trabalho, mas o plano foi cancelado com a fracassada invasão
da Baía dos Porcos, em 1961, em mais um fiasco da CIA
contra Fidel.
A espionagem e
a conspiração acompanham a humanidade desde
que a disputa pelo poder se tornou, digamos, mais organizada.
No século V a.C., o chinês Sun Tzu, autor
do mais antigo tratado de guerra, já dizia que o uso
de espiões era fundamental para assassinar inimigos
ou vencer uma batalha. A espionagem institucionalizada ganhou
maior complexidade durante o reinado de Elizabeth I (1558-1603),
na Inglaterra, que manteve uma rede de agentes em países
estrangeiros recrutados entre os estudantes das universidades
de Oxford e Cambridge. Todo país tem as próprias
regras para os serviços de inteligência, mas
não existem leis internacionais regulamentando o que
os espiões podem ou não fazer. Segundo as leis
americanas da década de 40, a CIA pode planejar e executar
missões secretas apenas fora dos Estados Unidos.
A agência,
no entanto, sempre desrespeitou a lei e interferiu em assuntos
internos do país, como confirmam os arquivos abertos
na semana passada. Entre os documentos há, por exemplo,
um relatório interno de 1972 mostrando que a CIA espionava
civis americanos. No texto, os funcionários da agência
dizem que o músico inglês John Lennon financiou
viagens do americano Rennie Davis, um dos principais ativistas
da campanha contra a Guerra do Vietnã. Embora sob protestos,
alguns agentes precisaram deixar o cabelo crescer para se
misturar aos hippies que pediam a paz. Outro arquivo liberado
na semana passada é útil para entender o contexto
ideológico em que essas ações aconteceram.
O documento, de 172 páginas, é intitulado A
Luta Sino-soviética em Cuba e o Movimento Comunista
Latino-americano e foi escrito em 1963 por analistas de
inteligência da CIA. Na parte dedicada ao Brasil, surpreende
que, ao menos no que se refere a compreender e avaliar os
principais personagens da política brasileira, os agentes
americanos eram mais eficientes do que em seus esforços
para assassinar inimigos.
O COMPLÔ
CONTRA FIDEL "Roselli deixou
claro que não queria dinheiro algum por sua participação
e que acreditava que Sam também não. Nenhum
desses indivíduos jamais foi pago com recursos
da agência"
"Sam sugeriu
que eles não usassem armas de fogo, mas que algum
tipo de pílula potente poderia ser colocado na
comida ou na bebida de Castro. Assim a operação
seria muito mais eficiente"
DE OLHO
NO BRASIL "Presidente Goulart,
um oportunista que ascendeu ao poder com a ajuda da
esquerda e que, desde então, tenta aumentar seu
poder pessoal fazendo concessões alternadamente
para a direita e para a esquerda; Leonel Brizola, ex-governador
de estado e agora deputado federal, que se tornou o
principal demagogo antiamericano do Brasil"