O verbete Silvio Pereira ocupa lugar de destaque na enciclopédia
dos escândalos que marcaram o primeiro mandato do presidente
Lula. Secretário-geral do PT até 2005, ele deixou
o posto depois que se descobriu que havia aceitado um carro
da marca Land Rover de presente da empreiteira GDK. A empresa
tinha contratos com a Petrobras, então notória
área de influência do grupo do ex-ministro José
Dirceu, do qual Silvinho, como é conhecido, fazia parte.
Denunciado pelo Ministério Público por formação
de quadrilha, peculato e corrupção, Silvinho
(que a partir daí ganharia o sobrenome gaiato de "Land
Rover Pereira") foi apontado pelo procurador-geral da República
Antonio Fernando Souza como peça-chave no esquema de
"indicações políticas espúrias"
para altos cargos no governo federal. Hoje, o ex-secretário-geral
do PT é um empresário. Em julho do ano passado,
ele abriu uma firma no ramo de eventos, chamada DNP, juntamente
com sua mulher e um irmão. O negócio vai de
vento em popa.
VEJA teve acesso
a documentos que mostram que, de janeiro a abril deste ano,
mais da metade do faturamento da DNP, de cerca de 90.000 reais,
veio, indiretamente, da... Petrobras. Como Silvinho operou
esse milagre? Os 55.000 reais que a DNP embolsou da estatal
nos primeiros meses do ano se referem a uma suposta participação
no projeto Cinemostra de Verão, patrocinado pela petrolífera.
O evento, uma exibição de filmes nacionais ao
ar livre, ocorreu em fevereiro, na Praia de Camburi, em Vitória,
no Espírito Santo. Oficialmente, as empresas que o
idealizaram e executaram foram a TGS Consultoria e a Central
de Eventos e Produções, ambas de propriedade
de um mesmo dono, Julio Cesar dos Santos. Foi em nome dessas
duas empresas que a DNP emitiu as notas fiscais que lhe permitiram
receber, em três parcelas, os 55.000 reais da Petrobras.
Nas notas, atribuem-se à empresa de Silvinho a "coordenação
e produção" da mostra. A Petrobras, por meio
de sua assessoria de imprensa, informa que não tinha
conhecimento da participação da DNP de Silvinho
na mostra e adianta não possuir "ingerência sobre
profissionais ou empresas contratados para execução
de projetos patrocinados pela empresa".
O empresário
Julio Cesar dos Santos, dono da TGS e da Central de Eventos,
foi diretor da empresa municipal de São Paulo Anhembi
Turismo, hoje SPTuris, na gestão da ex-prefeita Marta
Suplicy. As conexões entre as suas empresas e a de
Silvinho não se resumem à mostra de cinema bancada
pela Petrobras. O restante do faturamento da DNP até
abril deste ano também foi resultado de serviços
prestados à Central de Eventos e à TGS. Além
das relações comerciais, existem outros indícios
que apontam para uma estreita proximidade entre as três
empresas: a gerente administrativa da Central de Eventos,
Vivian Perpétuo, acumula o posto de secretária
de Silvio Pereira. Além disso, durante pelo menos oito
meses, a Central de Eventos e a DNP compartilharam a mesma
sede. Por último, há o fato de que Deborah Neistein,
mulher de Silvinho e sócia apenas da DNP, contratou
serviços gráficos em nome da Central de Eventos.
Marcelo
Min/Ag. Fotogarrafa
Roberto Setton
Julio Cesar dos
Santos, dono da Central de Eventos, que repassou dinheiro
da Petrobras para a DNP (à dir.)
Três especialistas
em direito comercial ouvidos por VEJA afirmam que esses detalhes
sugerem que as empresas são, na verdade, uma só.
Ou que, pelo menos, são sócias apesar
de o nome de Silvio Pereira figurar formalmente apenas no
contrato social da DNP. Os especialistas ouvidos explicam
que esse tipo de "arranjo comercial" pode ser feito com as
seguintes intenções: 1) burlar o Fisco, para
pagar menos impostos; 2) fraudar ou obter vantagens em processos
de licitação, já que, para impedir favorecimento,
os processos públicos de concorrência costumam
estabelecer valores máximos de contrato com uma única
empresa; 3) manter no anonimato um sócio que, por interdições
legais ou éticas, não deve aparecer em determinados
contratos. Pelo menos no último caso, é certo
que a situação interessaria a Silvinho.
Os bons negócios
do ex-secretário-geral do PT no ramo empresarial já
têm reflexos no patrimônio da família.
Quando deixou o cargo no partido, com um salário de
9.000 reais mensais, Silvio Pereira se viu obrigado a devolver
o Land Rover que havia ganhado de presente da GDK. Agora,
sua mulher, Deborah, chega para trabalhar na DNP (sempre depois
das 14 horas, nunca além das 18 horas) a bordo de um
Corolla Fielder prata, ano 2007 carrão que custa
70.000 reais. Há outros dois automóveis em nome
de Deborah. O casal mantém o apartamento que já
possuía em São Paulo e a casa de praia de Ilhabela,
avaliada em 650.000 reais. Ao desfiliar-se do PT, depois do
caso do Land Rover, Silvinho anunciou que se tornaria apenas
"um lutador social e um militante das causas populares" e
que, para sobreviver, transformaria sua casa de Ilhabela numa
pousada. Até agora, no entanto, nada indica que o ex-secretário-geral
do PT esteja interessado em se dedicar ao ramo da hotelaria
ou das causas populares. Bom mesmo, ao que parece, é
cuidar de eventos em causa própria.
Ag.
Globo
Land Rover: o presente motivou
a saída de Silvinho do PT