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4 de julho de 2007
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Brasil
Ele não larga o osso

Silvio Pereira, aquele do Land Rover, acusado de tráfico
de influência, continua no ramo de captação de recursos


Camila Pereira e Naiara Magalhães


Lula Marques/Folha Imagem
O ex-secretário-geral do PT: agora, empresário de eventos
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O verbete Silvio Pereira ocupa lugar de destaque na enciclopédia dos escândalos que marcaram o primeiro mandato do presidente Lula. Secretário-geral do PT até 2005, ele deixou o posto depois que se descobriu que havia aceitado um carro da marca Land Rover de presente da empreiteira GDK. A empresa tinha contratos com a Petrobras, então notória área de influência do grupo do ex-ministro José Dirceu, do qual Silvinho, como é conhecido, fazia parte. Denunciado pelo Ministério Público por formação de quadrilha, peculato e corrupção, Silvinho (que a partir daí ganharia o sobrenome gaiato de "Land Rover Pereira") foi apontado pelo procurador-geral da República Antonio Fernando Souza como peça-chave no esquema de "indicações políticas espúrias" para altos cargos no governo federal. Hoje, o ex-secretário-geral do PT é um empresário. Em julho do ano passado, ele abriu uma firma no ramo de eventos, chamada DNP, juntamente com sua mulher e um irmão. O negócio vai de vento em popa.

VEJA teve acesso a documentos que mostram que, de janeiro a abril deste ano, mais da metade do faturamento da DNP, de cerca de 90.000 reais, veio, indiretamente, da... Petrobras. Como Silvinho operou esse milagre? Os 55.000 reais que a DNP embolsou da estatal nos primeiros meses do ano se referem a uma suposta participação no projeto Cinemostra de Verão, patrocinado pela petrolífera. O evento, uma exibição de filmes nacionais ao ar livre, ocorreu em fevereiro, na Praia de Camburi, em Vitória, no Espírito Santo. Oficialmente, as empresas que o idealizaram e executaram foram a TGS Consultoria e a Central de Eventos e Produções, ambas de propriedade de um mesmo dono, Julio Cesar dos Santos. Foi em nome dessas duas empresas que a DNP emitiu as notas fiscais que lhe permitiram receber, em três parcelas, os 55.000 reais da Petrobras. Nas notas, atribuem-se à empresa de Silvinho a "coordenação e produção" da mostra. A Petrobras, por meio de sua assessoria de imprensa, informa que não tinha conhecimento da participação da DNP de Silvinho na mostra e adianta não possuir "ingerência sobre profissionais ou empresas contratados para execução de projetos patrocinados pela empresa".

O empresário Julio Cesar dos Santos, dono da TGS e da Central de Eventos, foi diretor da empresa municipal de São Paulo Anhembi Turismo, hoje SPTuris, na gestão da ex-prefeita Marta Suplicy. As conexões entre as suas empresas e a de Silvinho não se resumem à mostra de cinema bancada pela Petrobras. O restante do faturamento da DNP até abril deste ano também foi resultado de serviços prestados à Central de Eventos e à TGS. Além das relações comerciais, existem outros indícios que apontam para uma estreita proximidade entre as três empresas: a gerente administrativa da Central de Eventos, Vivian Perpétuo, acumula o posto de secretária de Silvio Pereira. Além disso, durante pelo menos oito meses, a Central de Eventos e a DNP compartilharam a mesma sede. Por último, há o fato de que Deborah Neistein, mulher de Silvinho e sócia apenas da DNP, contratou serviços gráficos em nome da Central de Eventos.

 
Marcelo Min/Ag. Fotogarrafa
Roberto Setton
Julio Cesar dos Santos, dono da Central de Eventos, que repassou dinheiro da Petrobras para a DNP (à dir.)

Três especialistas em direito comercial ouvidos por VEJA afirmam que esses detalhes sugerem que as empresas são, na verdade, uma só. Ou que, pelo menos, são sócias – apesar de o nome de Silvio Pereira figurar formalmente apenas no contrato social da DNP. Os especialistas ouvidos explicam que esse tipo de "arranjo comercial" pode ser feito com as seguintes intenções: 1) burlar o Fisco, para pagar menos impostos; 2) fraudar ou obter vantagens em processos de licitação, já que, para impedir favorecimento, os processos públicos de concorrência costumam estabelecer valores máximos de contrato com uma única empresa; 3) manter no anonimato um sócio que, por interdições legais ou éticas, não deve aparecer em determinados contratos. Pelo menos no último caso, é certo que a situação interessaria a Silvinho.

Os bons negócios do ex-secretário-geral do PT no ramo empresarial já têm reflexos no patrimônio da família. Quando deixou o cargo no partido, com um salário de 9.000 reais mensais, Silvio Pereira se viu obrigado a devolver o Land Rover que havia ganhado de presente da GDK. Agora, sua mulher, Deborah, chega para trabalhar na DNP (sempre depois das 14 horas, nunca além das 18 horas) a bordo de um Corolla Fielder prata, ano 2007 – carrão que custa 70.000 reais. Há outros dois automóveis em nome de Deborah. O casal mantém o apartamento que já possuía em São Paulo e a casa de praia de Ilhabela, avaliada em 650.000 reais. Ao desfiliar-se do PT, depois do caso do Land Rover, Silvinho anunciou que se tornaria apenas "um lutador social e um militante das causas populares" e que, para sobreviver, transformaria sua casa de Ilhabela numa pousada. Até agora, no entanto, nada indica que o ex-secretário-geral do PT esteja interessado em se dedicar ao ramo da hotelaria ou das causas populares. Bom mesmo, ao que parece, é cuidar de eventos em causa própria.

 
Ag. Globo
Land Rover: o presente motivou a saída de Silvinho do PT

 

Com reportagem de Wanderley Preite Sobrinho

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