Não valia muito a pena
para um investidor fazer negócios no Brasil. Essa foi
a tônica das últimas três décadas.
Por uma razão simples: com a taxa de juro nas nuvens
e a sensação iminente de que a inflação
um dia voltaria, era mais seguro e rentável emprestar
dinheiro ao governo ou investir em outras paragens. Secaram
os investimentos em estradas, faculdades, siderúrgicas,
hospitais e hidrelétricas. Da classe empresarial à
classe média, todos queriam ser credores do governo,
num parasitismo financeiro que imobilizou o país. Por
que investir 100 milhões de reais para erguer um supermercado
ou uma fábrica se o retorno previsto, de cerca de 8
milhões de reais ao ano, era a metade do lucro que
os papéis do governo proporcionavam e sem riscos?
Esse quadro mudou com o controle da inflação.
Foi um processo custoso. Em um primeiro momento, os juros
mantiveram-se altos para mostrar a determinação
do governo de segurar a fera inflacionária. Aos poucos,
à medida que empresários e consumidores perceberam
que a determinação do Banco Central era para
valer, as taxas de juro puderam cair sem que os preços
subissem. Hoje, por um ínfimo porcentual, já
vale mais a pena investir em produção do que
em papéis do governo. O capitalismo começou
a renascer ou nascer no Brasil.
Ed Ferreira/AE
O ministro Mantega: meta mais
flexível
Na semana passada, porém,
o governo perdeu uma chance de ouro de consolidar de vez essa
conquista. Ao fixar as metas de inflação para
os próximos dois anos, o Conselho Monetário
Nacional (CMN) decidiu que o país pode ter uma inflação
de 4,5% ao ano acima da expectativa dos analistas econômicos,
que projetam uma alta inferior a 4%. Para um país que
já teve hiperinflação de 80% ao mês,
por que esse meio ponto porcentual gerou tanta controvérsia?
Que diferença faz ter 4% de inflação
anual ou 4,5%? A diferença é insignificante
apenas na aparência. Ela lembra a história do
homem preso em um tanque com água pelo queixo. Basta
que a lâmina d'água suba apenas mais 5 centímetros
para ele se afogar. Em um mundo de finanças integradas,
com margens ínfimas de lucros nos investimentos e amplas
oportunidades se oferecendo pelos cinco continentes, ter 0,5%
de inflação a mais quando se pode ter 0,5% de
inflação a menos tem grandes conseqüências
para toda a economia.
O impacto, em primeiro lugar,
atinge os cofres públicos. Inflação maior
significa mais gastos com aposentadorias e juros (veja
quadro). Depois, a onda de choque pega em cheio a renda
dos assalariados. Uma inflação 0,5% maior, se
mantida por vinte anos, representa uma perda no poder de compra
superior a 10%. Sem que o poder de compra das pessoas seja
preservado, o consumo é afetado e mina o potencial
de crescimento de longo prazo. Por isso os economistas defendiam
uma redução na meta, para que a inflação
no país pudesse convergir para patamares mais próximos
aos dos países avançados que perseguem
como alvo uma inflação anual em torno de 2%.
O Brasil adota o sistema de metas desde 1999. Quem define
as metas de inflação no país, em tese
e pela legislação vigente, é o Conselho
Monetário Nacional. Fazem parte desse conselho o ministro
da Fazenda, Guido Mantega, o do Planejamento, Paulo Bernardo,
e o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles.
Cada um de seus integrantes tem direito a um voto, de igual
peso. Mas, na prática, não foi o que ocorreu.
Tanto Bernardo como Meirelles eram favoráveis a uma
redução da meta para 4%. Como formam maioria
no conselho, Bernardo e Meirelles teriam o poder de impor
essa opção a Mantega, defensor de uma meta mais
flexível. Por inspiração do presidente
Lula, venceu a meta mais flexível. Isso significa que
o Brasil vai ter uma inflação maior a partir
de 2008? Não necessariamente. Meirelles tem se esforçado
para reduzir o estrago dessa lambança na credibilidade
duramente conquistada pelo BC. Ele admite que uma meta de
4% teria sido mais adequada, mas assegura ter recebido do
CMN a autorização formal para perseguir uma
meta inferior aos 4,5%.
Compreende-se o esforço
de Meirelles. Cabe a ele tranqüilizar os mercados e mostrar
que ainda está no comando do jogo. Isso traz à
luz um problema de outra natureza, a dualidade de metas. Pode
um goleiro defender dois gols ao mesmo tempo? A política
monetária de um país pode ter duas caras?
"A decisão do CMN, dividida
como foi, indica que o sistema de metas de inflação
pode estar perdendo algo que o BC alcançou com grande
sacrifício, que é a própria credibilidade
do sistema de metas de inflação. Qual o sentido
de anunciar uma meta que não será perseguida?",
pergunta o economista Márcio Garcia, professor da PUC
do Rio de Janeiro. "A condução da política
econômica tem se deteriorado desde o ano passado, e
a decisão da última semana só reforça
essa tendência. Um dia os mercados vão notar
isso." Por ora, em um mundo inundado por uma liquidez financeira
sem precedentes, os mercados têm exercitado um alto
nível de tolerância e a dualidade brasileira
não trará impactos mais fortes. Se a maré
baixar, as coisas tendem a se complicar.