Joaquim Roriz usou
dinheiro de Nenê
Constantino para pagar propina a juízes
Diego Escosteguy
Celso Junior/AE
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A nota
fiscal que Roriz apresentou para explicar a compra da
bezerra: informações desencontradas, datas
que não batem e valores diferentes
O
senador Joaquim Roriz, flagrado em uma conversa telefônica
combinando a partilha de 2,2 milhões de reais, finalmente
subiu à tribuna para explicar-se na semana passada.
Com um discurso pronunciado à semelhança de
Odorico Paraguaçu, o inesquecível personagem
de folhetim que encarnava o aspecto folclórico da política,
Joaquim Roriz repetiu o que dissera antes só
que, da tribuna, adicionou algumas lágrimas e muita
retórica. "Quem em sua vida nunca pediu um empréstimo
a um amigo?", disse. "Será que um senador não
poderia pedir um empréstimo a um amigo de longa data?",
repetiu. "Imaginem se pedir dinheiro emprestado é falta
de decoro. Meu Deus! A que ponto chegamos?" No discurso, Roriz
disse que pediu 300.000 reais ao seu amigo e empresário
Nenê Constantino, dono da Gol Linhas Aéreas,
para pagar uma bezerra. Constantino entregou um cheque de
2,2 milhões, Roriz sacou o dinheiro, reteve 300.000
reais e devolveu o restante, 1,9 milhão, ao empresário.
A novidade é que, se parte do dinheiro foi mesmo usada
para pagar uma bezerra, outra parte teve destino explosivo
serviu para subornar juízes do Tribunal Regional
Eleitoral que livraram Roriz de cassação em
2006.
Na semana passada,
VEJA conversou com um político que priva da intimidade
do senador e que ouviu a confissão do pagamento da
propina do próprio senador e não de terceiros.
Ele conta que, no começo de fevereiro passado, Joaquim
Roriz recebeu seu suplente, o ex-deputado distrital Gim Argello,
em sua casa. Conversaram sobre os boatos de que a decisão
pró-Roriz do TRE teria sido comprada. A certa altura,
travou-se o seguinte diálogo:
Argello
O Agnelo (refere-se a Agnelo Queiroz, ex-ministro e candidato
derrotado ao Senado) me disse que a decisão foi
comprada. É isso mesmo?
Roriz
É isso mesmo. Achei que o processo não ia
dar em nada, mas tivemos de resolver. Tivemos de comprar dois.
Conforme o relato
do político que detalhou o assunto a VEJA sob a condição
de manter-se anônimo, "comprar dois" significa subornar
dois juízes do TRE. Na mesma conversa, Roriz lembrou
ao interlocutor que o mandato de senador também lhe
pertencia. "O mandato também é seu, você
precisa me ajudar", apelou. "Tem de levantar 1,2 milhão",
detalhou. Roriz não explicou se 1,2 milhão de
reais era o valor total da propina dos dois juízes
ou se era a parte que faltava pagar. A solução
não demorou a surgir. No dia 13 de março, conforme
aparece no diálogo telefônico capturado pela
polícia, Roriz descontou o cheque de 2,2 milhões
de Nenê Constantino e, sabe-se agora, repassou pelo
menos 1,2 milhão aos juízes subornados. Isso
explica por que, na conversa grampeada, Roriz se recusa a
receber o dinheiro em sua própria casa, num carro-forte,
e explica que a partilha dos recursos envolve outras pessoas.
"O dinheiro é de muita gente", diz ele.
Paulo
de Araujo/CBPRESS
O suplente Gim Argello ouviu
a confissão de suborno: nada a comentar sobre propina
O caso que livrou Roriz da cassação foi julgado
em 23 de outubro, mas começou no dia 19 de setembro,
quando o Ministério Público o acusou de uso
político da máquina pública do governo
do Distrito Federal. Na época, Roriz deixara o cargo
de governador para concorrer ao Senado, e a estatal de abastecimento
de água, a Caesb, mudara em propagandas seu número
de atendimento telefônico de 115 para 151 número
de Roriz nas urnas. O placar do julgamento no TRE estava em
3 a 2 contra Roriz. Um juiz pediu vistas e, dias depois, quando
a sessão foi retomada, votou a favor de Roriz, cravando
um empate em 3 a 3. Antes que o presidente do tribunal desse
seu voto de Minerva, um dos juízes que votaram contra
Roriz subitamente mudou de idéia. Com isso, Roriz livrou-se
da cassação por 4 a 2. A virada no placar teria
custado pelo menos 1,2 milhão de reais. Procurado por
VEJA, o suplente Gim Argello confirmou o encontro com Roriz,
mas disse que não faria comentários a respeito
de pagamento de propina.
Na versão
oficial de Roriz, a sobra de 1,9 milhão não
virou propina para ninguém. Foi devolvida ao empresário
Nenê Constantino. VEJA perguntou ao empresário
o que ele fez com o 1,9 milhão de reais, mas o empresário
não respondeu. Roriz, por sua vez, alega que os 300
000 reais foram usados para pagar uma bezerra, de 271 000
reais, e a sobra de 29 000 reais foi emprestada a Benjamin
Roriz, seu primo, que estava com problemas de saúde
na família. O problema de Roriz é que a nota
fiscal que supostamente comprova o pagamento de 271.000 pela
bezerra está crivada de mistérios. A nota foi
emitida no dia 1º de março, o bicho foi entregue
no dia 3 e o pagamento foi feito apenas no dia 14. Por que
alguém entrega a mercadoria e a nota antes de receber
o dinheiro? Além disso, a nota informa a venda de "04"
animais, mas na versão de Roriz foi apenas uma bezerra.
Mais: na nota consta
o pagamento de 532.000 reais, mas Roriz diz que obteve um
desconto de 50%. O vendedor confirma. "Ele chorou muito e
eu dei o desconto de 50%", diz o pecuarista Márcio
Serva. Mas fica a pergunta: por que o vendedor faz uma nota
com um valor superior ao real? Para pagar mais imposto? Márcio
Serva não soube explicar. Por fim, a nota fiscal distribuída
à imprensa vem com um cabeçalho de fax em que
se lê a data de 30 de maio de 2005. Com base nessas
informações, deduz-se que nessa data a nota
foi enviada da empresa de Roriz para algum outro lugar
o que sugere que a nota, apresentada como sendo de agora,
é muito mais antiga. Isso é fraude. Os assessores
de Roriz dizem que o fax estava com defeito e informava data
e hora incorretas. Apesar do acúmulo de inconsistências
a respeito da nota fiscal, ainda assim não há
evidência concreta de que o negócio de 271.000
reais não tenha sido feito. O que parece certo é
que a parte do leão do dinheiro, o 1,9 milhão
de reais restantes, não foi para as mãos do
empresário Nenê Constantino, mas acabou azeitando
o propinoduto de Roriz. Haverá mais lágrimas
e mais retórica.