O professor chinês,
especialista em economias
latino-americanas, aconselha os brasileiros a
parar de reclamar e competir
Juliana Vale
Divulgação
"A economia chinesa
tem
participação pequena no
PIB mundial. Não dá para
culpar a China por tudo"
O professor Jiang
Shixue, 50 anos, atua em uma área nada comum na China:
é especialista em América Latina, tendo dedicado
as últimas três décadas ao estudo da economia
dos países da região. Conhecedor, portanto,
dos processos de desenvolvimento dos dois lados do mundo,
considera que o Brasil poderia ser o país do presente,
como a China, se reduzisse o desnível entre ricos e
pobres, investisse mais em educação e criasse
um modelo de crescimento próprio, como a China o fez.
Orgulhoso das conquistas chinesas nos últimos anos,
Jiang diz que Mao Tsé-tung ainda é seu maior
herói. Diretor da Academia Chinesa de Ciências
Sociais, autor de vários livros sobre a América
Latina e tradutor do brasilianista Thomas Skidmore, Jiang
viaja bastante, tendo assim acumulado um patrimônio
expressivo para os padrões locais. Casado, uma filha
(ela estuda finanças internacionais), Jiang, em bom
inglês, deu esta entrevista em seu escritório
em Pequim.
Veja O
que é que a China tem e o Brasil não tem? Jiang A China está
crescendo mais rápido simplesmente porque escolheu
um modelo de desenvolvimento que é compatível
com as condições nacionais chinesas. Cada país
deveria adotar um padrão que se adapte ao seu contexto
específico. Desde que começou a fazer reformas
econômicas, em 1978, com Deng Xiaoping, a China vem
abrindo as portas, mas manteve a liderança do Partido
Comunista. É o que nós chamamos "economia de
mercado socialista", um estado de coisas muito diferente do
brasileiro. O Brasil também não tem um mercado
tão grande quanto o nosso, de 1,3 bilhão de
pessoas. Os chineses também são muito inteligentes,
trabalham duro...
Veja O
senhor quer dizer que os brasileiros não são
inteligentes e não trabalham duro? Jiang Não,
não... Eu não estou dizendo que os cidadãos
de outros países são preguiçosos. Só
afirmo que os chineses são conhecidos mundo afora pela
força de trabalho. Somos formados pelo confucionismo,
por idéias morais rigorosas. Somos muito esforçados,
prestamos muita atenção na educação,
economizamos muito dinheiro. Isso, aliás, é
uma diferença enorme em comparação com
o Brasil. O seu país encoraja as pessoas a consumir.
Os brasileiros querem comer fora, sair, ir a festas, comprar.
Na China é diferente. As pessoas também consomem,
mas, de modo geral, tendemos a economizar para os dias difíceis.
Veja Na
fase em que a China ainda estudava outras experiências
mundiais para crescer, o "caso Brasil" foi considerado mas
não foi seguido. Por quê? Jiang As políticas
econômicas do Brasil, em geral, não são
compatíveis com as condições do país,
como as pesadas barreiras fiscais e as altas taxas de juro.
Essas medidas impedem o aumento de investimentos no país.
Falta certa estabilidade política também. Não
é que vocês tenham uma ocupação
militar ou uma guerra civil. Mas existe uma instabilidade
entre o governo federal e os estaduais. Até onde eu
sei, há certa rivalidade, competição
por benefícios econômicos. E, acima de tudo,
há os problemas sociais do Brasil, que são muito
sérios. A distribuição de renda é
terrível. Isso pode provocar problemas para a economia.
A criminalidade sobe, aumenta a corrupção, criam-se
obstáculos sociais.
Veja A
busca de uma "sociedade harmônica" de que tanto se fala
aqui é uma tentativa de impedir que os problemas sociais
se agravem? Jiang "Sociedade
harmônica" é o atual slogan político do
país. É uma noção de longo prazo,
lançada pelo Partido Comunista e pelo governo, que
se baseia na visão de mundo dos antigos filósofos
chineses, segundo a qual todos devem viver em relações
harmoniosas e ter padrões de vida parecidos. Desde
o início das reformas, o desenvolvimento social da
China tem sido mais lento que o econômico. As diferenças
são cada vez maiores. Há quem fique rico da
noite para o dia, enquanto cerca de 30 milhões de chineses
continuam pobres. Não acho que alguém aqui na
China está prevendo que esse modelo de sociedade harmônica
vá ser realidade em um prazo menor do que dez anos.
Na minha opinião, isso é bom. Dessa maneira
conseguiremos fazer girar as duas rodas da carroça,
a economia e a sociedade, na mesma velocidade.
Veja Seu
patrimônio pessoal cresceu nos últimos tempos? Jiang O meu e o
de todos os meus colegas. Está vendo os carros particulares
estacionados ali embaixo? Se você viesse aqui três,
cinco anos atrás, eles não estariam lá.
Hoje, falta espaço para estacionamento. Muitos colegas
estão comprando carros e casas. Há dois anos,
comprei uma casa nova, maior, e deixei a antiga para minha
filha. Muita gente mantém dois domicílios, um
menor e outro maior, fora do centro. Aliás, os preços
dos imóveis na China estão inflacionados. É
um dos sinais do aumento da riqueza das pessoas. Também
estamos começando a ter problemas de obesidade devido
ao excesso de comida. Já compramos mais roupas e mais
carros importados. Especialmente carros.
Veja
Em trinta anos, a China conseguiu baixar o analfabetismo
de 60% para 4%, criar um sistema educacional eficiente, posicionar
duas universidades entre as melhores do mundo e ter mais de
1,2 milhão de pesquisadores com doutorado. Esse modelo
é imitável? Jiang Investindo,
sim. Em plena era da globalização, do conhecimento
e da inovação científica, o nível
de investimento em pesquisa e desenvolvimento no Brasil ainda
é muito baixo. Certamente, mais baixo que o da China.
Um país em via de desenvolvimento não pode se
permitir isso. Precisa promover os talentos nacionais. Na
China, incentivamos os estudantes que vão para o Ocidente
a voltar e trabalhar aqui. Com a educação que
receberam lá fora, eles contribuem muito para o desenvolvimento
chinês.
Veja Dizem
que a vocação do Brasil é ser eternamente
o país do futuro. O senhor concorda? Jiang O Brasil
poderia ser o país do presente, como a China. Na minha
opinião, só não é ainda devido
aos problemas sociais. Há um potencial enorme de recursos
naturais e, per capita, o Brasil é bem mais rico que
a China. Economicamente, aliás, o Brasil vai bem. Quando
se compara o desempenho brasileiro com o de outros países
em desenvolvimento, a situação econômica
é boa. O país tem crescido. Cresceria mais se
não fosse tão dependente do capital externo.
É uma dependência problemática, como já
se viu em crises anteriores.
Veja Os
chineses são conhecidos pela visão de longo
prazo, o oposto dos brasileiros. Qual o peso dessa diferença? Jiang No que se
refere a relações comerciais, acho que negócio
é negócio, e todos se entendem. Na hora de fecharem
um acordo, os empresários brasileiros têm uma
visão de longo prazo, sim. Mas, no campo das diferenças
culturais entre os dois países, não me sinto
muito à vontade para dar uma opinião. Fui ao
Brasil duas vezes e nunca por mais de três dias. Para
conhecer realmente um país que não é
o seu, você precisa viver, trabalhar e conviver com
as pessoas. Talvez até se casar com alguém do
país.
Veja De
onde surgiu seu interesse pela América Latina? Jiang Não
fui eu quem escolheu nada. Quando me formei, em 1980, dois
anos depois de começarem as reformas econômicas
na China, ainda era o governo que decidia onde e como cada
recém-graduado ia trabalhar. Impuseram-me um emprego
como acadêmico, voltado para a América Latina,
e ponto. Para falar a verdade, nem sabia apontar o Caribe
no mapa-múndi. Desde então, fui me aprofundando
cada vez mais no assunto. Além do Brasil, já
estive na Argentina, no México, em Cuba e no Chile,
mas sempre em visitas curtas.
Veja O
Chile é citado como modelo de sucesso na região.
Ele é aplicável ao Brasil? Jiang O modelo chileno
é um sucesso tanto no aspecto econômico quanto
no social. Seu modelo é aplicável, sim, a qualquer
país vizinho, contanto que o governo esteja interessado
em se empenhar. O Chile faz girar harmonicamente as duas rodas,
ou seja, tem estabilidade econômica e constância
política. Além disso, os chilenos vêm
fazendo reformas desde o governo de Augusto Pinochet. Ou seja,
estão arrumando a casa duas décadas antes que
o Brasil. Os chilenos têm mais reservas, pois poupam
mais. Assim, dependem menos do capital estrangeiro. Prova
de que a situação do Chile é muito bem-vista
por todos ocorreu há alguns meses, durante uma conferência
em Tóquio sobre modelos de desenvolvimento. Os asiáticos
presentes compararam o Chile ao Sudeste Asiático, que
vem crescendo rapidamente. Já as Filipinas, que têm
mais problemas econômicos e sociais, foram comparadas
com o resto da América Latina.
Veja O
embaixador da China no Brasil, um grande conhecedor do país,
costuma dizer que os empresários brasileiros precisam
parar de reclamar e de ter medo de competir com a China. O
senhor concorda? Jiang De fato,
onde há luz do sol, há um produto chinês.
A China é realmente uma concorrência dura porque
nosso custo de produção é muito baixo.
Mas o mercado brasileiro não sofre pressão só
da China. A competição vem da Coréia
do Sul, dos Estados Unidos, do Japão e da Europa. Os
brasileiros não deveriam perder tempo reclamando. Deveriam
focar no seu potencial para competir melhor. Os empresários
chineses sofrem esse mesmo tipo de pressão competitiva
e reagem melhorando ainda mais.
Veja A
marca "made in China" é garantia de preço baixo,
mas não de qualidade. Isso pode mudar? Jiang A China
é membro da Organização Mundial do Comércio
e cada vez mais setores estão sendo abertos ao exterior.
Mas ainda não temos marcas internacionais conhecidas.
Há esforços coletivos do governo, dos
empresários, do meio acadêmico para mudar
essa situação. Não temos marcas com fama
internacional. A etiqueta "made in China" ainda é associada
a baixa qualidade e pirataria, e por causa disso temos de
vender 800 milhões de camisas para chegar a um valor
equivalente ao de um único Airbus. Em Beverly Hills,
Londres ou São Francisco, as grandes marcas vendem
produtos que foram fabricados aqui. Porém ninguém
compra as peças porque elas são chinesas, mas
porque são de determinada marca. O governo reconhece
o problema. Temos de melhorar a qualidade de fabricação
e o acompanhamento de pós-venda dos produtos chineses.
Vamos melhorar muito ainda a gestão das empresas, a
capacitação pessoal e continuar trabalhando
para melhorar nossa imagem externa. Internamente, vamos dar
incentivos fiscais a empresários chineses que se dispuserem
a competir fora do país.
Veja Alguns
setores vêem a China como um dos maiores motores da
economia mundial. Se entrar em pane, todo mundo entrará
junto. Há perigo? Jiang Não
acredito que a China seja um dos maiores motores da economia
do mundo. A China realmente está crescendo muito e
rápido, mas, comparada a outros países, ainda
é uma economia com participação de mercado
pequena na divisão do PIB mundial. Não dá
para culpar a China por tudo.
Veja Nas
suas viagens ao exterior para estudos e palestras o senhor
notou alguma mudança na maneira como era tratado dez
anos atrás e como é tratado agora? Jiang Sem dúvida.
Há dez anos, ninguém prestava atenção
na existência da China. Era um país a mais no
globo. Hoje, todos querem saber o que está acontecendo
aqui, como estamos vivendo, em que direção vamos,
como pretendemos nos relacionar com o resto do mundo. De repente,
passei a ser constantemente convidado para falar sobre a China
e sua relação com a América Latina em
conferências no exterior. Esse interesse pelo país
é notável. Mas, quanto ao conhecimento individual,
diria que ainda são poucos os que sabem o que é
a China. Veja um exemplo ocorrido em fevereiro: a China financiou
a construção de um estádio esportivo
em Granada, no Caribe. Na cerimônia de inauguração,
a banda, em vez de tocar o hino da República Popular
da China, tocou o da província de Taiwan. Imagine o
constrangimento. Estavam lá personalidades chinesas,
o embaixador... Quando estava no Brasil, também perguntei
a muitas pessoas o que sabiam sobre a China e só ouvia
que era um país enorme.
Veja Onde
o senhor vê seu país daqui a dez anos? Jiang Tenho orgulho
de dizer que vejo a China, no futuro, em condições
muito boas. Em dez anos, a economia estará maior. Vamos
melhorar nossa tecnologia, construir mais satélites.
O país será mais competitivo e terá um
melhor posicionamento internacional. Vamos estar mais próximos
das nossas metas de sociedade harmônica. A qualidade
de vida dos chineses vai subir.
Veja Não
é otimismo demais? Jiang Sou otimista
mesmo. Todos somos, na China.
Veja Se
fosse dar algum conselho aos brasileiros com base na experiência
chinesa, qual seria? Jiang Diria ao presidente
Lula para prestar mais atenção nos assuntos
sociais. Até gosto do programa Fome Zero, acho que
está caminhando na direção correta. Mas
ainda falta fazer muito mais em termos de saúde pública,
educação, transporte e reforma agrária.
É crucial resolver o problema dos sem-terra. E, para
crescer, o Brasil precisa rever o sistema de impostos, que
hoje é amigo dos ricos e inimigo dos pobres.