"Você, leitor, entregaria
seu filho,
que cometeu uma violência covarde,
para coisificar-se na barbárie das
prisões brasileiras?"
"Tchau, filho."
Foi assim que Ludovico Bruno se despediu do filho Rubens,
de 19 anos, que ajudou a espancar a doméstica Sirlei
Dias de Carvalho Pinto, no Rio de Janeiro. Com o filho partindo
a bordo de um carro de polícia, Ludovico, o pai, chorou,
passou a mão na cabeça, zanzou desorientado
e acabou dando uma declaração que provocou espanto
mais ou menos generalizado. Em defesa do filho, disse:
Eles cometeram
erro? Cometeram. Mas não vai ser justo manter presas
crianças que estão na faculdade, estudando,
trabalhando.
Ludovico Bruno
está errado? Ludovico Bruno está moralmente
obrigado a defender a prisão do filho? Ludovico Bruno
deve colocar a exigência de justiça acima do
sentimento paterno? A resposta: Ludovico Bruno está
perplexo e que atire a primeira pedra o pai que, numa
situação parecida, não caísse
na perplexidade e vacilasse entre defender o filho e a justiça.
Porque, no Brasil, há fortes razões para vacilar.
A primeira, a primeiríssima,
é que estamos no país da mais amarga impunidade.
Se Ludovico deve se perguntar ninguém
vai preso, se o assassino confesso da jornalista Sandra Gomide
está livre, se os senadores debocham do país
com explicações vergonhosas sobre seus milhões
aos borbotões, se as quadrilhas do mensalão,
dos vampiros, dos sanguessugas estão todas livres e
leves e soltas, por que o meu filho deve ser preso? Por que
só o meu filho?
Eis a distorção
que a impunidade causa. Claro que não há dúvida
sobre a necessidade, a correção e a importância
da punição a Rubens Bruno e a seus comparsas
por espancarem covardemente uma mulher indefesa numa parada
de ônibus. Isso não está em discussão.
O que está em discussão, o que deve resultar
em reflexão, é a perplexidade de um pai mediante
a iminente punição de seu filho num país
em que a impunidade é uma regra repulsiva. E, mesmo
aceitando a punição, qual a punição
adequada? Cadeia?
Eis a segunda razão
para a perplexidade de Ludovico: prisão para quê?
Se Ludovico deve se perguntar ninguém
vai preso, se as prisões do país são
desumanas, por que o meu filho, só o meu filho, deve
ser enviado a essa sucursal do inferno? É com prisões
assim, transbordando de crueldade e rebaixando homens a animais,
que se quer pais entregando filhos criminosos à polícia
em nome da justiça? Você, leitor, entregaria
seu filho, que cometeu uma violência covarde, para coisificar-se
na barbárie das prisões brasileiras?
A sociedade brasileira
está se especializando em hipocrisia. O espancamento
da doméstica produziu a mais recente: solidarizar-se
com ela é imperioso, mas, em paralelo, xingar o pai
pela defesa do filho é uma hipocrisia em um
país, repita-se, em que se combinam impunidade debochada
e prisões desumanas.
Ainda que punição
boa seja sempre para os outros, para o filho dos outros, é
preciso reconhecer que só seremos um país capaz
de se espantar com a declaração de Ludovico
no dia em que criminosos, de gravata ou de chinelo, acabarem
na cadeia pelos crimes que cometerem e a cadeia for
um local de punição, sim, mas não de
selvageria.