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Edição 1 707 - 4 de julho de 2001
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DVD

Divulgação
Barenboim: Beethoven digital

Beethoven: the Symphonies, Daniel Barenboim e Ópera Estatal de Berlim (WEA) – Os especialistas em música clássica costumam afirmar que um dos talentos do austríaco Herbert von Karajan, além de reger com brilhantismo, era acompanhar as revoluções tecnológicas e de mercado. Karajan gravou as sinfonias de Beethoven três vezes, em edições que iam do bolachão de vinil ao CD, passando pelas fitas VHS. O israelense Daniel Barenboim mostra ter o mesmo faro mercadológico. Ele é o primeiro regente a lançar a íntegra das sinfonias de Beethoven em DVD Audio. Esse novo formato proporciona ao ouvinte a sensação de estar no meio da orquestra, tal a sua precisão e alta fidelidade. Os seis discos podem ser tocados tanto em um aparelho de DVD comum – acoplado a um bom conjunto de som – quanto nos específicos para DVD Audio. À frente da orquestra da Ópera Estatal de Berlim, Barenboim mostra seu virtuosismo principalmente nas sinfonias 6 e 9. Os discos trazem uma entrevista com o maestro e dados biográficos sobre Beethoven.

 

DISCO

Marcos Hermes
Bacharach: cinqüenta hits do rei da melodia

The Look of Love: the Burt Bacharach Collection, vários intérpretes (WEA) – Um dos grandes melodistas surgidos na história da música americana, Bacharach já foi muito injustiçado pela crítica. Tacharam suas composições de insossas e superficiais, o que simplesmente não é verdade. Tanto assim que Bacharach é hoje reverenciado por artistas de diferentes tendências – a lista vai de Elvis Costello aos rapazes do Oasis. The Look of Love traz cinqüenta hits do quilate de Raindrops Keep Fallin' on My Head. Misturando jazz e bossa nova, as canções são interpretadas pela fina flor da música pop de décadas passadas – como Dusty Springfield, Aretha Franklin, Dionne Warwick e Karen Carpenter.

 

TELEVISÃO

Stanley Kubrick: uma Vida Quadro a Quadro (domingos 8, 15 e 22 de julho, às 22h, no HBO) – Esse documentário em três episódios é uma biografia à altura do diretor de 2001 – Uma Odisséia no Espaço. Foi realizado por Jan Harlan, cunhado e ex-colaborador do cineasta, e teve apoio da viúva de Kubrick, Christiane, que cedeu imagens inéditas do diretor na vida doméstica e no set de filmagens. Uma Vida Quadro a Quadro vai fundo na tarefa de entender um criador com fama de perfeccionista, surpreendente a cada filme e inflexível em suas convicções. Investiga, sobretudo, como Kubrick – morto em 1999, aos 70 anos – conseguiu equilibrar-se tão habilmente entre o sucesso comercial e a excelência artística. Há depoimentos de celebridades, de Steven Spielberg a Woody Allen, e curiosidades de bastidores – como o modo afável com que Kubrick convidava quem o desobedecia a se retirar do recinto e sua mania de repetir uma mesma cena dezenas de vezes. Uma iguaria para os cinéfilos.

 

LIVRO

Walter Firmo
João Antônio: contos sobre a marginália

Abraçado ao Meu Rancor, de João Antônio (Cosac & Naify, 206 páginas, 24 reais) – Assim como Rubem Fonseca, o escritor e jornalista paulista João Antônio despontou na literatura nos anos 60 e fez do linguajar das ruas e dos tipos marginais a sua matéria-prima. As semelhanças, porém, cessam aí. Mais romântico e nostálgico, João Antônio deixava transparecer o gosto pela velha boemia em seus textos e morreu meio solitário, em 1996, aos 59 anos. Essa reedição de um de seus últimos livros demonstra que sua prosa forte e repleta de gírias continua afiada. São dez contos em que o escritor, de origem humilde, narra o cotidiano de mendigos, bêbados e prostitutas. Mas é também sua obra de maior "abertura", com espaço para personagens da classe alta e um enredo que se passa na Holanda.

 

CINEMA

Sunshine: história da Hungria

Sunshine – O Despertar de um Século (Sunshine, Hungria/Alemanha/Áustria/
Canadá, 1999. A partir de sexta-feira em São Paulo e no Rio) – Desde Mephisto e Coronel Redl, o cineasta húngaro István Szabó não lançava um trabalho tão ambicioso e tão bem realizado quanto Sunshine, que conta a trajetória de sucessivas gerações na família judia Sonnenschein. Ou, mais propriamente, a história da Hungria (e do anti-semitismo) desde meados do século XIX, passando pelas duas grandes guerras mundiais, pela incorporação ao bloco soviético e pela frustrada revolução anticomunista de 1956. Seria para aborrecer até o mais dedicado dos espectadores (ainda mais considerando-se as três horas de duração), não fosse a invejável habilidade narrativa de Szabó. O único senão é Ralph Fiennes, que interpreta três personagens e definitivamente não consegue alcançar a versatilidade que a tarefa pede.

 

LITERATURA BRASILEIRA

As Cinco Estações do Amor
João Almino;
Record;
204 páginas;
24 reais

Se o rock de Brasília foi obra de uma geração, a ficção de Brasília, até o momento, é obra de um homem só: o escritor e diplomata João Almino, de 51 anos. Seu novo romance, As Cinco Estações do Amor, dá seguimento a Idéias para Onde Passar o Fim do Mundo (1987) e Samba-Enredo (1994). Nas palavras do autor, fecha uma trilogia que tem a capital brasileira como cenário – não a cidade monumental, mas aquela que aspira a ser igual a todas as outras, com seus migrantes, seus jovens, seus intelectuais, seus ricos e pobres. Os três livros podem ser lidos de maneira independente, embora temas e personagens sejam comuns a eles. Temas como as promessas não cumpridas da modernidade, e personagens como Ana, secundária em Samba-Enredo e agora alçada à posição de narradora. Uma linguagem sem floreios – simples, embora não seca – também é usada nos três. Mas mudam algumas coisas.

A forma de narração é mais linear nesse livro do que nos outros. E o tom, antes zombeteiro, agora é tingido de melancolia, o que se torna adequado ao enredo: às vésperas do ano 2000, um grupo de amigos, que se formou no final dos anos 60, trama um reencontro. Todos vivem a meia-idade. A narradora, mais que isso, a crise proverbial associada a essa fase. "Minha juventude está perdida. A Brasília de meu sonho de futuro está morta. Reconheço-me nas fachadas de seus prédios precocemente envelhecidos, na sua modernidade precária e decadente", diz ela. João Almino, porém, reserva surpresas ao leitor – como o surgimento de Norberto, ou Berta, um dos amigos da turma agora convertido em travesti. Em As Cinco Estações do Amor, todo o peso das frustrações e esperanças dos personagens é posto não mais em grandes projetos e ideologias, mas nas muitas tramas possíveis do amor, da amizade e do sexo. Se existe revolução possível, estará ela na intimidade? Essa parece ser a idéia – ou a polêmica – por trás desse belo romance, que só na superfície é convencional.

Carlos Graieb

   
 




Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel, Siciliano, Fnac; Rio: Saraiva, Laselva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre, Siciliano; Brasília: Sodiler, Siciliano, Saraiva, Leitura; Maceió: Sodiler; Recife: Sodiler, Saraiva, Siciliano; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano; Fortaleza: Siciliano, Laselva; Salvador: Siciliano; Curitiba: Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Siciliano, Leitura.

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