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Edição 1 707 - 4de julho de 2001
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O charlatão bolivariano

O coronel Chávez ameaça até
com o uso de armas, mas não
consegue reerguer a Venezuela

Raul Juste Lores, de Caracas

Reuters
O presidente Chávez, entre seu eleitorado: sucesso com os mais pobres, raiva dos ricos


Poderia ser o Domingão do Chávez, mas se chama Alô, Presidente. É o programa mais polêmico e, dizem, o mais divertido nos domingos da TV venezuelana. Nele, Hugo Chávez, 46 anos, presidente da Venezuela, atende a telefonemas dos telespectadores e se emociona com relatos de gente humilde com uma desenvoltura de dar inveja a Silvio Santos. No Dia dos Namorados derramou-se em declarações de amor à mulher. Faz um resumo de suas atividades presidenciais e delicia a audiência com detalhes de suas 66 viagens internacionais por 45 países em pouco mais de dois anos, com a linguagem mais simples possível, e aproveita para xingar adversários de "canalhas e bastardos". Chávez não se limita às incursões dominicais. Ele interrompe novelas, durante a semana, mesmo quando está em viagem, em pronunciamentos por cadeia de rádio e TV que se estendem por até quatro horas, cada vez mais tentando parecer-se com seu ídolo Fidel Castro. Nesses pronunciamentos, divulga projetos que sempre significam mais poder para ele e menos espaço para qualquer um que lhe possa fazer frente. Ao contrário do que se pode imaginar, o povão adora.

"Apesar de pouca coisa ter mudado, ele fala nossa língua. Não esperamos que mude o país de uma hora para outra depois de décadas de corrupção. Ele tem boas intenções", descreve o líder comunitário Vicente Páez, do distrito de Petare, subúrbio de Caracas, onde moram quase 500.000 favelados, em sua maioria eleitores de Chávez. O índice de popularidade do coronel golpista que acabou eleito nas urnas bate hoje nos 59%, um número de matar de inveja os presidentes dos países vizinhos. Quarenta anos de governos democráticos corruptos e ineficientes não conseguiram transformar a Venezuela em uma nação rica. O país é uma das potências petrolíferas mundiais e, no entanto, 80% de sua população é constituída de gente pobre. Com essa experiência negativa a respeito de governos democráticos, a Venezuela resolveu botar fé no coronel Chávez, um político carismático e de discurso inflamado contra os ricos.


Tirando proveito da idolatria ao herói da independência do país, Simon Bolívar, ele faz suas aparições televisivas com a imagem de Bolívar ao fundo e arranja sempre um jeito de rebatizar como "bolivariano" tudo que esteja ao alcance: Constituição bolivariana, sistema educativo bolivariano e até o nome oficial do país mudou para República Bolivariana da Venezuela. Na prática, o bolivarianismo não quer dizer coisa nenhuma e é tão vazio de conteúdo quanto o Alô, Presidente. No país que conseguiu ganhar nove vezes os concursos de miss Universo e miss Mundo e onde essas beldades podem até ingressar na carreira política, o presidente Chávez ainda é uma estrela.

Se entre os pobres Chávez é tido como um novo Bolívar, ou como um Robin Hood latino, a classe média e a alta já descobriram que ele é mais um populista ao estilo latino-americano, com discurso no modelo do nacionalismo esquerdista dos anos 50 e 60. Faz críticas à globalização e ao imperialismo americano e vende aos Estados Unidos mais da metade do petróleo exportado pelo país. Elogia países que não entendem muito de democracia, como Iraque, Cuba e Irã, dos quais se aproximou recentemente. De Fidel Castro, virou até amigo.

A Venezuela ficou imune, desde 1958, às ditaduras militares que assolavam a América do Sul. Depois do impeachment do ex-presidente Carlos Andrés Pérez, por corrupção, e do fracasso do governo de Rafael Caldera em reerguer a economia do país, os venezuelanos quiseram uma virada radical. Com tanta aprovação popular, Chávez venceu os cinco plebiscitos que convocou para acumular poderes. Fechou o Congresso, convocou uma assembléia constituinte para fazer uma nova Constituição (chamada de bolivariana, por supuesto), elegeu-se novamente em julho passado para um novo mandato de seis anos, extinguiu o Senado e conseguiu intervir nas eleições da maior central sindical do país. Ao mesmo tempo, substituiu 90% dos juízes e 80% dos executivos da PDVSA, a gigante estatal do petróleo. Chávez colocou militares amigos, a maioria sem nenhuma experiência administrativa, em vários cargos nos ministérios, no banco central e nas estatais.

Reuters
Chávez joga beisebol com seu ídolo Fidel Castro

O temor, tanto na Venezuela como entre os vizinhos, é sobre como Chávez governaria até 2006 caso viesse a perder a popularidade. Nessa situação, teria de dialogar com os opositores, e isso ele não sabe fazer. Em maio, afirmou que se a "revolução bolivariana" não puder ser realizada de forma pacífica, será levada a cabo com o uso de armas. "O regime se sustenta em três pilares: a popularidade de Chávez, o apoio militar e o alto preço do barril de petróleo. Ninguém sabe o que pode acontecer se algum desses pilares ruir", explica o professor Carlos Romero, vice-diretor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Central da Venezuela. No início do ano, o presidente tentou impor supervisores nomeados pelo governo nas escolas particulares, com poder para perseguir professores que não sigam a "educação bolivariana" – um modelo que está sendo planejado por um ex-guerrilheiro e que utilizará textos e livros produzidos em Cuba. Houve protestos tão barulhentos que o presidente deixou o assunto de lado. Mas 500 escolas públicas já são dirigidas por militares. "Seu discurso é de confronto, é de bons contra malvados. Parece quase autorizar a violência dos mais pobres", define o historiador Manuel Caballero, autor de A Gestação de Chávez. O presidente já foi acusado de colaborar com movimentos guerrilheiros da Colômbia e de El Salvador e, recentemente, de abrigar o foragido chefe do serviço secreto peruano Vladimiro Montesinos, acusado de narcotráfico e corrupção, que foi detido em Caracas na semana passada.


Mesmo com tanto poder na mão e depois de tantas reformas, o coronel Chávez não conseguiu fazer a economia venezuelana acordar. O país só não é miserável porque dorme, literalmente, em cima de petróleo. Tem a maior reserva do mundo, depois da Arábia Saudita. Apesar de o barril de petróleo valer hoje o triplo do que valia no início de 1998, isso não provocou nenhum impacto visível na Venezuela. "Há um clima de incerteza que desestimula novos investimentos, tanto internos quanto externos", diz o presidente da Câmara Venezuela-EUA de Comércio e Indústria, Pedro Palma. A indústria funciona a menos de 50% da capacidade instalada, e hoje são cultivados somente dois terços das terras que eram produtivas dez anos atrás. Com apenas 5 milhões de habitantes nos anos 50, a Venezuela recebeu milhões de imigrantes nas duas décadas seguintes. Graças ao petróleo, havia relativa abundância no país. As empregadas domésticas eram, em sua maioria, estrangeiras. Hoje, com 24 milhões de habitantes, a Venezuela tem um índice de desemprego de 15%.

Caracas é um retrato desse tobogã econômico. No anos 50 e 70, quando o petróleo estava em alta, a cidade ganhou obras dignas de Primeiro Mundo. Foram erguidos vários arranha-céus na cidade, o Museu de Arte Contemporânea da capital foi recheado de obras de Picasso, Miró e Kandinsky, e o eficiente sistema de metrô foi construído. Hoje os tempos são outros. A Venezuela teve governos incompetentes e corruptos. Para piorar as coisas, sofreu uma recessão nos anos 90. Com tudo isso, a Caracas que experimentou certo desabrochamento no passado está agora ocupada por prédios em mau estado de conservação e há mais de 1 milhão de favelados na região metropolitana da capital. A violência na cidade cresceu junto com a decadência: a cada fim de semana, há mais de trinta assassinatos em Caracas, uma taxa per capita maior que a de São Paulo ou Rio de Janeiro. Com mais discurso que ação, o coronel golpista ainda não conseguiu colocar ordem nesse cenário desolador.

 
 
   
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