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O charlatão
bolivariano
O
coronel Chávez ameaça até
com o uso de armas, mas não
consegue reerguer a Venezuela
Raul
Juste Lores, de Caracas
Reuters
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| O
presidente Chávez, entre seu eleitorado: sucesso com os mais pobres,
raiva dos ricos |
Poderia
ser o Domingão do Chávez, mas se chama Alô,
Presidente. É o programa mais polêmico e, dizem, o mais
divertido nos domingos da TV venezuelana. Nele, Hugo Chávez, 46
anos, presidente da Venezuela, atende a telefonemas dos telespectadores
e se emociona com relatos de gente humilde com uma desenvoltura de dar
inveja a Silvio Santos. No Dia dos Namorados derramou-se em declarações
de amor à mulher. Faz um resumo de suas atividades presidenciais
e delicia a audiência com detalhes de suas 66 viagens internacionais
por 45 países em pouco mais de dois anos, com a linguagem mais
simples possível, e aproveita para xingar adversários de
"canalhas e bastardos". Chávez não se limita às incursões
dominicais. Ele interrompe novelas, durante a semana, mesmo quando está
em viagem, em pronunciamentos por cadeia de rádio e TV que se estendem
por até quatro horas, cada vez mais tentando parecer-se com seu
ídolo Fidel Castro. Nesses pronunciamentos, divulga projetos que
sempre significam mais poder para ele e menos espaço para qualquer
um que lhe possa fazer frente. Ao contrário do que se pode imaginar,
o povão adora.
"Apesar
de pouca coisa ter mudado, ele fala nossa língua. Não esperamos
que mude o país de uma hora para outra depois de décadas
de corrupção. Ele tem boas intenções", descreve
o líder comunitário Vicente Páez, do distrito de
Petare, subúrbio de Caracas, onde moram quase 500.000 favelados,
em sua maioria eleitores de Chávez. O índice de popularidade
do coronel golpista que acabou eleito nas urnas bate hoje nos 59%, um
número de matar de inveja os presidentes dos países vizinhos.
Quarenta anos de governos democráticos corruptos e ineficientes
não conseguiram transformar a Venezuela em uma nação
rica. O país é uma das potências petrolíferas
mundiais e, no entanto, 80% de sua população é constituída
de gente pobre. Com essa experiência negativa a respeito de governos
democráticos, a Venezuela resolveu botar fé no coronel Chávez,
um político carismático e de discurso inflamado contra os
ricos.
Tirando
proveito da idolatria ao herói da independência do país,
Simon Bolívar, ele faz suas aparições televisivas
com a imagem de Bolívar ao fundo e arranja sempre um jeito de rebatizar
como "bolivariano" tudo que esteja ao alcance: Constituição
bolivariana, sistema educativo bolivariano e até o nome oficial
do país mudou para República Bolivariana da Venezuela. Na
prática, o bolivarianismo não quer dizer coisa nenhuma e
é tão vazio de conteúdo quanto o Alô, Presidente.
No país que conseguiu ganhar nove vezes os concursos de miss Universo
e miss Mundo e onde essas beldades podem até ingressar na carreira
política, o presidente Chávez ainda é uma estrela.
Se entre os pobres Chávez é tido como um novo Bolívar,
ou como um Robin Hood latino, a classe média e a alta já
descobriram que ele é mais um populista ao estilo latino-americano,
com discurso no modelo do nacionalismo esquerdista dos anos 50 e 60. Faz
críticas à globalização e ao imperialismo
americano e vende aos Estados Unidos mais da metade do petróleo
exportado pelo país. Elogia países que não entendem
muito de democracia, como Iraque, Cuba e Irã, dos quais se aproximou
recentemente. De Fidel Castro, virou até amigo.
A Venezuela ficou imune, desde 1958, às ditaduras militares que
assolavam a América do Sul. Depois do impeachment do ex-presidente
Carlos Andrés Pérez, por corrupção, e do fracasso
do governo de Rafael Caldera em reerguer a economia do país, os
venezuelanos quiseram uma virada radical. Com tanta aprovação
popular, Chávez venceu os cinco plebiscitos que convocou para acumular
poderes. Fechou o Congresso, convocou uma assembléia constituinte
para fazer uma nova Constituição (chamada de bolivariana,
por supuesto), elegeu-se novamente em julho passado para um novo
mandato de seis anos, extinguiu o Senado e conseguiu intervir nas eleições
da maior central sindical do país. Ao mesmo tempo, substituiu 90%
dos juízes e 80% dos executivos da PDVSA, a gigante estatal do
petróleo. Chávez colocou militares amigos, a maioria sem
nenhuma experiência administrativa, em vários cargos nos
ministérios, no banco central e nas estatais.
Reuters
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| Chávez
joga beisebol com seu ídolo Fidel Castro |
O
temor, tanto na Venezuela como entre os vizinhos, é sobre como
Chávez governaria até 2006 caso viesse a perder a popularidade.
Nessa situação, teria de dialogar com os opositores, e isso
ele não sabe fazer. Em maio, afirmou que se a "revolução
bolivariana" não puder ser realizada de forma pacífica,
será levada a cabo com o uso de armas. "O regime se sustenta em
três pilares: a popularidade de Chávez, o apoio militar e
o alto preço do barril de petróleo. Ninguém sabe
o que pode acontecer se algum desses pilares ruir", explica o professor
Carlos Romero, vice-diretor do Instituto de Estudos Políticos da
Universidade Central da Venezuela. No início do ano, o presidente
tentou impor supervisores nomeados pelo governo nas escolas particulares,
com poder para perseguir professores que não sigam a "educação
bolivariana" um modelo que está sendo planejado por um ex-guerrilheiro
e que utilizará textos e livros produzidos em Cuba. Houve protestos
tão barulhentos que o presidente deixou o assunto de lado. Mas
500 escolas públicas já são dirigidas por militares.
"Seu discurso é de confronto, é de bons contra malvados.
Parece quase autorizar a violência dos mais pobres", define o historiador
Manuel Caballero, autor de A Gestação de Chávez.
O presidente já foi acusado de colaborar com movimentos guerrilheiros
da Colômbia e de El Salvador e, recentemente, de abrigar o foragido
chefe do serviço secreto peruano Vladimiro Montesinos, acusado
de narcotráfico e corrupção, que foi detido em Caracas
na semana passada.
Mesmo
com tanto poder na mão e depois de tantas reformas, o coronel Chávez
não conseguiu fazer a economia venezuelana acordar. O país
só não é miserável porque dorme, literalmente,
em cima de petróleo. Tem a maior reserva do mundo, depois da Arábia
Saudita. Apesar de o barril de petróleo valer hoje o triplo do
que valia no início de 1998, isso não provocou nenhum impacto
visível na Venezuela. "Há um clima de incerteza que desestimula
novos investimentos, tanto internos quanto externos", diz o presidente
da Câmara Venezuela-EUA de Comércio e Indústria, Pedro
Palma. A indústria funciona a menos de 50% da capacidade instalada,
e hoje são cultivados somente dois terços das terras que
eram produtivas dez anos atrás. Com apenas 5 milhões de
habitantes nos anos 50, a Venezuela recebeu milhões de imigrantes
nas duas décadas seguintes. Graças ao petróleo, havia
relativa abundância no país. As empregadas domésticas
eram, em sua maioria, estrangeiras. Hoje, com 24 milhões de habitantes,
a Venezuela tem um índice de desemprego de 15%.
Caracas é um retrato desse tobogã econômico. No anos
50 e 70, quando o petróleo estava em alta, a cidade ganhou obras
dignas de Primeiro Mundo. Foram erguidos vários arranha-céus
na cidade, o Museu de Arte Contemporânea da capital foi recheado
de obras de Picasso, Miró e Kandinsky, e o eficiente sistema de
metrô foi construído. Hoje os tempos são outros. A
Venezuela teve governos incompetentes e corruptos. Para piorar as coisas,
sofreu uma recessão nos anos 90. Com tudo isso, a Caracas que experimentou
certo desabrochamento no passado está agora ocupada por prédios
em mau estado de conservação e há mais de 1 milhão
de favelados na região metropolitana da capital. A violência
na cidade cresceu junto com a decadência: a cada fim de semana,
há mais de trinta assassinatos em Caracas, uma taxa per capita
maior que a de São Paulo ou Rio de Janeiro. Com mais discurso que
ação, o coronel golpista ainda não conseguiu colocar
ordem nesse cenário desolador.
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