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Corpos
saqueados
Médico
conta como são
roubados
órgãos de
presos executados
AFP
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| Narcotraficantes
condenados em julgamento-show: equipe médica de plantão para aproveitar
o corpo |
Festivais
de execuções sumárias são rotineiros na China,
onde crimes como roubo e corrupção são punidos com
a pena de morte. Na semana passada, teve-se a confirmação
de uma antiga suspeita: o tiro na nuca é a senha para outro festival
de horror. Em depoimento a um comitê do Congresso americano, Wang
Guoqi, um médico chinês que busca asilo nos Estados Unidos,
contou que os condenados têm os rins, as córneas e até
a pele retirados logo após a execução, alimentando
um lucrativo tráfico de órgãos para transplante.
O condenado é morto sem saber que seu corpo será retalhado,
sua família nem sequer é consultada e, como é
praxe, paga a bala usada na execução. Como o corpo é
cremado logo em seguida, as marcas do roubo de órgãos literalmente
viram cinzas.
Especialista em queimaduras de um hospital militar, Wang admitiu ter retirado
a pele de pernas, braços e costas de mais de 100 executados. Em
um incidente que mostra como o saque de órgãos é
banal na China, o médico descreveu como um condenado teve os rins
arrancados enquanto ainda agonizava, depois de ser alvejado na cabeça.
Ainda vivo, mas já privado de rins, córneas e pedaços
de pele, ele foi embrulhado em plástico e levado embora num caminhão
militar. O esquema é tolerado porque envolve uma rede de funcionários
de vários setores públicos. Como numa operação
comercial, os valores são tabelados. Começa em 37 dólares,
preço cobrado pelo guarda que executa o condenado. Cabe a ele avisar
a equipe do hospital sobre a hora e o local em que um "doador" deverá
morrer. Se o receptador precisar de rim, o tiro é na nuca. Se a
prioridade for córneas, o disparo é no peito para não
pôr em risco a mercadoria. No fim do novelo está o receptador,
em geral estrangeiros de países vizinhos, como Malásia,
Indonésia, Cingapura, que se internam em hospitais chineses e estão
dispostos a pagar até 15.000 dólares por um rim saudável.
Há ainda o mercado paralelo de córneas, congeladas para
ser vendidas depois no exterior.
As
primeiras denúncias surgiram há anos, por meio de dissidentes.
O governo chinês sempre negou a acusação negativa
repetida na semana passada. Afirma, com orgulho, ter realizado 25.000
transplantes nos últimos vinte anos, todos com consentimento dos
doadores ou de suas famílias. As denúncias cresceram na
mesma proporção em que aumentaram as execuções.
No início da semana passada, para comemorar o dia internacional
de luta contra as drogas, 57 acusados foram condenados à morte
em várias partes do país. Em Kunming, na província
sulina de Yunnan, o julgamento de vinte traficantes ocorreu num estádio
lotado, com transmissão ao vivo pela TV. Após receber a
sentença, os traficantes foram levados a um local próximo
para ser executados com um tiro na nuca.
No ano passado, um grupo de dez doentes renais da Malásia organizou
uma excursão à China. Hospedados num hospital militar, cada
um pagou 10.000 dólares por um rim, uma pechincha. Elogiaram o
tratamento vip dos médicos chineses, que admitiram abertamente
a origem dos órgãos. Em maio, o médico Thomas Diflo,
diretor de transplantes renais do Centro Médico da Universidade
de Nova York, repetiu a denúncia. Segundo ele, uma antiga paciente
que fazia hemodiálise apareceu de rim novo. A moça, de origem
asiática, confirmou ter comprado o órgão na China,
onde fez o transplante. Wang é o primeiro médico chinês
a confirmar o esquema. Como a denúncia serviu de argumento para
o pedido de asilo, alguns deputados americanos chegaram a colocar em dúvida
seu depoimento. Mas, por precaução, estudam aprovar uma
lei que impeça médicos chineses especializados em transplante
de fazer estágio nos Estados Unidos.
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