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Edição 1 707 - 4de julho de 2001
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Corpos saqueados

Médico conta como são roubados
órgãos
de presos executados


AFP
Narcotraficantes condenados em julgamento-show: equipe médica de plantão para aproveitar o corpo

Festivais de execuções sumárias são rotineiros na China, onde crimes como roubo e corrupção são punidos com a pena de morte. Na semana passada, teve-se a confirmação de uma antiga suspeita: o tiro na nuca é a senha para outro festival de horror. Em depoimento a um comitê do Congresso americano, Wang Guoqi, um médico chinês que busca asilo nos Estados Unidos, contou que os condenados têm os rins, as córneas e até a pele retirados logo após a execução, alimentando um lucrativo tráfico de órgãos para transplante. O condenado é morto sem saber que seu corpo será retalhado, sua família nem sequer é consultada – e, como é praxe, paga a bala usada na execução. Como o corpo é cremado logo em seguida, as marcas do roubo de órgãos literalmente viram cinzas.

Especialista em queimaduras de um hospital militar, Wang admitiu ter retirado a pele de pernas, braços e costas de mais de 100 executados. Em um incidente que mostra como o saque de órgãos é banal na China, o médico descreveu como um condenado teve os rins arrancados enquanto ainda agonizava, depois de ser alvejado na cabeça. Ainda vivo, mas já privado de rins, córneas e pedaços de pele, ele foi embrulhado em plástico e levado embora num caminhão militar. O esquema é tolerado porque envolve uma rede de funcionários de vários setores públicos. Como numa operação comercial, os valores são tabelados. Começa em 37 dólares, preço cobrado pelo guarda que executa o condenado. Cabe a ele avisar a equipe do hospital sobre a hora e o local em que um "doador" deverá morrer. Se o receptador precisar de rim, o tiro é na nuca. Se a prioridade for córneas, o disparo é no peito para não pôr em risco a mercadoria. No fim do novelo está o receptador, em geral estrangeiros de países vizinhos, como Malásia, Indonésia, Cingapura, que se internam em hospitais chineses e estão dispostos a pagar até 15.000 dólares por um rim saudável. Há ainda o mercado paralelo de córneas, congeladas para ser vendidas depois no exterior.


As primeiras denúncias surgiram há anos, por meio de dissidentes. O governo chinês sempre negou a acusação – negativa repetida na semana passada. Afirma, com orgulho, ter realizado 25.000 transplantes nos últimos vinte anos, todos com consentimento dos doadores ou de suas famílias. As denúncias cresceram na mesma proporção em que aumentaram as execuções. No início da semana passada, para comemorar o dia internacional de luta contra as drogas, 57 acusados foram condenados à morte em várias partes do país. Em Kunming, na província sulina de Yunnan, o julgamento de vinte traficantes ocorreu num estádio lotado, com transmissão ao vivo pela TV. Após receber a sentença, os traficantes foram levados a um local próximo para ser executados com um tiro na nuca.

No ano passado, um grupo de dez doentes renais da Malásia organizou uma excursão à China. Hospedados num hospital militar, cada um pagou 10.000 dólares por um rim, uma pechincha. Elogiaram o tratamento vip dos médicos chineses, que admitiram abertamente a origem dos órgãos. Em maio, o médico Thomas Diflo, diretor de transplantes renais do Centro Médico da Universidade de Nova York, repetiu a denúncia. Segundo ele, uma antiga paciente que fazia hemodiálise apareceu de rim novo. A moça, de origem asiática, confirmou ter comprado o órgão na China, onde fez o transplante. Wang é o primeiro médico chinês a confirmar o esquema. Como a denúncia serviu de argumento para o pedido de asilo, alguns deputados americanos chegaram a colocar em dúvida seu depoimento. Mas, por precaução, estudam aprovar uma lei que impeça médicos chineses especializados em transplante de fazer estágio nos Estados Unidos.



 
 
   
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