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Os papéis do
presidente
O Jango
desanimado e fraco
que se vê em cartas pessoais
e em documentos dos EUA

Diogo Schelp
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Cartas
de políticos reclamando da ausência de Jango no cenário
político e ameaça de rompimento do noivado |
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Em certas
situações, detalhes sobre governos e governantes ficam mais
evidentes quanto mais de longe se olha para eles. No caso do ex-presidente
João Goulart, deposto pelos militares em março de 1964,
essa é uma regra que se confirma cada vez que se encontra um documento
da época. Na última leva de papéis disponível,
Jango pode ser encarado por dois ângulos. Por um deles, exposto
em relatórios, memorandos e telegramas liberados à consulta
nos Estados Unidos, acham-se novas evidências de que diplomatas
daquele país alimentavam a hipótese da deposição
mais de um ano antes que ela viesse a acontecer. Pelo outro ângulo,
que resulta de uma mala de cartas do ex-presidente guardada por um antigo
admirador, vê-se um homem entusiasmado com os prazeres mundanos
e chamado aos deveres pelos companheiros políticos.
Num memorando
datado de novembro de 1962, descoberto pelo pesquisador brasileiro Sérgio
Marley Modesto Monteiro nos Arquivos Nacionais, em Washington, encontra-se
a descrição de uma estratégia americana diante de
Goulart, na forma como foi aprovada pelo então secretário
assistente para assuntos latino-americanos do Departamento de Estado,
Edwin Martin: "Promover a mobilização de uma forte e bem
distribuída resistência no Brasil que possa forçar
a administração Goulart a ir por um caminho mais harmonioso
nas relações Brasil-EUA, ou que o leve para fora do poder".
Trata-se da comprovação de uma velha suspeita. "Essa correspondência
prova a disposição americana de intervir sem rodeios nos
assuntos internos brasileiros", diz a historiadora Sandra Pesavento, da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
O embaixador
americano daquele período, Lincoln Gordon, garante que seu país
nunca chegou a ponto de envolver-se numa conspiração golpista
e reclama do trabalho que tem para enfiar nessa tese todo o papelório
que brota dos arquivos ao final do período em que eles permaneceram
secretos. "Há muitas interpretações diferentes",
diz Gordon. Noutro documento, assinado pelo próprio Gordon, trata-se
da prioridade que a embaixada queria para a entrega de armas a polícias
estaduais. As armas faziam parte de um programa de cooperação
dos EUA com o Brasil, e o embaixador escreveu na época: "Em vista
da presente ameaça crescente de influências castro-comunistas
por parte de grupos dissidentes (...) o programa AID de fornecimento de
assistência técnica e material para a polícia civil
deveria não apenas continuar (...), mas aumentar imediatamente".
O presidente era considerado fraco e enigmático pelos americanos.
Num telegrama resumindo uma conversa com ele, Gordon o descreveu "cansado
e estressado". "Ele estava impaciente, ouvindo pouco e falando muito",
contou. Mais adiante, relatou que o próprio presidente dizia ter
"horror ao poder".
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no memorando para vê-lo ampliado
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Divulgação
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| O
memorando com a orientação para autoridades dos EUA,
como o embaixador Lincoln Gordon, estimularem a oposição
a Goulart: fazê-lo seguir um "caminho harmonioso"
ou levá-lo para "fora do poder" |
Examinando-se
parte da correspondência pessoal do ex-presidente guardada pelo
poeta gaúcho Apparicio da Silva Rillo, nota-se que seus aliados
também se incomodavam com sua tendência para a inação.
Há uma carta de Fernando Nóbrega, ministro do Trabalho de
Juscelino, chamando-o às responsabilidades de vice-presidente:
"Permito-me dirigir-lhe um apelo para que regresse ao Rio, logo que lhe
seja possível, de modo a encontrar-se aqui por ocasião de
decretar-se o novo salário mínimo, que é principalmente
conquista sua". Noutra, alguns anos depois, é o então governador
do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, que chama o presidente: "Manda-me
dizer o dia que pretendes regressar e se para o Rio ou Brasília.
Se for para o Rio, seria ótimo".
Outros desses
papéis revelam detalhes da vida de Jango. O rascunho de uma carta
escrita antes de seu casamento com Maria Thereza mostra que ele pretendeu
comunicar ao sogro, Dinarte Fontela, o rompimento do noivado, por uma
razão que não fica clara. Maria Thereza conta que a ameaça
de rompimento aconteceu porque ela não queria casar-se rapidamente
o que acabou fazendo. Uma das razões da pressa de Jango
era dissipar sua fama de mulherengo. Nos tempos de estudante em Porto
Alegre, o presidente teve uma doença venérea cujo tratamento
o deixou levemente manco. Numa carta a um amigo de São Borja, em
1937, ele se refere ao fato e, com metáforas, à vida boêmia:
"Recém estou ficando bem bom, já posso sentar e até
já comecei a treinar os primeiros passos... Parece mentira, depois
de velho terei de aprender a caminhar de novo. Muitos bailes e festas?...
Estou fazendo uma ginástica incrível a ver se não
fico com a perna dura, pois, se tal acontecesse, ficaria impedido de fazer
tanta cousa. Então, é verdade que a turma toda anda com
febre de 'rainhas'; é o que comentam aqui; diz que ainda existem
aí uns três ou quatro tronos a serem preenchidos..." Jango,
que morreu há 25 anos, foi casado com Maria Thereza por mais de
duas décadas. Ela nunca soube por que o marido mancava.
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