Troca de comando

Cartéis do México ocupam o lugar
da Colômbia no controle do tráfico de cocaína

Lizia Bydlowski

Na esfera das altas finanças, a troca de controle de um negócio de 500 bilhões de dólares por ano teria agitado as manchetes econômicas em todo o planeta. Como se trata do submundo do narcotráfico, demorou um bom tempo para se tornar público que traficantes mexicanos destronaram os colombianos como os maiores fornecedores dos Estados Unidos. Hoje, 70% da cocaína consumida pelos americanos passa pelo México. "Os cartéis mexicanos ofuscaram o crime organizado da Colômbia", diz Thomas Constantine, diretor da DEA, órgão encarregado do combate ao tráfico nos Estados Unidos.

A mudança resulta, em parte, de duas décadas de pressão americana para que a Colômbia reprimisse o narcotráfico. Desmontados os cartéis de Cali e Medellín, pela prisão ou morte dos chefões nos últimos três anos, os mexicanos ocuparam o nicho de mercado, tendo à frente o chefe do cartel de Juarez, Amado Carrillo Fuentes. Embora a violência continue a mesma, se não maior, os métodos de Carrillo Fuentes podem ser qualificados de mais "profissionais". Em vez de aniquilar o que restava dos chefões colombianos, Carrillo conseguiu o que no âmbito dos negócios lícitos seria assumir o controle acionário: os sócios podem continuar na ativa, mas sob seu comando.

Luta de quadrilhas -- Fechados os acordos operacionais, Carrillo -- dono de uma fortuna calculada em 10 bilhões de dólares e que nunca é visto em público -- cuidou de garantir a segurança, pondo em sua folha de pagamento autoridades do mais alto escalão, inclusive o ex-chefão do combate às drogas no país general Jesus Gutierrez Rebollo, preso em fevereiro. Na semana passada, ao depor em juízo, Rebollo acusou metade da polícia mexicana de cumplicidade.

Afastada da exportação direta, a Colômbia continua a processar praticamente 100% da cocaína distribuída no mundo. Também é hoje a segunda maior plantadora de coca, atrás apenas do Peru. "Só que agora o contrabando dessa produção toda está nas mãos de pequenos grupos, que, por sua vez, estão nas mãos dos mexicanos", explicou a VEJA o economista colombiano Francisco Thoumi, um especialista no assunto que teme, em conseqüência, um "banho de sangue" no futuro.

Para Thoumi, a grande novidade em tudo isso é a nova frente aberta pelos colombianos: a heroína. Cultivando papoula nos Andes, passaram da produção zero para 6,5 toneladas por ano da droga, num prazo de cinco anos. Atualmente, entre 60% e 70% da heroína consumida nos Estados Unidos vem da Colômbia -- sem intermediários. A heroína colombiana, muito mais pura do que a que vem da Ásia, faz efeito quando fumada ou aspirada, dispensa a seringa e é muito mais barata: 1 quilo custa de 85 000 a 100 000 dólares, contra 150 000 a 180 000 dólares da asiática. O número de usuários americanos cresceu de 500 000 para 600 000 nos últimos três anos.

Para os Estados Unidos, a situação, se possível, piorou. Além da popularização da heroína, a bomba atômica do arsenal de drogas "naturais", o alto comando do tráfico está instalado agora do outro lado de uma fronteira incontrolável de 3.200 quilômetros de extensão. Para o México, com problemas enormes de corrupção, a contaminação social provocada pelo tráfico em grande escala também só pode trazer más notícias. Já no Brasil, a mudança da cúpula do tráfico não causou grandes alterações. "O Brasil, por sua fronteira permeável e muitos aeroportos, continua a servir de saída para a droga que vai para os Estados Unidos e, principalmente, para a Europa, via África", diz Luiz Matias Flach, presidente do Conselho Federal de Entorpecentes. Segundo Flach, esse trânsito é organizado por redes nacionais de traficantes, contratadas para isso. Quem as abastece e paga, num negócio cercado de segredos, não faz a menor diferença.

Copyright © 1997, Abril S.A.