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Livros A biografia O Mago
revela detalhes escabrosos do
"A minha vida privada não mais me pertence", afirmou Paulo Coelho, no ano passado, em um artigo no qual criticava o acordo judicial que censurou a biografia Roberto Carlos em Detalhes, do historiador Paulo Cesar de Araújo. A prova de que a afirmação é verdadeira acaba de chegar às livrarias: O Mago (Planeta; 632 páginas; 39,90 reais), biografia escrita pelo jornalista Fernando Morais. Consta que Coelho não interferiu no trabalho de seu biógrafo. Ao contrário, facilitou-lhe o acesso a diários que cobrem quarenta dos seus 60 anos de vida. Longe de ser temerária, tamanha exposição íntima atesta a inteligência publicitária do escritor. Paulo Coelho atropelou um menino e fugiu sem prestar socorro? Consumiu drogas? Firmou pacto com o demônio? Sim, a biografia confirma tudo isso. Mas foram meros tropeços no caminho de um homem obstinado na realização de seu sonho: tornar-se famoso como escritor. No fim, o herói converte-se no Guerreiro da Luz, o sábio autor de O Alquimista. Os 100 milhões de livros que o mago vendeu em 160 países redimem (em tese) o passado vil.
Paulo Coelho fez muito dinheiro, nos anos 70, como parceiro do roqueiro Raul Seixas. Mas o que ele queria mesmo era fazer fama como escritor. Sua determinação começou a dar frutos com O Diário de um Mago, de 1987, e O Alquimista (até hoje seu maior sucesso, com 40 milhões de exemplares vendidos), do ano seguinte. O estilo pedestre e o misticismo de supermercado desses livros encontraram ressonância no grande público, mas desagradaram aos críticos. O Mago retrata Coelho como uma vítima da mídia, perseguido pela intelectualidade elitista e preconceituosa. Não é surpresa. Morais é um ardente apologista da ditadura de Fidel Castro e acredita na inocência de José Dirceu, acusado de ser o chefe do mensalão. Com essa larga experiência na defesa do indefensável, não admira que ele busque afirmar o mérito literário de Paulo Coelho.
Morais nem sempre compra barato as lorotas de seu personagem. Em uma entrevista à Playboy, em 1992, Coelho gabou-se do tempo em que viveu com duas mulheres em Londres. O biógrafo corrigiu-o: Coelho não dava conta das duas sozinho havia um segundo homem na animada cama inglesa , e uma delas mais tarde reclamaria da performance sexual do escritor. Morais só não desacredita Coelho no seu terreno de eleição, o misticismo. Epifanias, assombrações, visões angelicais a biografia dá crédito a tudo o que é bobagem sobrenatural. Nas páginas que precedem essas aventuras mágicas, porém, Paulo Coelho aparece falsificando a assinatura do próprio pai, plagiando um texto de Carlos Heitor Cony e dando entrevistas sobre um encontro com John Lennon que nunca aconteceu. O leitor que conhece aritmética básica pode levantar a dúvida legítima: as aventuras sobrenaturais do tal "mago" não serão invenções da mesma ordem? Paulo Coelho é um péssimo escritor, mas talvez seja um gênio da ficção.
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