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Edição 1 805 - 4 de junho de 2003
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Roberto Pompeu de Toledo

A China e a arte
de cuspir

O surto de pneumonia atípica
põe em
xeque uma arraigada
tradição da
civilização chinesa

Em fevereiro de 1972 deu-se um evento memorável. Sim, memorável é o adjetivo correto – mas será que o comum das pessoas realmente o guarda na memória? Já faz muito tempo, e o mundo era outro. Não tinha nem internet nem telefone celular, dá para acreditar, crianças? Ouviam-se robustos long-plays – nada de CDs. E grandes símbolos do avanço tecnológico eram o rádio transistor e a calculadora eletrônica. Nesse mês de fevereiro de 1972, o então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, visitou a China. Foi um dos acontecimentos mais assombrosos do século XX, e uma das manobras diplomáticas mais ousadas. Rompiam-se décadas de hostil frieza entre os dois países. Viviam-se os bons tempos em que os inimigos dos Estados Unidos eram realmente perigosos. E a China, entre eles, era o mais radical e belicoso, mais ainda do que a União Soviética, a rival por excelência no minueto da Guerra Fria. No comando, os chineses ainda contavam com o Grande Timoneiro Mao Tsé-tung. E "maoísmo" significava a revolução no ponto máximo de combustão, uma tendência temida, pelos Estados Unidos e aliados, como um dia seria a Al Qaeda.

Henry Kissinger, então considerado o mago supremo da geopolítica e das relações internacionais, havia costurado em segredo, durante meses, a aproximação com a China. Agora, para coroar seu trabalho, Nixon se deslocava para o imenso e misterioso país dos 800 milhões de habitantes – eram só 800 milhões naquele tempo –, não só o mais extremista, em seu desafio ao mundo capitalista, como também o mais escondido. Mas não é de diplomacia nem de viagens históricas que se vai falar aqui. Abriu-se com esses grandes acordes, invocando grandes coisas, apenas para introduzir uma pequena. Tão logo se deram as entrevistas de Nixon com os dirigentes chineses, primeiro com o primeiro-ministro Chu En-lai, depois com o próprio Mao, ela se evidenciou, nas fotos, motivo de surpresa e de graça singularmente chinesas. Essa pequena coisa era a escarradeira. À disposição dos líderes, ao pé das respectivas poltronas, cada um dispunha de uma, para a eventualidade de querer cuspir. Ficou-se então sabendo que na China cuspir era chique. Ou, pelo menos, não era considerado tão feio como em outros países, uma descoberta tão significativa, e quase tão excitante, quanto as trazidas ao Ocidente por Marco Polo, o mais famoso predecessor de Nixon no mergulho nos mistérios da civilização chinesa.

Esta volta a 1972 vem a propósito de uma campanha que sacode a China, nestes dias: um esforço, que vai da cúpula do Partido Comunista aos voluntários na rua, contra a mania de cuspir que caracteriza o país. Eis a China, de novo, dando uma radical meia-volta em torno de si mesma. Em 1972, os Estados Unidos, o "tigre de papel" das bravatas de Mao, viraram amigos. Agora, o ato de cuspir, tão naturalmente aceito que dispunha até de escarradeiras a estimulá-lo, virou anátema. O problema é a Sars, a pneumonia atípica que castiga a Ásia. Voluntários, nestes dias, distribuem nas ruas pequenos sacos plásticos. Neles, está gravado: "Cuspir no chão é perigoso para a saúde, e o cuspe pode transmitir doenças infecciosas". A campanha tem o aval do Comitê Central do Partido Comunista, que divulgou na semana passada uma "Diretiva para o lançamento de atividades voltadas para a transformação de hábitos nefastos".

A correspondente do New York Times em Pequim, Elizabeth Rosenthal, ao nos informar sobre a campanha, acrescenta que o ato de cuspir é uma antiga tradição chinesa, praticada principalmente por homens, "de insignificantes camponeses a poderosos líderes". Deng Xiao-ping, o líder que direcionou a China para o rumo das reformas capitalistas, era, segundo a jornalista, um cuspidor famoso, admirado pela pontaria com que se dava a tal arte. Como tudo na China é grandioso, grandioso é o cenário que se descortina também no presente caso. Imaginemos que sejam 400 milhões os chineses atacados pelo impulso irrefreável de cuspir – basicamente os homens, descontadas as mulheres e as crianças, da população total de 1,2 bilhão. Calculemos, por baixo, que eles cuspam quatro vezes por dia. Temos um total de 1,6 bilhão de disparos diários, soma capaz de povoar a imaginação com um Rio Amazonas de cusparadas, tão majestosa quanto assustadora.

Não mais. A China agora recua do antigo costume. Estamos diante de um exemplo de como as pestes mudam os povos, em seus usos mais arraigados. Mesmo antes da epidemia de pneumonia, informa Elizabeth Rosenthal, algo já vinha mudando. As escarradeiras haviam sumido das recepções oficiais. Os chineses, ao se dar conta de que o mundo exterior não encarava o ato de cuspir com a mesma benevolência, como que ensaiaram uma retirada. Agora, com a Sars, a decadência pode ser definitiva, ainda mais que as autoridades chinesas costumam ser impiedosas com os transgressores, quando cismam com determinadas normas. A China ficará um pouco menos típica e um pouco mais globalizada, em seus gostos e aversões.

 
 
   
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