
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
|
|
Roberto
Pompeu de Toledo
A
China e a arte
de cuspir
O
surto de pneumonia
atípica
põe em xeque
uma arraigada
tradição da civilização
chinesa
Em fevereiro de 1972 deu-se um evento memorável. Sim, memorável
é o adjetivo correto mas será que o comum das pessoas
realmente o guarda na memória? Já faz muito tempo, e o mundo
era outro. Não tinha nem internet nem telefone celular, dá
para acreditar, crianças? Ouviam-se robustos long-plays
nada de CDs. E grandes símbolos do avanço tecnológico
eram o rádio transistor e a calculadora eletrônica. Nesse
mês de fevereiro de 1972, o então presidente dos Estados
Unidos, Richard Nixon, visitou a China. Foi um dos acontecimentos mais
assombrosos do século XX, e uma das manobras diplomáticas
mais ousadas. Rompiam-se décadas de hostil frieza entre os dois
países. Viviam-se os bons tempos em que os inimigos dos Estados
Unidos eram realmente perigosos. E a China, entre eles, era o mais radical
e belicoso, mais ainda do que a União Soviética, a rival
por excelência no minueto da Guerra Fria. No comando, os chineses
ainda contavam com o Grande Timoneiro Mao Tsé-tung. E "maoísmo"
significava a revolução no ponto máximo de combustão,
uma tendência temida, pelos Estados Unidos e aliados, como um dia
seria a Al Qaeda.
Henry Kissinger, então considerado o mago supremo da geopolítica
e das relações internacionais, havia costurado em segredo,
durante meses, a aproximação com a China. Agora, para coroar
seu trabalho, Nixon se deslocava para o imenso e misterioso país
dos 800 milhões de habitantes eram só 800 milhões
naquele tempo , não só o mais extremista, em seu desafio
ao mundo capitalista, como também o mais escondido. Mas não
é de diplomacia nem de viagens históricas que se vai falar
aqui. Abriu-se com esses grandes acordes, invocando grandes coisas, apenas
para introduzir uma pequena. Tão logo se deram as entrevistas de
Nixon com os dirigentes chineses, primeiro com o primeiro-ministro Chu
En-lai, depois com o próprio Mao, ela se evidenciou, nas fotos,
motivo de surpresa e de graça singularmente chinesas. Essa pequena
coisa era a escarradeira. À disposição dos líderes,
ao pé das respectivas poltronas, cada um dispunha de uma, para
a eventualidade de querer cuspir. Ficou-se então sabendo que na
China cuspir era chique. Ou, pelo menos, não era considerado tão
feio como em outros países, uma descoberta tão significativa,
e quase tão excitante, quanto as trazidas ao Ocidente por Marco
Polo, o mais famoso predecessor de Nixon no mergulho nos mistérios
da civilização chinesa.
Esta volta a 1972 vem a propósito de uma campanha que sacode a
China, nestes dias: um esforço, que vai da cúpula do Partido
Comunista aos voluntários na rua, contra a mania de cuspir que
caracteriza o país. Eis a China, de novo, dando uma radical meia-volta
em torno de si mesma. Em 1972, os Estados Unidos, o "tigre de papel" das
bravatas de Mao, viraram amigos. Agora, o ato de cuspir, tão naturalmente
aceito que dispunha até de escarradeiras a estimulá-lo,
virou anátema. O problema é a Sars, a pneumonia atípica
que castiga a Ásia. Voluntários, nestes dias, distribuem
nas ruas pequenos sacos plásticos. Neles, está gravado:
"Cuspir no chão é perigoso para a saúde, e o cuspe
pode transmitir doenças infecciosas". A campanha tem o aval do
Comitê Central do Partido Comunista, que divulgou na semana passada
uma "Diretiva para o lançamento de atividades voltadas para a transformação
de hábitos nefastos".
A correspondente do New York Times em Pequim, Elizabeth Rosenthal,
ao nos informar sobre a campanha, acrescenta que o ato de cuspir é
uma antiga tradição chinesa, praticada principalmente por
homens, "de insignificantes camponeses a poderosos líderes". Deng
Xiao-ping, o líder que direcionou a China para o rumo das reformas
capitalistas, era, segundo a jornalista, um cuspidor famoso, admirado
pela pontaria com que se dava a tal arte. Como tudo na China é
grandioso, grandioso é o cenário que se descortina também
no presente caso. Imaginemos que sejam 400 milhões os chineses
atacados pelo impulso irrefreável de cuspir basicamente
os homens, descontadas as mulheres e as crianças, da população
total de 1,2 bilhão. Calculemos, por baixo, que eles cuspam quatro
vezes por dia. Temos um total de 1,6 bilhão de disparos diários,
soma capaz de povoar a imaginação com um Rio Amazonas de
cusparadas, tão majestosa quanto assustadora.
Não mais. A China agora recua do antigo costume. Estamos diante
de um exemplo de como as pestes mudam os povos, em seus usos mais arraigados.
Mesmo antes da epidemia de pneumonia, informa Elizabeth Rosenthal, algo
já vinha mudando. As escarradeiras haviam sumido das recepções
oficiais. Os chineses, ao se dar conta de que o mundo exterior não
encarava o ato de cuspir com a mesma benevolência, como que ensaiaram
uma retirada. Agora, com a Sars, a decadência pode ser definitiva,
ainda mais que as autoridades chinesas costumam ser impiedosas com os
transgressores, quando cismam com determinadas normas. A China ficará
um pouco menos típica e um pouco mais globalizada, em seus gostos
e aversões.
|
|
 |