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Guerra
de números
Criado para concorrer com o Ibope,
o Datanexus nem chegou a funcionar.
Mas causou confusão
Ricardo Valladares
Há trinta anos o Ibope é o único instituto de aferição
de audiência da televisão brasileira. Essa situação
esteve prestes a mudar na semana passada. Fruto de uma parceria entre
a emissora SBT, de Silvio Santos, e a empresa Geopolitics, do cientista
político Carlos Novaes, o Instituto Datanexus anunciou na terça-feira
que inauguraria, no dia seguinte, um novo serviço de medição.
Até aí, tudo bem. O mercado já esperava a notícia.
Incômodos mesmo foram os números previamente divulgados pelo
Datanexus, resultantes de uma medição experimental realizada
nos primeiros vinte dias de maio. Em alguns horários, eles mostravam
disparidades consideráveis com os números do Ibope. No dia
20 de maio, por exemplo, enquanto a novela Kubanacan, da Rede Globo,
anotava 40 pontos de audiência na Grande São Paulo no Ibope,
ela registrava apenas 32 pontos no Datanexus (veja
quadro). Outro fato importante: segundo a pesquisa do Datanexus,
o universo de telespectadores era muito menor do que o registrado pelo
concorrente. Durante o período estudado, as variações
foram de até 20% para baixo (veja
quadro acima). Indagado a respeito dessas disparidades, o diretor
do Ibope, Flávio Ferrari, jogou a peteca para o outro lado. "Nosso
serviço é antigo e passa por auditoria. São eles
que precisam explicar seus dados", disse. Antes que qualquer explicação
fosse dada, uma reviravolta ocorreu: a inauguração do Datanexus
foi abortada.
Claudio Rossi
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| Silvio
Santos: o Datanexus foi implodido apesar do investimento de 4 milhões
de reais |
A idéia de criar o Datanexus nasceu de uma antiga desconfiança
do SBT com relação aos números do Ibope. Silvio Santos
resolveu desembolsar 4 milhões de reais para financiar um instituto
independente. No acordo inicial com a empresa de Carlos Novaes, a marca
pertenceria a este último, que seria também o único
responsável pelos dados aferidos. Mas tudo mudou na véspera
da inauguração do instituto. "Silvio Santos queria ser dono
da marca. Se isso acontecesse, creio que nossa pesquisa perderia credibilidade.
Os números deixariam de ser do instituto Datanexus e passariam
a ser do SBT. Seria difícil vendê-los no mercado", diz Novaes.
Dentro do SBT o cancelamento também causou insatisfação.
Na quinta-feira, o superintendente de tecnologia da emissora, Alfonso
Aurin, ameaçava pedir demissão. Sua permanência no
canal de Silvio Santos estava indefinida até o fim daquele dia.
Aurin foi quem desenvolveu o equipamento que seria usado para as medições
do Datanexus.
O imbróglio Datanexus versus Ibope provocou nervosismo generalizado.
A idéia de que o número de televisores ligados diariamente
no país pode ser menor do que se pensa tem potencial para mexer
profundamente com o mercado de publicidade. É claro que saber que
o apresentador X é mais popular do que o apresentador Y tem sua
graça para o espectador. Mas esse é um papel secundário
das cifras de audiência. Sua principal utilidade é orientar
quem anuncia produtos na TV e permitir que os veículos de comunicação
estabeleçam suas tabelas de preços de comercial de acordo
com a extensão de seu público. Quanto mais gente uma emissora
atinge, mais caro ela pode cobrar pelos comerciais que exibe. Se o total
de pessoas que assistem à televisão diminui, os preços
da publicidade tendem a cair para todos os canais. Carlos Novaes defende
a exatidão dos números produzidos pelo Datanexus em sua
breve existência. Flávio Ferrari, do Ibope, afirma que não
dá para comparar os dados dos dois institutos, porque as metodologias
empregadas por ambos são completamente diferentes. As dúvidas
levantadas pelo fugaz Datanexus serão insolúveis enquanto
existir apenas um medidor de audiência.
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