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Edição 1 805 - 4 de junho de 2003
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Vai faltar peixe

Pesquisa mostra os problemas que
esperam o ministério criado por Lula

Diogo Schelp

Com base na aparentemente irrefutável tese de que tem de ter peixe numa costa imensa como a brasileira, o governo Lula criou uma secretaria especial, com status de ministério, só para cuidar da pesca. Com base em estudos de 150 pesquisadores de quarenta instituições, ao longo de seis anos, há uma má notícia para o secretário José Fritsch, colocado pelo presidente à frente desse ministério da pescaria: apesar de extensa, a costa brasileira não tem peixes suficientes para provocar melhora significativa na economia ou mesmo nas refeições dos brasileiros. Pelo contrário, várias espécies estão com os estoques em risco de colapso e, num dos casos mais dramáticos, o da barata e sobreexplorada sardinha, já houve diminuição de 90% no volume de pesca anual comparado ao que se tirava do mar nos anos 70.

Esse estudo, chamado Revizee, analisou uma faixa de 350 quilômetros além das praias na qual o país tem direito à exploração exclusiva de recursos naturais. Ainda nos resultados preliminares, o trabalho já mostra quanto é enganosa a meta de aumentar em 50% a produção de pescado até o fim do mandato do presidente, alcançando a produção de 1,5 milhão de toneladas por ano. Mesmo modernizando os barcos nacionais para pesca em águas profundas ou oceânicas, como propõe Fritsch – a um custo de 300.000 reais por embarcação –, seria difícil recuperar o investimento. "Algumas espécies do fundo levam quinze anos para crescer", diz a pesquisadora Carmen Rossi-Wongtschowski, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo. "Se aumentar a captura, elas podem não ter tempo de se recuperar." Interessante também é o plano de Fritsch de estimular a substituição da frota usada nesse tipo de captura, hoje majoritariamente composta de barcos arrendados de empresas estrangeiras. "Teremos de sessenta a oitenta novos barcos", calcula o secretário. Cada unidade sai por cerca de 2 milhões de reais, e a fonte do dinheiro seria o BNDES. Outro problema dificulta a ação em alto-mar. Atuns, agulhões, marlins e tubarões, muito cobiçados, são protegidos por um acordo internacional que define cotas. "Se o Brasil quiser pescar mais, outros países terão de pescar menos", explica Jorge Castello, professor de oceanografia da Fundação Universidade Federal do Rio Grande.

Uma parte do crescimento projetado em Brasília viria da criação em cativeiro, a aqüicultura. Por aí, os números são favoráveis. Hoje a produção aumenta 25% ao ano. Mas a que custo? Imensos manguezais do Rio Grande do Norte e de Pernambuco vêm sendo destruídos para a implantação de fazendas de camarão ou envenenados pelos dejetos que misturam ração e antibióticos e são despejados na natureza pelos fazendeiros. A conclusão do Revizee é que os planos de pesca nacionais têm de ser revistos, com uma proposta específica de redução na captura de sardinha, lagosta, dourado e camarão-rosa em águas salgadas.

O Brasil ocupa o 26º lugar na lista dos países produtores de pescado. Há uma explicação científica para isso. "As águas costeiras têm poucos nutrientes para os peixes porque praticamente não existe o fenômeno de bombeamento de águas do fundo do mar, mais ricas, para a superfície, como ocorre no Peru", esclarece o professor Castello. Com seus 12 milhões de reais por ano e menos de 200 funcionários, a Secretaria de Pesca ainda tem mais esse problema para superar.

 

• Na costa brasileira, 80% das espécies pesquisadas estão sendo capturadas além dos limites de reposição

• É preciso reduzir a pesca de espécies como lagosta, camarão-rosa, peixe-sapo, caranguejo, vermelho e dourado

• No Rio Grande do Norte, só 20% das fazendas de camarão têm licença do Ibama



 
 
   
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