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Vai faltar peixe
Pesquisa
mostra os problemas que
esperam o ministério criado por Lula
Diogo
Schelp
Com base
na aparentemente irrefutável tese de que tem de ter peixe numa
costa imensa como a brasileira, o governo Lula criou uma secretaria especial,
com status de ministério, só para cuidar da pesca. Com base
em estudos de 150 pesquisadores de quarenta instituições,
ao longo de seis anos, há uma má notícia para o secretário
José Fritsch, colocado pelo presidente à frente desse ministério
da pescaria: apesar de extensa, a costa brasileira não tem peixes
suficientes para provocar melhora significativa na economia ou mesmo nas
refeições dos brasileiros. Pelo contrário, várias
espécies estão com os estoques em risco de colapso e, num
dos casos mais dramáticos, o da barata e sobreexplorada sardinha,
já houve diminuição de 90% no volume de pesca anual
comparado ao que se tirava do mar nos anos 70.
Esse estudo,
chamado Revizee, analisou uma faixa de 350 quilômetros além
das praias na qual o país tem direito à exploração
exclusiva de recursos naturais. Ainda nos resultados preliminares, o trabalho
já mostra quanto é enganosa a meta de aumentar em 50% a
produção de pescado até o fim do mandato do presidente,
alcançando a produção de 1,5 milhão de toneladas
por ano. Mesmo modernizando os barcos nacionais para pesca em águas
profundas ou oceânicas, como propõe Fritsch a um custo
de 300.000 reais por embarcação
, seria difícil recuperar o investimento. "Algumas espécies
do fundo levam quinze anos para crescer", diz a pesquisadora Carmen Rossi-Wongtschowski,
do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo.
"Se aumentar a captura, elas podem não ter tempo de se recuperar."
Interessante também é o plano de Fritsch de estimular a
substituição da frota usada nesse tipo de captura, hoje
majoritariamente composta de barcos arrendados de empresas estrangeiras.
"Teremos de sessenta a oitenta novos barcos", calcula o secretário.
Cada unidade sai por cerca de 2 milhões de reais, e a fonte do
dinheiro seria o BNDES. Outro problema dificulta a ação
em alto-mar. Atuns, agulhões, marlins e tubarões, muito
cobiçados, são protegidos por um acordo internacional que
define cotas. "Se o Brasil quiser pescar mais, outros países terão
de pescar menos", explica Jorge Castello, professor de oceanografia da
Fundação Universidade Federal do Rio Grande.
Uma parte
do crescimento projetado em Brasília viria da criação
em cativeiro, a aqüicultura. Por aí, os números são
favoráveis. Hoje a produção aumenta 25% ao ano. Mas
a que custo? Imensos manguezais do Rio Grande do Norte e de Pernambuco
vêm sendo destruídos para a implantação de
fazendas de camarão ou envenenados pelos dejetos que misturam ração
e antibióticos e são despejados na natureza pelos fazendeiros.
A conclusão do Revizee é que os planos de pesca nacionais
têm de ser revistos, com uma proposta específica de redução
na captura de sardinha, lagosta, dourado e camarão-rosa em águas
salgadas.
O Brasil
ocupa o 26º lugar na lista dos países produtores de pescado.
Há uma explicação científica para isso. "As
águas costeiras têm poucos nutrientes para os peixes porque
praticamente não existe o fenômeno de bombeamento de águas
do fundo do mar, mais ricas, para a superfície, como ocorre no
Peru", esclarece o professor Castello. Com seus 12 milhões de reais
por ano e menos de 200 funcionários, a Secretaria de Pesca ainda
tem mais esse problema para superar.
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Na costa brasileira, 80% das espécies pesquisadas estão
sendo capturadas além dos limites de reposição
É preciso reduzir a pesca de espécies como lagosta,
camarão-rosa, peixe-sapo, caranguejo, vermelho e dourado
No Rio Grande do Norte, só 20% das fazendas de camarão
têm licença do Ibama
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