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Edição 1 805 - 4 de junho de 2003
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A Flórida brasileira

O número de aposentados com
dinheiro em
Florianópolis muda
a vida econômica da cidade

Adriana Souza Silva, de Florianópolis

 
Eduardo Marques/Tempo Editorial

A imagem de cartão-postal da cidade: até a gastronomia está melhorando



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A capital catarinense ocupa um lugar singular no imaginário da classe média brasileira. É aquela cidade tranqüila, com os serviços de grande centro urbano que preservou certo charme interiorano. Ou seja, o local ideal para passar a aposentadoria à beira-mar. Para a alegria de empreendedores de vários setores, um grupo cada vez maior de brasileiros está realizando o sonho de viver na ilha do Guga. Na última década, o número de pessoas com mais de 60 anos em Florianópolis aumentou 55% – o maior crescimento entre as capitais nas regiões Sul e Sudeste e superior à média registrada no país. Os aposentados, vindos principalmente do Rio Grande do Sul e de São Paulo, transformaram a cidade. Eles fazem parte da grande leva de brasileiros que se aposentaram pela previdência complementar. Ou seja, têm dinheiro no bolso. Florianópolis é a segunda cidade no ranking das capitais em termos de poder aquisitivo dos moradores mais velhos. Só perde para Brasília. Os aposentados de Florianópolis detêm a taxa mais elevada de escolaridade do país e formam um mercado consumidor que está impulsionando a economia local.

"Aqui é a Miami brasileira", compara a prefeita de Florianópolis, Angela Amin, que tem três vizinhos vindos de outros Estados, todos aposentados. Uma das forças da economia da Flórida, nos Estados Unidos, é o fato de atrair pessoas de regiões frias do país e do Canadá que já penduraram as chuteiras. Assim como aconteceu na Flórida, no Brasil há um grupo de empreendedores ávidos por explorar o mercado dos senhores e senhoras endinheirados de Florianópolis. As consultas ao Instituto MAPA, que faz estudos sobre a demanda de serviços e produtos, dobraram nos últimos sete anos. Foi justamente nesse período que o mercado esquentou de forma inédita. Do total de estabelecimentos existentes hoje, 44% abriram as portas a partir de 1995.

 

Marisa Scolari, do La Locanda Della Tortorella: investimento de 300 000 reais

A empresária Marisa Scolari vendeu tudo o que tinha em Pomerode, uma pequena cidade perto de Blumenau, para trabalhar em Florianópolis. Há mais de um ano, investiu 300.000 reais no restaurante La Locanda Della Tortorella, no bairro da Lagoa da Conceição, point gastronômico que reúne pessoas de todas as idades. O alvo escolhido por Marisa foram os moradores da ilha recém-chegados de grandes centros com tradição gastronômica, especialmente os vindos de São Paulo. "São pessoas exigentes, acostumadas com a qualidade à mesa e ávidas por novidades", define ela.

Ao longo da década de 90, uma das maiores críticas de quem se mudava para Florianópolis era o número reduzido de opções de entretenimento e de lojas de produtos de luxo. A abertura de quatro novos shoppings, que deverão ser inaugurados até 2005, vai minorar esse inconveniente. O Ilha Terceira, um empreendimento de 120 milhões de reais lançado recentemente, terá oito salas multiplex de cinema quando for inaugurado, o que se prevê para dentro de dois anos. "As jovens senhoras paulistas não se assustam ao ver um sapato que custa 400 reais", comenta a empresária Tida Zanatta, que abrirá sua segunda butique de moda – uma franquia da grife Le Lis Blanc.

Animada com a demanda, a dentista Fátima Scheerman montou uma clínica exclusiva para pessoas acima de 60 anos. "A especialização ajuda a estabelecer uma relação de confiança com os pacientes", diz Fátima. Talvez o melhor termômetro para medir o impacto dos "estrangeiros" na economia local seja o setor imobiliário. Nas últimas três décadas, o número de imobiliárias saltou de menos de dez para 125. As propriedades mais procuradas podem ser divididas em dois grupos: as próximas ao centro, junto aos serviços, e as mais afastadas, em praias de água limpa. No luxuoso loteamento Jurerê Internacional, ao norte da ilha, uma casa de frente para o mar chega a custar 6 milhões de reais.


Os aposentados Ana Lúcia e Waldir Alves trocaram São Paulo por Florianópolis

Os juízes aposentados Ana Lúcia de Camargo, 57 anos, e Waldir Alves, 60, estão entre os proprietários de Jurerê. Há dois anos, o casal saiu de São Paulo e jura de pés juntos que não sente saudade de nada da metrópole. "Todo dia acordo com o barulho do mar e digo para mim mesma: chegou a minha vez", conta a aposentada. A boa vida do marido também é de dar inveja. Ele anda na praia todos os dias e pelo menos duas vezes por semana janta fora com a mulher. Vaidosa, Ana ajuda o mercado da estética de Florianópolis – gasta cerca de 400 reais por mês entre tratamentos, personal trainer e produtos e outros 200 reais em suas aulas de pintura. Waldir prefere gastar em bons vinhos e nas aulas de tênis. Para eles, viver na ilha não tem preço.

O mais recente fenômeno populacional na cidade é o estabelecimento de famílias de alto padrão de renda vindas de fora e em que o marido viaja para São Paulo ou para o Rio a fim de trabalhar durante a semana e volta para casa na sexta-feira. São os fugitivos dos grandes centros, cansados de enfrentar engarrafamentos nos horários de pico, assaltos e seqüestros.

Em Florianópolis, o número de assassinatos por 100.000 habitantes deu um salto nos últimos dois anos e chegou a patamares próximos aos de São Paulo. Embora comece a preocupar, a questão da insegurança se concentra principalmente nos bairros populares. Dos mais de setenta assassinatos registrados neste ano, a maior parte foi motivada pela disputa de pontos de drogas nas periferias. Ao contrário do que acontece nas grandes cidades brasileiras, no paraíso catarinense a classe média ainda não está na linha de tiro.

 
Eduardo Marques/Tempo Editorial

CAPITAL DO DESCANSO
Os aposentados de Florianópolis são ricos e educados

• Em Florianópolis, de cada 100 habitantes, 8 são aposentados. Juntos, eles têm o maior índice de escolaridade entre as capitais

• São os que possuem a segunda maior renda das capitais, quase empatados com os de Brasília

• Entre 1991 e 2000, o número de aposentados cresceu 55%. No restante do Brasil, a média foi de 35%

 

 
 
   
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