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Era
uma vez uma família feliz
Num
crime que chocou o Rio de Janeiro,
engenheiro mata a tiros sua mulher
e as duas filhas e comete suicídio
Ronaldo
França e Silvia Rogar
Álbum de familia
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| Mariana,
Paulette, Carolina e Waldo no último réveillon: os Wunder mantinham
alto padrão de consumo apesar de viverem crise financeira
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Na
entrada do apartamento dos Wunder, uma cobertura de 500 metros quadrados,
quatro suítes, na Barra da Tijuca, bairro de classe média
alta carioca, há uma mensagem religiosa. É um texto católico
em que se pede proteção para os moradores da casa, repleta
de porta-retratos que mostram uma família unida e feliz. Na semana
passada, esse ambiente foi palco de um extermínio brutal. Na madrugada
de terça-feira, o engenheiro Waldo de Carvalho Wunder, 57 anos,
assassinou sua mulher e as duas filhas, enquanto dormiam. Paulette Kahane,
48 anos, Carolina, 22 anos, e Mariana, 14 anos, haviam se deitado após
um jantar em família. Wunder matou-as a tiros, num total de dezoito
disparos de pistola, quase todos no rosto ou no pescoço. Atirou
cinco vezes contra a mulher e dirigiu-se ao quarto da filha mais nova.
Entrou, fechou a porta e disparou seis vezes. Caminhou para o último
quarto e desferiu outros sete tiros em sua filha mais velha. Em seguida,
andou até um banheiro e se suicidou com um tiro de escopeta, arma
de alto poder destrutivo. O barulho acordou os vizinhos. A polícia
foi chamada.
A cena que se viu é de arrepiar. A porta de acesso ao corredor
dos quartos estava trancada. Os policiais tiveram de arrombá-la.
O ambiente encontrava-se dominado por um cheiro forte e enjoativo de sangue.
Na primeira suíte, usada como escritório, havia um bilhete
carinhoso sobre a escrivaninha, escrito por uma das filhas no último
Dia dos Pais. Wunder estava caído no banheiro, desfigurado pelo
tiro que se deu. Uma parte de seu crânio voou 4 metros, bateu num
armário e caiu no chão do escritório. Um dos olhos
foi parar na borda do vaso sanitário. Entre os primeiros tiros
e o momento em que tombou, Wunder andou pouco mais de 10 metros. A mulher
e as duas filhas estavam deitadas em suas camas. Uma das meninas, ainda
de lado, com as mãos sob o rosto. Com dezoito anos de experiência
na polícia, o inspetor Carlos César de Mattos, da delegacia
local, afirma que nunca havia se impressionado tanto quanto desta vez.
"Passei o dia inteiro com dor de cabeça, com o estômago embrulhado",
diz. "Não me importo quando vejo um bandido com a cabeça
estourada. Mas naquela casa vi gente como a gente, numa cena pavorosa."
O crime chocou o Rio de Janeiro não apenas por ter sido praticado
pelo pai e marido. Causou perplexidade o fato de tratar-se de uma família
aparentemente feliz, bem-sucedida e cheia de planos para o futuro. É
inevitável a pergunta: por quê? A real motivação
do ato é um mistério cuja chave provavelmente foi enterrada
junto com a família. Entre os amigos, é corrente a versão
de que Wunder vivia um drama particular. Sua situação financeira
se deteriorava, mas ele e seus familiares não conseguiam abrir
mão de um padrão elevadíssimo de consumo. Além
disso, o caso aponta indícios de que o engenheiro passava por uma
crise depressiva. É inquietante imaginar que Wunder teria assassinado
a família e tirado a própria vida porque não dispunha
de condições financeiras para manter o padrão de
consumo que tivera um dia. Tentava viver como antes, o que era, além
de um descompasso financeiro, uma farsa da qual não conseguiu se
libertar. A família circulava com relativa desenvoltura na alta
sociedade carioca e continuava comprando roupas de grife como se nada
tivesse acontecido. A filha mais nova estudava em um dos melhores colégios
da cidade, freqüentado pelos filhos da elite. A mais velha fazia
faculdade de odontologia, pela qual ele pagava 1.300 reais de mensalidade.
No armário, havia praticamente só roupas e bolsas caras.
Para morar em um apartamento próximo ao mar, pagava 3.000 reais
de aluguel. E o dinheiro havia acabado.
Paulo de Deus
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| Paulette
e modelos ao final de um desfile da grife Spezzato: franquia custou
600 000 reais e durou só um ano |
O
engenheiro Waldo Wunder, nascido em Mato Grosso do Sul, era conhecido
por seus vizinhos como um homem tranqüilo e educado. Seus problemas
surgiram nos primeiros anos da década de 90, quando sua indústria
de tintas começou a naufragar. Em 1995, com a derrocada profissional
em pleno curso, Wunder foi seqüestrado. Ficou quinze dias num cativeiro,
sofrendo agressões brutais e humilhações. Pagou o
resgate, de 200.000 dólares, sem interferência da polícia.
Não adiantou. Os bandidos queriam mais. Foi solto para que pudesse
conseguir uma nova quantia. Endividou-se para garantir a liberdade. E,
pior: o medo de mais um ataque dos seqüestradores e a necessidade
de proteção o levaram ao hábito que se revelaria
fatal de colecionar armas. Tinha um pequeno arsenal.
Paulette Kahane comentava que seu marido, antes extrovertido e alegre,
nunca mais fora o mesmo após o seqüestro. Fechou-se. Com tudo
isso, manteve-se um homem cordial, simpático com os vizinhos e
reconhecido pelo carinho que dedicava à família. Na noite
do assassinato, fora buscar Mariana na casa de uma amiga. Chamava-a "Maricota".
Carolina era sua "princesinha". Tentava levar vida normal. Dois anos atrás,
havia decidido investir em novo negócio. Vendeu, por 1 milhão
de reais, uma cobertura de frente para o mar, também na Barra da
Tijuca. Investiu 600.000 reais para abrir uma franquia da grife paulista
Spezzato, de moda feminina jovem. Nova decepção. Há
seis meses, menos de um ano depois de abrir a loja, teve de desistir.
Não conseguiu viabilizar o negócio. Pesavam também
vários processos de cobrança de dívidas ainda por
causa de sua indústria falida. Juntos, os processos contra Wunder
e seu ex-sócio somam 700.000 reais, fora os acréscimos com
multas e correção monetária. Wunder, antes dono de
indústria, morava agora de aluguel e não conseguia se reerguer.
Ultimamente, contava que pretendia abrir um café no Fashion Mall,
o shopping carioca dos ricos. Mostrava a eles até um projeto da
loja. O shopping, entretanto, nega qualquer negociação.
A execução da família, seguida do suicídio,
gerou um rastro de perplexidade tão grande quanto a própria
violência usada pelo engenheiro para atingir seu objetivo. "A gente
hoje nutre ódio ao Waldo pelo que fez. Mas esperamos que Deus nos
livre desse sentimento", disse a VEJA Roberto Kahane, irmão de
Paulette. A tragédia deixa algumas perguntas sem resposta. Falta
saber, por exemplo, por que as filhas não acordaram com os cinco
disparos que mataram Paulette. A polícia não tem idéia.
Outra dúvida é quanto à violência empregada.
O que teria feito o engenheiro descarregar tantos tiros nas pessoas que
mais amava? Eis uma explicação plausível: "Cada novo
tiro tinha ele próprio como alvo. Estava se punindo por seu ato.
Foi sua última punição possível", afirma o
psicanalista Jurandir Freire Costa.
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