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Edição 1 805 - 4 de junho de 2003
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Era uma vez uma família feliz

Num crime que chocou o Rio de Janeiro,
engenheiro mata a tiros sua mulher
e as duas filhas e comete suicídio

Ronaldo França e Silvia Rogar

 
Álbum de familia
Mariana, Paulette, Carolina e Waldo no último réveillon: os Wunder mantinham alto padrão de consumo apesar de viverem crise financeira

Na entrada do apartamento dos Wunder, uma cobertura de 500 metros quadrados, quatro suítes, na Barra da Tijuca, bairro de classe média alta carioca, há uma mensagem religiosa. É um texto católico em que se pede proteção para os moradores da casa, repleta de porta-retratos que mostram uma família unida e feliz. Na semana passada, esse ambiente foi palco de um extermínio brutal. Na madrugada de terça-feira, o engenheiro Waldo de Carvalho Wunder, 57 anos, assassinou sua mulher e as duas filhas, enquanto dormiam. Paulette Kahane, 48 anos, Carolina, 22 anos, e Mariana, 14 anos, haviam se deitado após um jantar em família. Wunder matou-as a tiros, num total de dezoito disparos de pistola, quase todos no rosto ou no pescoço. Atirou cinco vezes contra a mulher e dirigiu-se ao quarto da filha mais nova. Entrou, fechou a porta e disparou seis vezes. Caminhou para o último quarto e desferiu outros sete tiros em sua filha mais velha. Em seguida, andou até um banheiro e se suicidou com um tiro de escopeta, arma de alto poder destrutivo. O barulho acordou os vizinhos. A polícia foi chamada.

A cena que se viu é de arrepiar. A porta de acesso ao corredor dos quartos estava trancada. Os policiais tiveram de arrombá-la. O ambiente encontrava-se dominado por um cheiro forte e enjoativo de sangue. Na primeira suíte, usada como escritório, havia um bilhete carinhoso sobre a escrivaninha, escrito por uma das filhas no último Dia dos Pais. Wunder estava caído no banheiro, desfigurado pelo tiro que se deu. Uma parte de seu crânio voou 4 metros, bateu num armário e caiu no chão do escritório. Um dos olhos foi parar na borda do vaso sanitário. Entre os primeiros tiros e o momento em que tombou, Wunder andou pouco mais de 10 metros. A mulher e as duas filhas estavam deitadas em suas camas. Uma das meninas, ainda de lado, com as mãos sob o rosto. Com dezoito anos de experiência na polícia, o inspetor Carlos César de Mattos, da delegacia local, afirma que nunca havia se impressionado tanto quanto desta vez. "Passei o dia inteiro com dor de cabeça, com o estômago embrulhado", diz. "Não me importo quando vejo um bandido com a cabeça estourada. Mas naquela casa vi gente como a gente, numa cena pavorosa."

O crime chocou o Rio de Janeiro não apenas por ter sido praticado pelo pai e marido. Causou perplexidade o fato de tratar-se de uma família aparentemente feliz, bem-sucedida e cheia de planos para o futuro. É inevitável a pergunta: por quê? A real motivação do ato é um mistério cuja chave provavelmente foi enterrada junto com a família. Entre os amigos, é corrente a versão de que Wunder vivia um drama particular. Sua situação financeira se deteriorava, mas ele e seus familiares não conseguiam abrir mão de um padrão elevadíssimo de consumo. Além disso, o caso aponta indícios de que o engenheiro passava por uma crise depressiva. É inquietante imaginar que Wunder teria assassinado a família e tirado a própria vida porque não dispunha de condições financeiras para manter o padrão de consumo que tivera um dia. Tentava viver como antes, o que era, além de um descompasso financeiro, uma farsa da qual não conseguiu se libertar. A família circulava com relativa desenvoltura na alta sociedade carioca e continuava comprando roupas de grife como se nada tivesse acontecido. A filha mais nova estudava em um dos melhores colégios da cidade, freqüentado pelos filhos da elite. A mais velha fazia faculdade de odontologia, pela qual ele pagava 1.300 reais de mensalidade. No armário, havia praticamente só roupas e bolsas caras. Para morar em um apartamento próximo ao mar, pagava 3.000 reais de aluguel. E o dinheiro havia acabado.


Paulo de Deus
Paulette e modelos ao final de um desfile da grife Spezzato: franquia custou 600 000 reais e durou só um ano

O engenheiro Waldo Wunder, nascido em Mato Grosso do Sul, era conhecido por seus vizinhos como um homem tranqüilo e educado. Seus problemas surgiram nos primeiros anos da década de 90, quando sua indústria de tintas começou a naufragar. Em 1995, com a derrocada profissional em pleno curso, Wunder foi seqüestrado. Ficou quinze dias num cativeiro, sofrendo agressões brutais e humilhações. Pagou o resgate, de 200.000 dólares, sem interferência da polícia. Não adiantou. Os bandidos queriam mais. Foi solto para que pudesse conseguir uma nova quantia. Endividou-se para garantir a liberdade. E, pior: o medo de mais um ataque dos seqüestradores e a necessidade de proteção o levaram ao hábito – que se revelaria fatal – de colecionar armas. Tinha um pequeno arsenal.

Paulette Kahane comentava que seu marido, antes extrovertido e alegre, nunca mais fora o mesmo após o seqüestro. Fechou-se. Com tudo isso, manteve-se um homem cordial, simpático com os vizinhos e reconhecido pelo carinho que dedicava à família. Na noite do assassinato, fora buscar Mariana na casa de uma amiga. Chamava-a "Maricota". Carolina era sua "princesinha". Tentava levar vida normal. Dois anos atrás, havia decidido investir em novo negócio. Vendeu, por 1 milhão de reais, uma cobertura de frente para o mar, também na Barra da Tijuca. Investiu 600.000 reais para abrir uma franquia da grife paulista Spezzato, de moda feminina jovem. Nova decepção. Há seis meses, menos de um ano depois de abrir a loja, teve de desistir. Não conseguiu viabilizar o negócio. Pesavam também vários processos de cobrança de dívidas ainda por causa de sua indústria falida. Juntos, os processos contra Wunder e seu ex-sócio somam 700.000 reais, fora os acréscimos com multas e correção monetária. Wunder, antes dono de indústria, morava agora de aluguel e não conseguia se reerguer. Ultimamente, contava que pretendia abrir um café no Fashion Mall, o shopping carioca dos ricos. Mostrava a eles até um projeto da loja. O shopping, entretanto, nega qualquer negociação.

A execução da família, seguida do suicídio, gerou um rastro de perplexidade tão grande quanto a própria violência usada pelo engenheiro para atingir seu objetivo. "A gente hoje nutre ódio ao Waldo pelo que fez. Mas esperamos que Deus nos livre desse sentimento", disse a VEJA Roberto Kahane, irmão de Paulette. A tragédia deixa algumas perguntas sem resposta. Falta saber, por exemplo, por que as filhas não acordaram com os cinco disparos que mataram Paulette. A polícia não tem idéia. Outra dúvida é quanto à violência empregada. O que teria feito o engenheiro descarregar tantos tiros nas pessoas que mais amava? Eis uma explicação plausível: "Cada novo tiro tinha ele próprio como alvo. Estava se punindo por seu ato. Foi sua última punição possível", afirma o psicanalista Jurandir Freire Costa.

 
 
   
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