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Edição 1 805 - 4 de junho de 2003
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Sem medo de ser feliz
na cadeira de presidente

Muito à vontade no cargo, Lula
conquista maioria no Congresso e
garante que aprovará as reformas

André Petry e Maurício Lima

 
Dida Sampaio/AE

O presidente, às gargalhadas: para ele, o chefe da nação não pode vender ilusões nem fazer terrorismo



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Com cinco meses de governo, Luiz Inácio Lula da Silva parece nunca ter feito outra coisa na vida além de vestir a faixa presidencial. Em seu gabinete, onde recebeu jornalistas na semana passada para dar a primeira entrevista coletiva desde a posse, Lula mostra-se à vontade no cargo, sentadíssimo na cadeira, à larga com os rapapés do poder – como se estivesse à beira da churrasqueira em seu sítio ou nos gramados do Palácio da Alvorada a correr atrás de patos. O presidente parece feliz da vida. Mantém os mesmos torturantes embates com a gramática, mas até isso, para ele, é motivo de sátira. "É que sou do partido dos trabaiador", diz. Também mantém o hábito, popularizado nos debates da campanha eleitoral, de encerrar uma resposta (qualquer resposta) dizendo que, além de tudo o que acabou de expor, também pretende "ouvir a sociedade, os segmentos organizados da sociedade". É o Lula de sempre, mas com uma surpreendente exibição de conforto e autoconfiança em comparação com aquele Lula sindicalista e eterno candidato derrotado à Presidência. O poder está fazendo bem a esse homem.

Lula está caminhando pela manhã um total de 4.200 metros, na tentativa de adelgaçar a silhueta. Acha que está vencendo a batalha contra a gulodice e a vida sedentária. Aliás, no dicionário de Lula parece não haver batalha que não possa ser vencida. Pelo menos, é o sinal que ele emite através de variações fisionômicas que paradoxalmente carregam o interlocutor sempre para o mesmo ponto. Com uma cigarrilha café-crème entre os dedos, quando os fotógrafos não estão por perto, e um esboço de sorriso nos lábios, se estiver fazendo uma tirada espirituosa, ou então um cenho crivado de rugas, se o assunto for espinhoso, desemboca inevitavelmente num cenário positivo. "Estou certo de que vamos aprovar as reformas", garante o presidente, em referência às propostas previdenciária e tributária que tramitam no Congresso Nacional. "Não vou cometer nenhum erro político neste ano, vou aproveitar todas as oportunidades", assegura, cenho franzido. "Vou fazer o jogo político como jamais foi feito neste mundo velho de guerra." Faz parte do papel de um presidente vender segurança e demonstrar firmeza. Lula vem cumprindo com naturalidade essa parte do roteiro. Sua atuação é tanto mais convincente quanto mais se acumulam ganhos diante dos desafios práticos que enfrentou em cinco meses de administração.

Na semana passada, quando os cardeais do PMDB decidiram aderir à base de apoio ao governo, Lula cravou mais uma vitória – e, desta vez, inédita. É a primeira vez que um partido político dá apoio ao Planalto sem antes já receber a cadeira de um ministério. Um estudo elaborado por Octavio Amorim Neto, cientista político da Fundação Getúlio Vargas, mostra que, em quase quarenta anos de democracia – do período que vai de 1946 a 1964 e, mais tarde, de 1985 até hoje –, todos os partidos que fecharam acordos com o governo levaram, antes, sua contrapartida em cargos de primeiríssimo escalão. Naturalmente, o PMDB só aderiu ao governo Lula sob a promessa de que vai ganhar um ministério, mas o acordo inverteu a lógica tradicional do leilão político: antes de abocanhar sua fatia, o novo aliado terá de mostrar-se fiel ao governo nas votações realizadas no Congresso. Nos moldes em que foi selada, a negociação resultou positiva para a imagem pública de ambos os lados, na medida em que joga para mais tarde, para quando o ministério sair, a exposição da natureza puramente fisiológica do matrimônio.

Em se tratando do PMDB, que há muito deixou de ser um partido para tornar-se uma confraria em que cada um parece olhar na direção contrária do outro, o governo tomou uma precaução adequada. Afinal, na gestão de Fernando Henrique Cardoso, o partido foi um aliado desde o momento da posse, já no primeiro mandato, e no entanto jamais conseguiu votar unido. Segundo o levantamento de Amorim Neto, a taxa de infidelidade do PMDB, no governo anterior, chegou perto de 40%, enquanto a das demais legendas governistas mal passou dos 20%. É impossível afirmar que, desta vez, o PMDB terá um comportamento distinto com o governo Lula, embora a promessa de ministério sirva como elemento aglutinador. "Vamos ver agora se a promessa vai proporcionar um maior índice de adesão ao governo", diz Amorim Neto. No primeiro teste, ocorrido na semana passada, quando a Câmara votou o novo valor do salário mínimo, a bancada do PMDB até que conseguiu conter o grosso de seu furor de infidelidade: 26% dos deputados votaram contra. É um índice alto, mas bem abaixo da taxa histórica de quase 40%.

 
Joedson Alves/AE
Uma parte da alta cúpula do PMDB: antes do ministério, uma prova de fidelidade

O presidente não emite sinal de insegurança diante desse quadro precário. Ao contrário. Do 3º andar do Palácio do Planalto, sentado à imensa mesa redonda de seu gabinete, Lula permanece fiel ao papel que traçou para si próprio: não vender ilusões, mas também não vender terrorismo. "Eu não sou louco", explica. E aponta as barreiras que já ultrapassou, apesar do descrédito inicial. Ninguém acreditava, por exemplo, que certos indicadores econômicos – o dólar, o risco país, a cotação dos títulos externos, a inflação – fossem apresentar resultados positivos em apenas cinco meses de governo petista. Também quase ninguém acreditava, noutro exemplo, que o governo petista conseguiria emplacar uma ampla maioria no Congresso. E eis que ela está aí. Com a chegada do PMDB, resultado do trabalho incessante do ministro da Casa Civil, José Dirceu, Lula conquistou uma boa superioridade parlamentar. Na matemática, tem ao seu lado nove legendas, com um plantel de 326 deputados e 53 senadores – número suficiente para aprovar o que quiser no Congresso.

Na vida prática, em que nem todos os parlamentares são fiéis, a vida do governo está até melhor. Descontando-se os governistas que arrastam asa para a oposição, e adicionando-se os oposicionistas que adoram flertar com o governo, o Palácio do Planalto tem uma maioria ainda mais folgada: em torno de 370 deputados e sessenta senadores, quadro muito semelhante ao que havia no melhor momento do governo de Fernando Henrique. Apesar das imensas dificuldades pela frente – juros na estratosfera, economia paralisada, desemprego batendo recordes –, Lula exibe a certeza de que está no caminho certo. Depois de quase duas horas de conversa com jornalistas, o presidente levanta-se bem-disposto e anuncia compromisso mais urgente: assistir a um filme no Palácio da Alvorada em companhia da atriz Luana Piovani. Não estende o convite a ninguém na sala. "É que sou do partido dos trabaiador", diverte-se.

 
 
   
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