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Sem
medo de ser feliz
na cadeira de presidente
Muito
à vontade no cargo, Lula
conquista maioria no Congresso e
garante que aprovará as reformas

André
Petry e Maurício Lima
Dida Sampaio/AE
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O
presidente, às gargalhadas: para ele, o chefe da nação não pode
vender ilusões nem fazer terrorismo
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Com
cinco meses de governo, Luiz Inácio Lula da Silva parece nunca
ter feito outra coisa na vida além de vestir a faixa presidencial.
Em seu gabinete, onde recebeu jornalistas na semana passada para dar a
primeira entrevista coletiva desde a posse, Lula mostra-se à vontade
no cargo, sentadíssimo na cadeira, à larga com os rapapés
do poder como se estivesse à beira da churrasqueira em seu
sítio ou nos gramados do Palácio da Alvorada a correr atrás
de patos. O presidente parece feliz da vida. Mantém os mesmos torturantes
embates com a gramática, mas até isso, para ele, é
motivo de sátira. "É que sou do partido dos trabaiador",
diz. Também mantém o hábito, popularizado nos debates
da campanha eleitoral, de encerrar uma resposta (qualquer resposta) dizendo
que, além de tudo o que acabou de expor, também pretende
"ouvir a sociedade, os segmentos organizados da sociedade". É o
Lula de sempre, mas com uma surpreendente exibição de conforto
e autoconfiança em comparação com aquele Lula sindicalista
e eterno candidato derrotado à Presidência. O poder está
fazendo bem a esse homem.
Lula
está caminhando pela manhã um total de 4.200 metros, na
tentativa de adelgaçar a silhueta. Acha que está vencendo
a batalha contra a gulodice e a vida sedentária. Aliás,
no dicionário de Lula parece não haver batalha que não
possa ser vencida. Pelo menos, é o sinal que ele emite através
de variações fisionômicas que paradoxalmente carregam
o interlocutor sempre para o mesmo ponto. Com uma cigarrilha café-crème
entre os dedos, quando os fotógrafos não estão por
perto, e um esboço de sorriso nos lábios, se estiver fazendo
uma tirada espirituosa, ou então um cenho crivado de rugas, se
o assunto for espinhoso, desemboca inevitavelmente num cenário
positivo. "Estou certo de que vamos aprovar as reformas", garante o presidente,
em referência às propostas previdenciária e tributária
que tramitam no Congresso Nacional. "Não vou cometer nenhum erro
político neste ano, vou aproveitar todas as oportunidades", assegura,
cenho franzido. "Vou fazer o jogo político como jamais foi feito
neste mundo velho de guerra." Faz parte do papel de um presidente vender
segurança e demonstrar firmeza. Lula vem cumprindo com naturalidade
essa parte do roteiro. Sua atuação é tanto mais convincente
quanto mais se acumulam ganhos diante dos desafios práticos que
enfrentou em cinco meses de administração.
Na semana passada, quando os cardeais do PMDB decidiram aderir à
base de apoio ao governo, Lula cravou mais uma vitória e,
desta vez, inédita. É a primeira vez que um partido político
dá apoio ao Planalto sem antes já receber a cadeira de um
ministério. Um estudo elaborado por Octavio Amorim Neto, cientista
político da Fundação Getúlio Vargas, mostra
que, em quase quarenta anos de democracia do período que
vai de 1946 a 1964 e, mais tarde, de 1985 até hoje , todos
os partidos que fecharam acordos com o governo levaram, antes, sua contrapartida
em cargos de primeiríssimo escalão. Naturalmente, o PMDB
só aderiu ao governo Lula sob a promessa de que vai ganhar um ministério,
mas o acordo inverteu a lógica tradicional do leilão político:
antes de abocanhar sua fatia, o novo aliado terá de mostrar-se
fiel ao governo nas votações realizadas no Congresso. Nos
moldes em que foi selada, a negociação resultou positiva
para a imagem pública de ambos os lados, na medida em que joga
para mais tarde, para quando o ministério sair, a exposição
da natureza puramente fisiológica do matrimônio.
Em se tratando do PMDB, que há muito deixou de ser um partido para
tornar-se uma confraria em que cada um parece olhar na direção
contrária do outro, o governo tomou uma precaução
adequada. Afinal, na gestão de Fernando Henrique Cardoso, o partido
foi um aliado desde o momento da posse, já no primeiro mandato,
e no entanto jamais conseguiu votar unido. Segundo o levantamento de Amorim
Neto, a taxa de infidelidade do PMDB, no governo anterior, chegou perto
de 40%, enquanto a das demais legendas governistas mal passou dos 20%.
É impossível afirmar que, desta vez, o PMDB terá
um comportamento distinto com o governo Lula, embora a promessa de ministério
sirva como elemento aglutinador. "Vamos ver agora se a promessa vai proporcionar
um maior índice de adesão ao governo", diz Amorim Neto.
No primeiro teste, ocorrido na semana passada, quando a Câmara votou
o novo valor do salário mínimo, a bancada do PMDB até
que conseguiu conter o grosso de seu furor de infidelidade: 26% dos deputados
votaram contra. É um índice alto, mas bem abaixo da taxa
histórica de quase 40%.
Joedson Alves/AE
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Uma parte da
alta cúpula do PMDB: antes do ministério, uma prova
de fidelidade |
O
presidente não emite sinal de insegurança diante desse quadro
precário. Ao contrário. Do 3º andar do Palácio
do Planalto, sentado à imensa mesa redonda de seu gabinete, Lula
permanece fiel ao papel que traçou para si próprio: não
vender ilusões, mas também não vender terrorismo.
"Eu não sou louco", explica. E aponta as barreiras que já
ultrapassou, apesar do descrédito inicial. Ninguém acreditava,
por exemplo, que certos indicadores econômicos o dólar,
o risco país, a cotação dos títulos externos,
a inflação fossem apresentar resultados positivos
em apenas cinco meses de governo petista. Também quase ninguém
acreditava, noutro exemplo, que o governo petista conseguiria emplacar
uma ampla maioria no Congresso. E eis que ela está aí. Com
a chegada do PMDB, resultado do trabalho incessante do ministro da Casa
Civil, José Dirceu, Lula conquistou uma boa superioridade parlamentar.
Na matemática, tem ao seu lado nove legendas, com um plantel de
326 deputados e 53 senadores número suficiente para aprovar
o que quiser no Congresso.
Na vida prática, em que nem todos os parlamentares são fiéis,
a vida do governo está até melhor. Descontando-se os governistas
que arrastam asa para a oposição, e adicionando-se os oposicionistas
que adoram flertar com o governo, o Palácio do Planalto tem uma
maioria ainda mais folgada: em torno de 370 deputados e sessenta senadores,
quadro muito semelhante ao que havia no melhor momento do governo de Fernando
Henrique. Apesar das imensas dificuldades pela frente juros na
estratosfera, economia paralisada, desemprego batendo recordes ,
Lula exibe a certeza de que está no caminho certo. Depois de quase
duas horas de conversa com jornalistas, o presidente levanta-se bem-disposto
e anuncia compromisso mais urgente: assistir a um filme no Palácio
da Alvorada em companhia da atriz Luana Piovani. Não estende o
convite a ninguém na sala. "É que sou do partido dos trabaiador",
diverte-se.
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