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Edição 1 805 - 4 de junho de 2003
Diogo Mainardi

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Vergonha de
ser Diogo

"Toda novela tem de ter um Diogo.
Agora é nome também de um prédio
de apartamentos em São Paulo.
A garota-propaganda do Diogo
é Fernanda Young. Ou seja,
avacalharam o meu nome"

Diogo é nome de personagem de novela. Toda novela, por algum motivo, tem de ter um. Para minha vergonha, Diogo agora virou também nome de prédio de apartamentos. De fato, estão construindo um prédio chamado Diogo na Vila Nova Conceição, em São Paulo. O Diogo, conforme anúncio publicado nos jornais, dispõe de "port-cochère" e "vignerie". Não sei o que significa "port-cochère", mas "porte cochère", com "e" e sem hífen, é um pórtico para carruagens. Por outro lado, ignoro o termo "vignerie", sobretudo na acepção de adega. O estilo arquitetônico do Diogo, a se julgar pela maquete, é semelhante ao do Cingapura, o conjunto habitacional graças ao qual Paulo Maluf conseguiu eleger seu sucessor, Celso Pitta. Estilo legitimamente paulistano, portanto. A garota-propaganda do Diogo é Fernanda Young. Ou seja, avacalharam o meu nome. Ainda bem que não moro mais em São Paulo.

Eu nunca entendi o motivo, mas os paulistanos realmente gostam de São Paulo. Os cariocas realmente gostam do Rio de Janeiro. Até os maringaenses realmente gostam de Maringá. Duas semanas atrás, com o único propósito de manifestar meu entusiasmo pelo Canal Rural, mencionei a feira do gado de Maringá. Os maringaenses acharam que eu estava debochando da cidade e encheram-me de cartinhas iradas. Rinaldo acusou-me de falta de ética. Thaís chamou-me de irresponsável. Matheus, de preconceituoso. Rosenei e Helenice afirmaram que eu não sabia o que era cultura. O Lions Clube ficou indignado.

O que mais irritou os maringaenses foram os índices socioeconômicos citados no artigo. A mortalidade infantil de Maringá, segundo eles, não é de 26,44 por 1.000, mas apenas de 11,54. O analfabetismo não atinge 16% da população adulta, mas apenas 5%. Peço perdão aos maringaenses, porém a culpa não foi minha. Colhi as estatísticas num documento da própria prefeitura. Especificamente, no relatório do comitê intermunicipal do Fome Zero. Quando é para se apresentar aos eleitores, a prefeitura de Maringá desaparece com seus miseráveis. Quando é para pleitear mais verbas federais, aparecem famintos por todos os lados. O Fome Zero não tem a menor chance de funcionar.

O leitor Cláudio Marcos aproveitou sua cartinha para reclamar que já está cansado de meus ataques contra Gilberto Gil. Ele está certo, claro. Pego demais no pé de Gil. O problema é que Gil provoca. Outro dia perguntaram-lhe qual era o livro mais importante de sua vida. Ele deveria ter mentido. Deveria ter dito Grande Sertão ou algo do gênero. Gil acabou escolhendo o livro do I-Ching. Um ministro da Cultura não tem o direito de responder que seu livro predileto é o do I-Ching. Pior: Gil admitiu que só toma decisões fundamentais depois de consultar as moedas do I-Ching. Foi o que aconteceu quando Lula o convidou para ser ministro. As moedas o aconselharam a aceitar o cargo, porque ele é um hexagrama 2, um receptivo, dotado da perseverança de uma égua, animal que combina a agilidade do cavalo com a docilidade da vaca, como concordariam os leiloeiros da feira do gado de Maringá. Não sei que caminho as moedas indicarão à cultura brasileira. Só sei que, ao longo de nossa história, nunca tivemos muita sorte com moedas.

 
 
   
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