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Vergonha
de
ser Diogo
"Toda
novela tem de ter um Diogo.
Agora é nome também de um prédio
de apartamentos em São Paulo.
A garota-propaganda do Diogo
é Fernanda Young. Ou seja,
avacalharam o meu nome"
Diogo é nome de personagem de novela. Toda novela, por algum motivo,
tem de ter um. Para minha vergonha, Diogo agora virou também nome
de prédio de apartamentos. De fato, estão construindo um
prédio chamado Diogo na Vila Nova Conceição, em São
Paulo. O Diogo, conforme anúncio publicado nos jornais, dispõe
de "port-cochère" e "vignerie". Não sei o que significa
"port-cochère", mas "porte cochère", com "e" e sem hífen,
é um pórtico para carruagens. Por outro lado, ignoro o termo
"vignerie", sobretudo na acepção de adega. O estilo arquitetônico
do Diogo, a se julgar pela maquete, é semelhante ao do Cingapura,
o conjunto habitacional graças ao qual Paulo Maluf conseguiu eleger
seu sucessor, Celso Pitta. Estilo legitimamente paulistano, portanto.
A garota-propaganda do Diogo é Fernanda Young. Ou seja, avacalharam
o meu nome. Ainda bem que não moro mais em São Paulo.
Eu nunca entendi o motivo, mas os paulistanos realmente gostam de São
Paulo. Os cariocas realmente gostam do Rio de Janeiro. Até os maringaenses
realmente gostam de Maringá. Duas semanas atrás, com o único
propósito de manifestar meu entusiasmo pelo Canal Rural, mencionei
a feira do gado de Maringá. Os maringaenses acharam que eu estava
debochando da cidade e encheram-me de cartinhas iradas. Rinaldo acusou-me
de falta de ética. Thaís chamou-me de irresponsável.
Matheus, de preconceituoso. Rosenei e Helenice afirmaram que eu não
sabia o que era cultura. O Lions Clube ficou indignado.
O que mais irritou os maringaenses foram os índices socioeconômicos
citados no artigo. A mortalidade infantil de Maringá, segundo eles,
não é de 26,44 por 1.000, mas apenas de 11,54. O analfabetismo
não atinge 16% da população adulta, mas apenas 5%.
Peço perdão aos maringaenses, porém a culpa não
foi minha. Colhi as estatísticas num documento da própria
prefeitura. Especificamente, no relatório do comitê intermunicipal
do Fome Zero. Quando é para se apresentar aos eleitores, a prefeitura
de Maringá desaparece com seus miseráveis. Quando é
para pleitear mais verbas federais, aparecem famintos por todos os lados.
O Fome Zero não tem a menor chance de funcionar.
O leitor Cláudio Marcos aproveitou sua cartinha para reclamar que
já está cansado de meus ataques contra Gilberto Gil. Ele
está certo, claro. Pego demais no pé de Gil. O problema
é que Gil provoca. Outro dia perguntaram-lhe qual era o livro mais
importante de sua vida. Ele deveria ter mentido. Deveria ter dito Grande
Sertão ou algo do gênero. Gil acabou escolhendo o livro
do I-Ching. Um ministro da Cultura não tem o direito de responder
que seu livro predileto é o do I-Ching. Pior: Gil admitiu que só
toma decisões fundamentais depois de consultar as moedas do I-Ching.
Foi o que aconteceu quando Lula o convidou para ser ministro. As moedas
o aconselharam a aceitar o cargo, porque ele é um hexagrama 2,
um receptivo, dotado da perseverança de uma égua, animal
que combina a agilidade do cavalo com a docilidade da vaca, como concordariam
os leiloeiros da feira do gado de Maringá. Não sei que caminho
as moedas indicarão à cultura brasileira. Só sei
que, ao longo de nossa história, nunca tivemos muita sorte com
moedas.
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