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Amor
demais estraga
O
psiquiatra Içami Tiba
diz que
os pais precisam
ser duros para
manter os filhos longe
das drogas

José Edward
André Penner
 |
"Da
escola o jovem leva a droga para dentro da família e para
o grupo de amigos. As escolas de ensino médio tornaram-se
um ótimo mercado" |
Quando o assunto é o consumo
de drogas entre os jovens, o psiquiatra paulista Içami Tiba, de
62 anos, não tem meias palavras. No livro Anjos Caídos,
ele descreve uma dezena de disfarces, sete comportamentos suspeitos e
mais de vinte respostas que jovens usam para convencer adultos de que
não fumam maconha. Esse estilo direto às vezes pode render
dissabores. Tiba está sendo processado por ter qualificado o campus
da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
como um "antro de maconha", em uma entrevista. Ele não volta atrás
no que disse e acredita que falam a seu favor 34 anos de profissão,
70 000 atendimentos psicoterápicos e 2 500 palestras mundo afora,
além de catorze livros, com 600 000 exemplares vendidos. O último
Quem Ama, Educa! (Editora Gente) está na 31ª
edição.
Tiba aplicou suas teorias na criação de três filhos,
um advogado, uma psicóloga e uma estudante de direito. Nesta entrevista,
ele dá sua receita para o sucesso na educação das
crianças. Isso inclui, ele adverte, evitar manifestações
de "amor em excesso".
Veja O senhor está sendo processado por ter
dito que a PUC paulista é um "antro de maconha"...
Tiba
É verdade. Reconheço que se trata de uma respeitável
instituição científica, mas não posso concordar
com a filosofia de não reprimir o uso de drogas que vigora lá.
Há, sim, uma cultura de fumar maconha nos corredores do campus,
como se fosse a coisa mais comum do mundo. Eu mesmo testemunhei isso,
pois fui professor lá durante quinze anos. Além disso, tenho
pacientes que estudam lá e dizem o mesmo. Como médico, não
posso falsear esse diagnóstico.
Veja
O episódio da estudante baleada numa universidade carioca
tem relação com a penetração das drogas nas
escolas?
Tiba
Os
traficantes descobriram que a melhor maneira de disseminar a droga na
sociedade é através da escola. Dali o jovem a leva para
dentro da família e para o grupo de amigos. As escolas de ensino
médio, sobretudo, tornaram-se um ótimo mercado. O traficante
nem se expõe. Em praticamente todas há os minitraficantes,
pessoas que se infiltram no meio dos alunos a serviço dos grandes.
Às vezes são recrutados entre os próprios estudantes
e recebem mais de 800 reais por mês. Há também muitos
microtraficantes, alunos que pegam dinheiro dos colegas para comprar a
droga e depois a distribuem. Não é preciso subir no morro
nem ir à boca-de-fumo. A droga pode ser adquirida logo ali, na
barraquinha ao lado da escola.
Veja Muitos pais que experimentaram maconha são
tolerantes com os filhos que repetem essa experiência porque não
acreditam que ela seja porta de entrada para drogas mais pesadas.
Tiba
Na minha interpretação, ela é, sim, porta
de entrada para drogas mais pesadas. Mas a porta para o vício é
mesmo o álcool. A primeira coisa que o álcool faz na pessoa
é diluir seu superego, instância da personalidade que agrega,
entre outros, os padrões comportamentais. A partir daí,
o indivíduo faz apenas coisas de que tem vontade e não o
que aprendeu que deve ser feito. Tem extrema dificuldade para fazer a
coisa certa. Esbarrou, já quer brigar, não agüenta
desaforos, fica violento. O jovem que já estava pensando em experimentar
maconha, e não tinha coragem, quando ingere bebidas alcoólicas
vai provar, pois aquele freio foi destruído pelo álcool.
Como a maconha despersonaliza a pessoa, daí para a cocaína
é um passo.
Veja
Mas o que devem fazer pais que provaram maconha e não
se viciaram? Há os que fumam com os filhos e há os que proíbem.
Tiba Fumar
com eles, nem pensar. Senão depois vão jogar na cara dos
pais que se viciaram por culpa deles. Os pais têm de falar que são
contra, que tiveram sorte de não ter se viciado. Quando possível,
citar exemplos de conhecidos que se prejudicaram muito, ou até
morreram, por causa da droga. É preciso ser duro e proibir. A proibição
pode não evitar que eles fumem, mas saberão que estão
agindo contra a vontade dos pais. Quanto a estes, pessoas que no passado
fumaram maconha e se deram bem na vida em geral não deixaram que
a droga atrapalhasse a vida delas. São comparáveis a pilotos
de Fórmula 1 que não morreram, apesar do risco que correm
nas pistas. Paulo Coelho, Bill Clinton e Fernando Henrique Cardoso, que
admitem ter experimentado maconha, tornaram-se pessoas bem-sucedidas,
mas são sobreviventes, assim como quem pratica esportes perigosos
e não morre. Por outro lado, há quarenta anos, fumar maconha
não era o objetivo em si. Fumava-se maconha e se queimavam sutiãs
como forma de transgressão. Hoje, o uso da maconha é totalmente
diferente. A maconha não é mais bandeira de coisa alguma.
É comum ouvir papo furado do tipo "Fumo maconha porque sou livre".
Está errado, pois quem é livre não precisa usar drogas.
Veja O senhor é a favor da descriminação
da maconha?
Tiba
Não. O Brasil não está preparado para uma medida
tão radical. Não sou a favor de ficar prendendo usuários,
mas também não sou a favor de liberar geral, pois, se os
caras estão se perdendo com cerveja, imagine com maconha.
Veja Por que o senhor diz que amor em excesso pode gerar
filhos drogados?
Tiba
O amor sem limites deixa que se desenvolva demais o lado animal e instintivo
do jovem, que passa a fazer apenas aquilo de que tem vontade. Para esse
jovem, o que interessa é o prazer. A maioria dos pais faz de tudo
para agradar aos filhos e eles aprendem a ter prazer sem fazer nenhum
esforço. Aí, quando vão para a rua, logo encontram
quem lhes ofereça um baseado, uma dose de prazer.
Veja
Quando os pais devem começar a desconfiar que o filho
está usando drogas?
Tiba
A maioria só desconfia quando a performance do filho na escola
piora. Aí, pode ser tarde demais, pois o rendimento escolar é
uma das últimas máscaras a cair. Antes, já caiu a
ética relacional, que se traduz na falta de respeito às
pessoas. Há também uma diminuição do afeto.
Antes, ele se mobilizava para ajudar os pais a resolver pequenos problemas,
ficava preocupado quando a mãe tinha uma dor de cabeça.
Depois, o mundo pode desabar que ele não está nem aí,
como se fosse um pensionista da casa.
Veja
Como identificar os primeiros sinais dessa situação?
Tiba
Além do comportamento suspeito que já citei, há outros
disfarces fáceis de ser percebidos. Em geral, usar incenso, perfumar
o ambiente ou deixar o chuveiro ou o ventilador ligados o tempo todo são
estratégias para acabar com a marofa, a fumaça da maconha.
Deve-se prestar atenção também na fala dos filhos.
Se o garoto começa a se preocupar muito com os horários
de saída e chegada dos pais, é outro sinal de que pode estar
aprontando alguma. É suspeito ainda quando o jovem diz que "todo
mundo está usando maconha", numa tentativa de minimizar o problema.
Na verdade, isso significa que ele está andando com usuários.
Quando o jovem começa a dizer que maconha faz menos mal que outras
drogas, então é porque já se tornou, ele próprio,
um usuário. Ninguém defende o que não lhe interessa.
Veja
É possível blindar os filhos contra as drogas?
Tiba
A
melhor proteção é criar condições para
que ele tenha auto-estima e, desde cedo, informá-lo sobre os malefícios
das drogas. Os pais não têm como controlar a vida do adolescente,
mas devem patrulhar o filho quando houver motivo para desconfianças.
O jovem se fechar no quarto, por exemplo, é natural. Está
querendo privacidade. Mas, se tranca a porta, está colocando os
pais para fora da vida dele. Privacidade a chave é expulsão
dos outros. Isso os pais não podem permitir.
Veja
Em seu último livro, o senhor afirma que educar é
diferente de criar. Qual a diferença?
Tiba
Os pais que educam têm como foco preparar os filhos para a vida.
Os que criam acham que resolvem os problemas para eles. A maioria dos
pais demora para fazer os filhos assumir responsabilidades. Por isso,
é comum encontrar jovens que, apesar de bem-criados e bem nutridos,
são mal-educados. São adolescentes que diante de qualquer
situação adversa desistem ou partem para a ignorância.
Veja
Que valores os pais devem inculcar nos filhos?
Tiba
Os principais são disciplina, gratidão, religiosidade, cidadania
e ética. Por exemplo, quando o pai dá um presente ou mesmo
um bombom ao filho e ele sai correndo sem dizer um "obrigado", ou o diz
sem olhar nos olhos, não vale. Tem de ser incisivo: "Filho, olhe
nos meus olhos e agradeça". Assim mesmo, na bucha. Essa postura
de cobrança pelos mínimos bons costumes, se for constante,
vai surtir um efeito para a vida inteira.
Veja
O bom exemplo dos pais influencia também na formação
ética?
Tiba
A maneira como o filho trata uma empregada é uma cópia fiel
da forma como seus pais a tratam. Se o pai ou a mãe fala "Vamos
rezar" e quando sai da igreja já xinga um transeunte, dá
o direito de o filho questionar: "Então a espiritualidade só
vale dentro da igreja?". Não adiantam apenas exemplos de boa conduta.
Muitas vezes, o filho joga algo no chão e o pai pega, achando que
está sendo exemplar. Está errado, pois o que o pai tem de
fazer é obrigar o filho a pegar. De outro modo, ele vai achar-se
no direito de jogar papel no chão da escola e não apanhar.
Afinal, essa função é da faxineira.
Veja O que o senhor entende por religiosidade é freqüentar
igreja?
Tiba
É um sentimento instintivo do ser humano, que precede as religiões.
Significa gente gostar de gente. Hoje em dia se valoriza muito pouco o
respeito ao outro, independentemente do credo. Quando o filho maltrata
o pai e este engole o mau trato sem reagir, dá uma grande lição
de não-religiosidade. Quando o filho quebra um copo num momento
de raiva, é comum o pai dizer: "Eu sei que você não
fez por querer". Ao invés de poupá-lo e tirar a culpa do
filho, o certo é fazer com que ele arque com as conseqüências
de seu ato.
Veja Adianta castigar ou cortar a mesada?
Tiba
Mais do que cortar a mesada, o importante é fazê-lo repor
o que quebrou. Tirar dinheiro é muito fácil. O filho tem
de se dar ao trabalho de comprar um copo igual no lugar do próximo
brinquedo, por exemplo. É uma forma de chamá-lo a assumir
a conseqüência pelo ato praticado. Castigo não resolve
coisa alguma. Se aqueles rapazes de Brasília que queimaram o índio
Galdino, em vez de presos, tivessem sido condenados a trabalhar durante
um ano na seção de queimados de um hospital, o efeito pedagógico
seria muito melhor. Na cadeia, até gozam de certas mordomias. Não
devem ter aprendido nada lá.
Veja
Têm-se visto muitos casos de atrocidades cometidas por
jovens de classe média, como alguns que mataram os pais. O que
são esses casos?
Tiba
Quando um filho chega ao ponto de atentar contra a vida dos pais, o respeito
já se perdeu faz tempo. Ninguém que ama mata assim de repente,
por impulso. Essa tese é desculpa de advogado. A situação
já estava complicada. Tanto que aquele pai que matou o filho em
São Paulo, há dois meses, alegou legítima defesa
e obteve o apoio da família. Imagine, nem a mãe lamentou
que o pai tenha matado o filho! O rapaz já estava em um estágio
tão ruim que seu pai se viu em um triste dilema: era matar ou morrer.
Boa parte da culpa nesses casos é dos pais, que, incompetentes
para dar uma boa educação, tentam compensar arcando com
as conseqüências das besteiras cometidas pelos filhos.
Veja
Nesses casos, dá para dizer que a droga foi o principal
combustível?
Tiba
Há uma corrente, com a qual eu não concordo, que defende
que a droga apenas desperta o assassino que a pessoa tem dentro de si.
Eu acho que não é assim. Quando começam a usar drogas,
as pessoas perdem a ética. Depois, têm a afetividade alterada,
piora o rendimento escolar e, só aí, o organismo começa
a ser atingido. Os bons princípios são devastados bem antes
pelas drogas, e a pessoa passa a pensar que pode tudo. Poder sem ética
vira violência.
Veja
As teorias que o senhor prega foram colocadas em prática
na educação de seus filhos?
Tiba
Meus
filhos não funcionaram como laboratório nem cobaia para
minhas teorias, mas eu e minha esposa nos empenhamos bastante para torná-los
capazes de enfrentar bem a vida. Em casa, nunca entregamos nada pronto
para eles. Nosso lema sempre foi: "Quem sabe fazer aprendeu fazendo".
Criamos uma espécie de contrato de conseqüência, ou
seja: se produziam ou agiam bem, eram recompensados pelo esforço
feito. Se não, sofriam a conseqüência.
Veja
O senhor os colocava de castigo? Batia neles?
Tiba
Não os castigava. Eu os ensinei a arcar com o ônus e o bônus
de seus atos. Também nunca bati, mas, às vezes, quando algum
fazia muita birra, eu dava uns gritões na orelha dele e estabelecia
um prazo para ele mudar de idéia.
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