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Ponto
de vista: Lya Luft Faxina
nos mitos II
"A maioria das pessoas de
classe média na metade da vida poderia correr menos e viver mais.
Não viver adoidado, mas assimilando o mundo, os afetos, a arte. Celebrando
a vida com suas mutações"
Como na coluna anterior, publicada há quinze dias, aqui não falo
dos verdadeiros mitos, que preexistem e que a gente não cria, mas descobre,
pois fazem parte do nosso inconsciente, emergem nos sonhos, nas análises,
na busca de significados. Falo dos mitos inventados por nós mesmos, pela
mídia, pela cultura, pelos que pretendem governar nossas mentes. Eles têm
a ver com fantasias, preconceitos e medos, com hipocrisia.
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Um
deles, o mito da competência, antes aflição tipicamente masculina,
hoje atormenta muitas mulheres. A chamada liberação feminina foi
também assunção de um monte de responsabilidades, dilemas
e trapalhadas viris. Está certo que este é um mundo altamente competitivo.
É verdade que todos precisamos ganhar o pão nosso com o velho suor
ou o mais moderno stress. Mas, com o passar do tempo, uma vez que depois
dos 40 anos é que as coisas e as cabeças começam a ficar
interessantes, o mito da competência poderia ser substituído pelo
desejo de sabedoria. Ambicionar algo mais e melhor do que prestígio e dinheiro.
Temos gravado a fogo, na testa e no peito, uma
cruel tatuagem: "Eu tenho de". A gente tem de estar à frente, ainda que
na fila do INSS. A gente tem de ser, como escrevi tantas vezes, belo, jovem, desejado,
bom de cama (e de computador, é claro). A gente tem de aproveitar o mais
que puder, explorar o outro sem piedade ou bancar o forte e ajudar meio mundo,
mas não deve contar com ninguém para escutar as nossas dores. Porque
nem lhe daremos chance: a gente tem de ao menos parecer onipotente.
A maioria das pessoas de classe média na metade da vida poderia correr
menos e viver mais. Não viver adoidado, mas assimilando o mundo, os afetos,
a arte, a beleza inventada ou natural que nos rodeia. Celebrando a vida com suas
mutações. Publiquei um livro que
chamei "infantil", mas realmente é uma pequena fábula para qualquer
idade. Uma metáfora: histórias de uma bruxa boa não muito
irreal, com as falhas, divertimentos e sustos de uma pobre mortal. De momento
escrevo um Bruxas Dois, falando das transformações que nos
assustam e fazem crescer. Bruxinhas vão à escola e percebem que
mudar nem sempre é perder; uma criança indaga por que não
tem vovô, e lhe dizem que, como na natureza, também entre os humanos
as coisas se transformam, persistindo de outras maneiras. Mesmo adultos, nunca
nos livraremos inteiramente dos mitos castradores. Mas podemos melhorar, em muito,
a nossa perspectiva, e afrouxar nossas algemas. Porque crescemos até morrer,
embora em geral se pense que nos deterioramos. Caminhamos com os medos e incertezas
soprando seu bafo em nosso calcanhar, por isso somos uns heróis no cotidiano
e no transcendental. Quando esta coluna for publicada,
estarei na França falando da nossa cultura, da nossa literatura, do nosso
país. Apesar dos desalentos, há muita coisa boa a dizer. Em português,
é claro, ou, como dizia meu amado Erico Verissimo, "falando outros idiomas
com orgulho do meu bom sotaque brasileiro". Também na alma, diga-se de
passagem, porque a alma tem lá suas manias, que são o sotaque do
seu contexto humano e cultural, as tradições, a coragem e as fragilidades
do seu povo. A alma que aqui escreve, adoçada pelo tempo, nunca achou graça
na inclinação dos pernósticos e inseguros de querer ser mais
europeus do que brasileiros. Não "tenho de" aparentar mais do que isto
que, com muita dificuldade, afinal consigo ser.
Lya Luft é escritora |