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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
A jóia da coroa
O governo Lula imaginou
o contrário,
mas o forte de sua política externa são
as relações com os EUA
A maior conquista da política externa
do governo Lula são as excelentes relações
com o governo do presidente George W. Bush. Pode parecer irônico,
e é mesmo. Nestes 28 meses de governo, gastou-se enorme quantidade
tanto de retórica quanto de combustível de avião
para propagar a idéia de uma política externa diferente
"independente", "terceiro-mundista", "sul-sul" ou "de esquerda",
escolha-se o rótulo que se preferir. De um variado cardápio,
que incluía das relações ditas estratégicas
com a China à ênfase supostamente preferencial no Mercosul,
passando por insistentes turnês africanas, o que se extraía
como ponto comum era o desejo de ostentar distância de Washington.
Eis que a secretária de Estado Condoleezza Rice nos faz uma
visita na semana passada e sua permanência no país,
permeada de charme e de elogios ao Brasil, "uma potência regional
que caminha para se tornar potência mundial", assinala a volta
ao porto seguro das relações com os Estados Unidos,
ao cabo de uma laboriosa e fútil viagem da circunavegação
da diplomacia lulista ao redor do planeta.
A confusão entre fantasia e realidade,
doença que afeta os governos em geral, e manifesta-se com
especial virulência no governo Lula, tem na política
externa sua área preferencial de atuação. Alguns
exemplos:
Fantasia: "Eu tenho a convicção
de que o que nós fizemos na América do Sul nestes
dois primeiros anos foi um avanço maior do que o que foi
conquistado nos últimos quarenta ou cinqüenta anos"
(presidente Lula, dia 20 último, perante a Organização
Regional Interamericana de Trabalhadores). Realidade: o Mercosul
está em destroços e a relação com a
Argentina recuou ao nível conturbado da época da construção
de Itaipu. Até o ato simples e mecânico de conceder
asilo político ao presidente deposto do Equador converteu-se
em motivo de discórdia, a Argentina reclamando de o Brasil
forçar a mão no afã de exercer influência
sobre os vizinhos. As condições para a trombada estão
postas. De um lado, um presidente argentino dado a ressentimentos
e amuos. De outro, um presidente brasileiro não só
sedento de exercer liderança, mas vulnerável ao pecado
de alardear liderança. O resultado são infantilidades
como o argentino não ir ao funeral do papa porque o brasileiro
foi.
Fantasia: "O Itamaraty considera que Seixas
Corrêa tem grandes chances de ser escolhido para o cargo"
(Correio Braziliense, 28/2/2005). Realidade: a candidatura
do embaixador brasileiro Luiz Felipe Seixas Corrêa à
diretoria-geral da Organização Mundial do Comércio,
lançada para se contrapor à do francês Pascal
Lamy e à do uruguaio Pérez del Castillo, foi eliminada
logo na primeira rodada de consultas entre os países-membros.
Ficou atrás até do que era tido como o maior azarão
do páreo, Jaya Krishna Cuttaree, das Ilhas Maurício.
As consultas são sigilosas, mas consta que, na América
Latina, só o Panamá optou pelo brasileiro. Do episódio,
sobrou a evidência de que o Itamaraty se lançou a uma
aventura, característica da empolgação que
o tem acometido. De quebra, exibiu ao mundo a fratura do Mercosul,
que já tinha no uruguaio um candidato nascido em seu seio.
Fantasia: "Nossos países estão
consolidando, definitivamente, uma das mais sólidas relações
políticas, comerciais, culturais e econômicas que o
mundo já conheceu" (presidente Lula ao presidente chinês
Hu Jintao, em novembro último). Realidade: a China, ao vetar
o ingresso do Japão no quadro permanente do Conselho de Segurança
da ONU, virtualmente congelou a reforma do órgão.
Por tabela, feriu de morte o acalentado projeto brasileiro de figurar,
ele também, no seleto clube dos "permanentes". Não
que o enterro do projeto mereça lágrimas. Pertencer
ao Conselho de Segurança traz inconvenientes que vão
da ciumeira dos vizinhos à contingência de, uma vez
lá dentro, ser confrontado a todo momento com os caprichos
e imposições da potência americana. Mas é
uma cisma do governo Lula. Faz parte de seu show. E foi golpeado
justamente pelo "parceiro estratégico" chinês.
O som e a fúria são a característica
central da política externa de Lula. De concreto mesmo, temos
as relações com os EUA. Em honra delas, vale até
uma boa trapalhada, como a protagonizada na semana passada pelo
ministro José Dirceu, ao se precipitar em direção
à Venezuela na véspera da chegada de Condoleezza.
Ao que tudo indica, ele foi tentar arrancar do coronel Hugo Chávez
algum tipo de abrandamento de sua postura antiamericana, para oferecê-lo
como um mimo à secretária de Estado. Voltou de mãos
vazias. O assessor de Lula para política externa, Marco Aurélio
Garcia, diria depois que Dirceu foi à Venezuela discutir
"assuntos gerais" como se fosse concebível alguém
correr a um avião, ir até outro país e voltar
correndo só para discutir "assuntos gerais". O que se queria
mesmo era exibir força e oferecer um agrado a Condoleezza.
O governo Lula não sabe e até pensa o contrário,
mas a relação com os Estados Unidos é a jóia
da coroa de sua política externa.
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